22 de dez de 2011

A MENINA CARTOMANTE - (1)


***A Primeira Lição***

A velha cigana escutou a batida na porta e gritou:
- Quem é?
-Kátia, respondeu uma voz infantil lá de fora.
 A velha cigana então fez que ninguém havia batido na porta e continuou a mexer a panela de feijão. Mas a porta recebeu pancadas ainda mais fortes e a cigana gritou:
- Não tem ninguém em casa, vá se embora!
- Tem sim, que estou te escutando.
A cigana jogou a concha artesanal feita com uma vareta  traspassada numa catemba de coco e foi até a porta.
-Eu não disse que a senhora estava aqui?
A cigana fez menção de que ia fechar a porta, mas a menina retrucou rápido:
- Pago para a senhora me ensinar a ler as cartas.
 - Que estória é essa menina? Disse a cigana espantada com a assertividade da garota.
- Isso que a senhora escutou. A senhora não é cigana?
- Sou.
- Então me ensine a ler as cartas.
- E quem lhe disse que eu posso ensinar; é um segredo.
- Pode sim, que a senhora ensinou para a minha vó.
 - Não ensinei não.
- Ensinou sim, disse Kátia com uma cara de certeza.
A velha cigana pensou em bater a porta e voltar para o fogão, mas diante da cara da menina, ela previu que não seria fácil se desvencilhar da donzela, e não precisava de nenhuma bola de cristal para perceber que dali por diante a garota iria marcá-la sob pressão. Então fez a garota entrar.
- Só posso ensinar a ler as cartas a quem sabe ler e escrever.
 - Eu já sei ler e escrever.
- Você sabe o que é o destino?
- Não, mas a senhora vai me ensinar.
Entraram em direção da cozinha. A cigana continuou os seus afazeres como se esperasse que em algum momento a menina desistisse. Mas como ela não dava sinal de qualquer enfraquecimento em seus propósitos, a cigana chamou-a para a mesa da sala, pegou um baralho e disse:
- Veja isto é um baralho comum. Eu vou lhe ensinar a usá-lo. Mas você deve me prometer que não irá fazer leitura de cartas para ninguém até que tenha aprendido tudo. Entendeu?
A menina fez um gesto de assentimento com a cabeça e a cigana prosseguiu:
- Usamos do Ás até o 7 , mais o valete, a dama e o rei de cada naipe. São dez cartas de cada um, e mais um coringa. Ao todo serão quarenta e uma cartas. Cada naipe tem um assunto principal e cada carta um significado expresso por uma palavra chave, que você deve guardar na memória.
A cigana parou a explicação e foi fazer outras coisas dentro da casa.
- É somente isso? Perguntou a menina.
- Não.
- E por que não termina a lição?
- Porque falta você me pagar. Tudo na vida tem um preço. É bom que aprenda desde cedo. Não se lê as cartas de graça.
- Trouxe dinheiro para pagar.
- Quanto você tem aí?
- Todo o meu cofrinho. Já contei, tem 57 Reais.
- É muito pouco e isto já pagou a primeira lição, junte mais dinheiro e depois continuamos com a segunda lição e traga o seu baralho.
- É muito caro.
- Conhecer o destino dos outros é muito caro.
A cigana parou para contemplar a obstinação da garota.
 - Por que você quer aprender a ler as cartas?
- Eu quero ser uma cigana.
- Você pode ser uma cigana no carnaval.
- Não falo dessa cigana de carnaval, eu falo da cigana que sabe dos mistérios da vida dos outros.
- E quem lhe disse que as ciganas sabem disso?
- Minha avó me disse.
- Neste caso, não vou discutir com você. Quer um pouco de café?
- Sim, aceito.
A velha cigana pegou o bule fumegando do café recém coado e colocou na mesa. Sentaram-se. O aroma de café inundou  todo o ambiente.
- Eu li que a gente também pode ler a sorte em xícaras de café. Disse Kátia.
- A sorte se pode ler em todos os lugares.
- Tem vários tipos de sorte, não é?
- Como tem vários tipos de pessoas, mas cada qual encontra o seu próprio jeito de encarar a vida.
- Eu sei que tem sorte no amor, no trabalho e na saúde.
- Tem varias sortes dependendo de cada um.
A cigana não se deu conta de que estava conversando com a menina. Talvez a solidão a tivesse feito esquecer as diferenças e se aberto a conversar com outra pessoa;  nem se apercebeu de que estava ali com uma menina falando da vida. Kátia levantou-se e falou que quando juntasse mais dinheiro voltaria para ter a segunda lição de cartomancia.

