3 de nov de 2009

A AVÓ-LUA


-Meu nome é Lilith!
- É banal, disse elizabeth.

Diante do silêncio resoluto de Kátia a amiga continuou com o ritual.

- Eu proclamo que Lilith está diante do primeiro portão neste círculo mágico e eu, A avó-lua, a recebo como membro da antiga tradição.

- Agora é a minha vez!Disse Elizabeth.

Kátia assumiu a função ritualística e disse:

- Quem bate à porta deste sagrado portal?
- Uma buscadora de iluminação.
- Qual o teu nome?
- Brida!
- Brida, é brega demais, muito Paulo Coelho, disse Kátia.
- Você escolheu o seu nome e eu escolhi o meu. Defendeu-se Elizabeth.
- Tudo bem, mas temos que cuidar para que nossa confraria mágica não fique muito babaca.
- Depende do que a gente fizer.
- Se for o caso, depois a gente muda, numa fase mais avançada. Arrematou Kátia.
- Nós somos netas da avó-lua, justificou Elizabeth encerrando a discussão.

As duas amigas sentaram-se numa pedra, acenderam umas varetas de incenso e ficaram observando a coluna de fumaça cheirosa subir para o céu, iluminadas pela luz forte da lua cheia. Permaneceram assim por quase uma hora.

- Vamos retornar para casa, disse Elizabeth.

- Vamos esperar só mais um pouquinho, pediu Kátia.

- Só mais 10 minutos.

Depois caminharam em direção às suas casas abraçadas. E enquanto ia andando, a Lua parecia seguia-las por entre as árvores, a sua luz se esgueirando como um olho cuidadoso através dos galhos.

- Veja a sombra que esta arvore faz, lembra uma multidão de fadas, com as suas asinhas abertas para voarem rápidamente caso se sintam ameaçadas, observou Kátia.

- A lua escreve com a sombra mensagens secretas que nós devemos aprender a ler, disse Elizabeth em tom solene.

- A avó-lua escreve com a sua luz no corpo da mãe-terra, acrescentou Kátia.

- Ótimo vamos incluir isto em nosso grimório, concordou Elizabeth.

As duas garotas continuaram caminhando até alcançarem o açude que ornamentava a entrada da cidade e cujo espelho d’água já refletia as primeiras estrelas, esmacidas pelo luar intenso. As duas primeiras sarcedotizas da Confraria mágica da Avó-lua correram pela calçada, rindo sem motivo aparente, inundadas por um entusiasmo místico, correndo como se dançassem uma coreografia sagrada.

- O grande círculo dourado apossou-se da superfície da água, gritou Elizabeth.

- Como uma grande fogueira de luz celestial, gritou Kátia.

- E nós voamos com o vento.

- Que sopra sobre a terra.

Elas estavam exaustas quando chegaram ao portão da casa de Kátia. Despediram-se sem qualquer palavra cheias de muita alegria.

Kátia respirou fundo e entrou em casa devagarinho, na sala a televisão estava ligada e justo naquele instante o reporter televisivo em edição especial noticiou que um foguete da Nasa explodiu na superfície lunar, mas que a experiência havia falhado pois a explosão não havia levantado bastante poeira lunar.

Dona Clara percebeu que a filha estava imóvel e muitas lágrimas molhavam-lhe a face.

- O que houve, filha. Ela perguntou.

- Machucaram a Avó-lua. Kátia disse e caminhou para o seu quarto cabisbaixa.

Trancada em seu quarto olhou para a Lua e os seus olhos ficaram todos cheios de luar e escorriam-lhe pela face.