31 de jul de 2011

Cartas das leitoras e leitores de Padma.

Fazendo um comentário geral, gostaria de dizer que esta sendo algo muito importante para mim. Nunca imaginei que textos escritos e postados num blog fossem causar algum tipo de movimentação, estava satisfeito em concluir o projeto que havia começado com uma amiga finlandesa. Estou publicando algumas das cartas que recebi e que autorizaram a publicação.  Também tive alguns encontros interessantes com algumas pessoas que preferiram comentar  as coisas pessoalmente.  Então aproveitamos ir ao cinema assistir Cilada.com, que eu recomendo. 

PADMA é um folhetim em 12 capítulos que conta o encontro entre as jovens  Padma , 17 anos, e Gertrudes, 80 anos.  O capitulo número 7 será postado esta semana.

O link para os capítulos anteriores é:


Cartas  para Padma

LEITORA 1

Caro escritor: eu devia ter escrito outras coisas que preferi  não dizer da outra vez, mas como conversamos pelo bate-papo,  você  concordou que seria interessante eu mandar uma carta anônima. Eu  vou fazer.  Mandar uma carta anônima.   Para mim tanto faz se a sua amiga intelectual lhe disse que isto não era uma coisa aceitável. Mas uma vez que você se aceitou a interferência na estória,  você deve permitir que de alguma forma eu possa ir lá e falar pessoalmente com aquelas duas mulheres, então a melhor solução será eu mandar uma carta anônima.

Resposta para a Madame Min.

Cara MIn: eu sei que você não é a bruxa da estória em quadrinhos,  o codinome surgiu por acaso, e devo admitir que foi uma surpresa o nosso diálogo pelo Facebook. Vou concordar com a tua idéia de mandar uma carta para as personagens. Mande uma carta que eu incorporo no folhetim, mas preciso que me envie a carta até o último dia do mes de junho, pois tenho que escrever o  capítulo de julho.  Prometo que vou reagir positivamente a isto, acho interessante esta possibilidade de interação, é um pouco estranha, mas venhamos que o nosso mundo de hipertextos permite a experimentação de tudo.

LEITORA 2

Caro autor, Gertrudes poderia ser mais dinâmica e ter mais vida pessoal, os capítulos estão muito filosóficos  e isto é chato.

Resposta

 Cara amiga, obrigado pelos seus comentários,  acho também que deveria desenvolver mais o lado pessoal de Gertrudes e que o texto ficou muito restrito ao dialogo das duas mulheres.

LEITORA 3

Caro amigo, parabéns,  eu até gosto deste tipo de subliteratura. Fazer o que? Não é este o nosso mundo?  Mas como você gosta destas experiências então vá em frente.  Estou curiosa para ver o que vai acontecer com elas.

Resposta

 Cara amiga, é uma experiência interessante. Eu nunca havia participado de algo assim.  É bem verdade que já joguei muito RPG , que é uma brincadeira que me fascina profundamente.  Acho que a tua colaboração me dá uma injeção de ânimo.

LEITOR FAMOSO

Caro diretor, comecei a ler o teu texto e realmente achei algo fora de propósito. Não sabia que você trilhava também por estas bandas.  Fico feliz pela sua ousadia.  Uma pena que você tenha abandonado a boemia. Li a primeira carta da leitora no Facebook. Não ligue para aquela maluca. Deve ser uma patricinha sem ter o que fazer se escondendo atrás de um pseudônimo, ou até mesmo um marmanjo que se sente proprietário das literaturas. Abraço, meu codinome será Agileu.  Não me pergunte a razão.

Resposta

OK agileu, obrigado pela participação, estas coisas são assim mesmo, mas considero que todos tem direito a pensarem da forma que quiserem, e um trabalho seja ele qual for, mesmo uma coisa como esta que é mais um passatempo meu, uma vez que está no ar e todos podem ler então também deve passar pelo crivo de toda a critica. Quanto a Madame Min, ela é uma pessoa legal, você a conhece.  Um dia desses fomos tomar um café na Cafeteria da Livraria Leitura do Manaíra Shopping,  ela fez um escândalo,  a sua personalidade literária é muito briguenta. No entendimento dela todos somos personagens, todo este nosso mundo é um universo paralelo como aquele do seriado Fringe. Obrigado pelo email. Grande abraço.

LEITORA  4

Everaldo, gostaria de dizer que o titulo é muito ruim.  O nome da personagem, também é muito sem sal. Quem sugeriu este nome deve ser uma criatura com problemas graves de referencia cultural, pois “Padma” parece nome de leite longa vida. Sugiro que o nome da personagem mais jovem seja trocado para Rebeca, que é um nome mais jovem e mais perto de nossa realidade. Para que esta mania de colocar nomes chineessses?  Beijão.

Resposta

Cara amiga, acho que o nome “Padma” se encaixa na personagem.  Agora,  depois de todos estes capítulos com este nome,  troca-lo me deixaria um tanto confuso. É  o que penso. Beijos.
***

5 de jul de 2011

O ÚLTIMO DIA DE SINHÁ ZANZA


Os últimos suspiros de Sinhá Zanza foram acompanhados por uma única lagartixa que estava muito próxima.  O clima era alegre; estava morno mesmo para um daqueles dias de inverno no qual o sol castiga como se fosse um verão pleno. Era um dia entre tantos outros, que haviam sido frios de doer na alma. Mas este havia amanhecido com uma luz forte, brilhante e calorenta. O céu estava de um azul bem clarinho com apenas algumas nuvens de algodão doce. Vocês sabem que este tipo de nuvem se espalha pelo céu de um jeito tão delicado que mais parecem terem sido feitos de açúcar.

Neste dia Sinhá Zanza acordou. Abriu os seus olhinhos delicados. Viu a maravilha daquela nova jornada de sua biografia. Levantou-se. Fez a sua higiene pessoal.  Ela tinha o hábito de esfregar muitas vezes uma mão na outra e passá-las pelo rosto, repetindo esta rotina uma dezena de vezes. Ela era muito asseada. Ela sempre fazia as suas refeições fora de casa; então, colocou uma echarpe, um óculos de proteção contra o vento e saiu rápida para a avenida.

Encontrou perto de sua casa umas guloseimas que estavam na oferta, entre doces e comidas mais condimentadas, e algumas até com certo tom de maturação que passava do ponto e exalavam um cheiro forte, mas Sinhá Zanza adorava sensações fortes. Foi um banquete matinal digno de uma princesa.
Ela era muito comunicativa e sempre freqüentava a casa de todos sem distinção, mesmo daqueles que a tratavam muito mal. Ela era uma boa alma. Gostava de estar à mesa. As crianças não faziam caso de sua presença e até não se importavam de repartirem com ela a sua comida. Os adultos, não, ficavam muito irritados. Mas Sinhá Zanza não tinha qualquer mágoa e algumas vezes até filava a bóia do gato ou do cãozinho. Eles não se importavam com ela. Depois do repasto, ela voltava ao seu ritual de limpeza esfregando as mãozinhas e novamente era expulsa daquela casa.

Algumas pessoas pensavam em tomar providências drásticas contra ela. Uma pessoa de sua classe deveria se recolher aos ambientes que lhe eram próprios e não perturbar a vida das pessoas normais.
Sinhá Zanzá pensava que se a vida já era uma coisa tão curta, algo tão pequeno, porque não iria compartilhar do alimento e do calor vital em meio a outras criaturas igualmente vivas.

Por isso fazia os seus caminhos de forma zigzagueante de tal sorte que aquilo que melhor lhe apetecesse fosse a sua parada para fazer uma boquinha. A sua filosofia se resumia a este ato magistral de comer e fazer a sua higiene pessoal. Nisto todos concordavam: ela era muito higiênica consigo mesma, apesar de não ter o pudor de compartilhar o prato de quem quer que fosse sem autorização.

Ela pensava que o alimento era a coisa mais sagrada que existia e que era o meio mais eficaz de unir duas almas. As pessoas, no entanto, consideravam nojenta esta sua forma filosófica de agir e a enxotavam sem cerimônia. Ela não reclamava;  se afastava um pouco, tentava novamente, até ser brutalmente empurrada para fora daquela casa.  As pessoas se perguntavam porque ela sempre voltava, burlava a segurança, aproveitava uma distração e entrava nos lares para compartilhar o grande mistério da vida.

Ela foi uma senhora muito vaidosa, que soube valorizar todos os seus instantes, sabia que a sua função era colocar no mundo outros seres vivos, e ela tinha feito isso de forma numerosa, deixando atrás de si uma linhagem que garantiu a sobrevivência de sua memória. Ela era  muito pouco cuidadosa com os seus filhos, mas isto não importava muito; ela pensava que cada qual deveria encontrar o seu próprio destino, que fossem à luta, a vida era algo para ser conquistado. A sua função de mãe limitou-se a lhes dar à luz, isto bastou ao seu lado materno.

Ela tinha algumas amigas com comportamentos parecidos que a compreendiam plenamente, mas eram também fechadas em seus próprios mundos. Assim quando ela morreu ninguém sentiu a sua falta. Os seus vizinhos comemoraram como se festejassem o recebimento de um grande prêmio de loteria.

No momento de sua morte estava apenas o vazio da sala. A luz vermelha do crepúsculo espalhava-se pelas paredes como um movimento frenético de pintura. Havia também uma aranha numa das quinas do teto observando os acontecimentos. Nos momentos finais, ela estava exausta de sua intensa vida, uma vida pequena para os padrões humanos. A última coisa que ela viu foi a língua gosmenta da lagartixa  faminta que a engoliu.

27 de jun de 2011

CARTA DE LEITORA E RESPOSTA


A CARTA

Querido escritor, estou te escrevendo para dar a minha contribuição ao desenrolar da estória de Padma e Gertrudes. Estou também aceitando a idéia de que você vai me permitir fazer algumas alterações na estória. Esta criatura chamada Padma é uma imbecil. Ela não tem futuro, e acho que também não deve ter passado, ela é uma descarga de caricaturas femininas relacionadas com esta literatura babaca da nova era, tipo Paulo Coelho, e esta mulherzinha apesar de sua familiaridade com Brida, que li mas me arrependi, deveria tomar jeito de gente. Todas as pessoas tem o direito de errar e ler aquelas  obras aguadas pelo menos uma vez. KKKKKKKKKKKKKKK. Não ria, eu posso, você não, rs rs rs. Assim já que você apareceu no Facebook e disse que eu poderia mandar alguma sugestão, então lá vai:

1 - Você deve mandar esta Padma voltar até o Hospital de Emergência e trauma e pegar aquele Dr. Raul e dar a sua xxt  para ele. Porque acho que esta criaturinha nunca experimentou as delícias de uma boa trpd.

2 - Ela deve levar o Dr. Raul para a casa de Gertrudes.

3 - Acho ridículo, esta estória de criar uma galinha em um apartamento, é algo completamente contra a natureza da civilização.
4 - não divulgue o meu nome em hipótese alguma, pode usar as minhas dicas, mas exijo o anonimato.

5 - Cadê a Gertrudes do primeiro capitulo? Ela era muito mais animada e descontrolada, e agora é uma velha rabugenta. Ela foi se tornando uma bruxa de desenho animado.

Me perdoe a frankkkkkeza, kkkkkkkkkkk, mas como escritor você é um péssimo blogueiro, arranje outro hobby. Estou sendo sincera com você, não precisa me agradecer por isto, vá encher a cara de cachaça que tem mais futuro.

De sua leitora por caridade, kkkkkkkkkkk,

Lembre-se de que não quero que me identifique, pode publicar, mas estou invisível.

bjsssss, rs rs rs rsrsrsrsrsrsrs

A RESPOSTA

Junho de 2011
Cara amiga invisível,

Vou chamar-te de mulher invisível, ou Min, ficará sendo o teu codinome.

Obrigado pela sinceridade, não é todo dia que alguém diz palavras tão duras com tanta propriedade. Primeiramente quero te esclarecer que não sou um escritor profissional. Este livro chamado Padma, começou como uma brincadeira de criação coletiva e tomou este rumo inusitado, como escrevi na explicação inicial as personagens foram tomando rumo e exigindo uma solução.

Em relação à tua carta, resolvi publicá-la, mas com algumas precauções, pois você usa uma linguagem muito à vontade, apesar de ser uma pessoa culta no seu perfil: com formação universitária e falante de idiomas estrangeiros.

Cortei as expressões de baixo calão. Deixando apenas as consoantes das palavras. Assim deixei o teu pensamento intacto.

Quanto ao Paulo Coelho, não o considero uma pessoa indigna de tua consideração, ele é membro da Academia Brasileira de Letras. Coisa que muita inteligência crítica sequer sonha em conseguir.

Quanto às tuas sugestões devo admitir que você tem uma mente pervertida. 

Padma não poderia jamais ir até o Hospital e oferecer-se ao Dr. Raul como uma rameira. Ela é uma criatura especial. Você ainda não conseguiu entender o propósito de Padma.

Não sei como resolver a situação de levar Dr. Raul para conhecer as amigas no apartamento, Não há um motivo plausível para isso.

É plenamente aceitável que se crie uma galinha no apartamento, ela é um símbolo da luta contra a violência no mundo de hoje.
 Lamento te informar que mesmo não sendo um escritor, adoro a tua caridade, alias, se não fosse por ela eu não estaria aqui te escrevendo, esta carta e aceitando a tua provocação e tem mais, eu não gosto desta linguagem de internet tipo  kkkkkkk, mas eu vou rir um pouco kkkkkkk, pois não vai dar para trazer a Gertrudes daquele primeiro momento de volta, ela está sofrendo modificações em sua maneira de ver o mundo;  esta é a idéia principal da vida dela.
Eu sei que aquela mulher desbocada possuía os seus encantos, mas é preciso que aos poucos ela vá revelando aspectos de sua angustia interior, você me entende?

A vida não é somente cachaça e festa, têm um momento no qual se precisa pisar os pés no chão. Este é o processo de descoberta dela. Ela já tomou muita bebida, já namorou muito, mas agora ela lamenta-se de não ter mais a juventude. Você deve ter visto o filme Piratas do Caribe 4, na qual a personagem de Jonh Deep vai em busca da fonte da juventude. Acho que se Gertrudes pudesse ela iria atrás de uma fonte como aquela.
Atenciosamente
E V

26 de jun de 2011

CAPITULO 6 - OUROBOROS



- Você tem uma filha! Disse Padma.  E tudo mais foi silêncio.

***
Antes, porém, algumas horas, dizia Gertrude: 
- Eu estava numa festa. Ele se chamava Jacinto. Estávamos embriagados, não pela bebida, pois havíamos bebido pouco,  mas ébrios da possibilidade de nos tocarmos um ao outro, na escuridão do salão de dança,  enquanto a orquestra tocava uma musica romântica, ele arrastou os seus lábios para os meus e eu fui completamente abduzida para um grande beijo.
Os fogos de artifício estouravam lá fora. Do terraço do apartamento podia-se ver as ruas com as fogueiras formando um tapete de grande energia. As festas juninas traziam consigo outras memórias. Padma e Gertrudes contemplavam aquele espetáculo primitivo que teimava  em resistir ao asfalto e aos espigões de concreto. 
- O que você fez? Provocou Padma. 
 - Preferi não fazer nada apenas deixei que as coisas fossem acontecendo, uma atrás da outra foram se sucedendo a um ponto que eu perdi a noção de como foi a noite.  Lembro-me que nos beijamos muito;  era como um doce que nunca acabava e que quanto mais comíamos,  mais queríamos;  não havia  enfaro;   sempre parecia que tudo era o primeiro bocado novamente.
- Parece com um beijo de romance. Comentou Padma.
- Foi o meu primeiro beijo.
- Estou emocionada. Suspirou Padma
 - Eu ainda lembro de seus olhos negros.As luzes do lugar pareciam todas de um tom azulado.  Eu não tenho na memória todos os dados de minha experiência, pois hoje as coisas estão misturadas com a fantasia e com a saudade.  O tempo se encarregou de fazer de tudo uma névoa, transformando os fatos em algo mais parecido com versos soltos de poemas loucos, de poesias envelhecidas; era tudo tão belo que não valeu a pena desperdiçar nem um instante memorizando os detalhes.
- A gente não vive para escrever um diário.
- Eu teria escrito  se soubesse  que aquela foi a primeira e única noite de minha vida. Eu queria muito que aquele instante ficasse ali comigo para sempre,  mas o sempre é aquela impossibilidade metafísica das criaturas mortais;  o dia seguinte apenas me revelou que éramos somente um  grão de poeira de um universo de coisas sem fim e nem começo e que continuariam girando para qualquer lado.  A solidão seria sempre uma fatal possibilidade.
Eu jurei que lutaria com todas as minhas forças para superar esta falha deste cosmo insolúvel com estas criaturas que se julgam tão especiais, mas são apenas pó.
- A raça humana é muito especial. Falou Padma.
 - Sim, de algum modo especial, porque podemos brincar de eternidade enquanto vivemos.
- E tudo isto por causa de um beijo?
- Apenas recordar aquele beijo, trazê-lo à minha memória, faz-me reinventar a minha vida.   Naquela noite  eu pude ver o sol nascer nos braços daquela criatura.Adormeci e nunca mais o vi. Tenho a sensação de que foi como se tivesse conhecido um anjo, ou bebido demais e  conhecido no delírio extremo da intoxicação alcoólica aquele ser. A minha boca ficou muito dolorida...
- Com certeza não foi um anjo!
-  Acordei,  olhei para todos os lados.  Estava sozinha.  Quando me dirigi para o carro onde estavam as minhas amigas,  notei que elas não me olhavam de um jeito especial, eu era somente mais uma, e não aparentava exalar nenhuma aura característica de quem havia vivido um mmento sublime de amor.   Durante o café da manhã eu pensava que tudo era de uma ficção fantasmagórica, pois tudo de melhor havia me acontecido e ninguém havia notado a menor diferença.
- Todos os seres estão interligados uns aos outros no universo...
- Não, você está enganada. O universo é indiferente com as nossas pequenas descobertas.  Então o que importa se alguém vive ou morre?  Ninguém vai se preocupar  mesmo! Desde que você não altere,  para o bem ou para o mal, a vida de alguém  você não existirá para ela...
- Você é muito pessimista... Interrompeu Padma.
 - Então, a partir daquele dia,  decidi que todas as minhas agonias e medos eram  invenções de minha cabeça, e dali por diante nunca mais haveria de me preocupar, aliás, iria viver como uma pessoa invisível, e viveria feliz, coisa que tenho feito muito bem até hoje não fosse a demonstração clara e cabal de que  universo se move sempre e a minha alma apesar de manter o mesmo frescor, habita a matéria em movimento deste mundo.
-  Você poderia mover-me como ele.  É a tua ilusão de realidade que cria a finitude... Tentou explicar Padma.
-  É muita teoria para quem queria  apenas ser feliz. Descobri que estava sozinha  sempre sozinha  e que não adiantaria fingir que alguém seria o meu  cúmplice.  Então decidi ser feliz e caminhar em direção ao meu propósito, ser feliz,  simples como simplesmente aceitar quem eu sou não permitindo que alguém perturbasse o curso de minha vida. É assim que cheguei até este momento em que contemplo a tudo de uma posição privilegiada aos 80 anos,  porque não me arrependo de nada. Vivi bem.  Vivo bem. Cometi os meus erros comigo mesma e do ponto de vista geral sou como uma vaga de espuma que faz desenhos na beira do mar,  mas logo em seguida é substituída por outra.
- E se você tivesse a chance de viver tudo novamente?
- Há uma coisa... Algo que fiz e se pudesse reviver aquele momento de ouro...
- O beijo?
- Não, os olhos de minha filha, recém-nascida que vi uma única vez...

***

- Você tem uma filha! Disse Padma.  E tudo mais foi silêncio.



13 de jun de 2011

MENSAGEM NA GARRAFA

Esta é uma mensagem dentro de uma garrafa digital, que estava boiando numa nuvem digital.

Caro amigo, amiga,

Havia recebido uma rosa virtual quando abrira o facebook logo na chegada ao trabalho. Ela estava lá pairando sobre os avisos dizendo que alguém a tinha enviado para mim.

Uma rosa vermelha, como um certo batom que conhecera certo dia. Senti como se uma chuva de pétalas rubras caíssem sobre mim. Pude sentir o aroma delicado das pétalas e ouvir o toque de sua textura tocando os meus ouvidos. Uma rosa proibida como aquela que habitava o jardim de uma fera que fora encantada por uma bruxa malvada. Por alguns instantes deixei-me viver em meus devaneios a posse daquela flor, de modo que a minha melancolia fosse abrandada por alguns instantes.

Por coincidência, eu vinha como aquele principe estrangeiro, caminhando a esmo pelas estradas virtuais, tateando os jardins do mundo, em busca de uma flor a quem pudesse confessar a minha solidão.

Imaginei então que poderia fazer valer os encantos mágicos que tinha aprendido com os livros de Harry Potter, que talvez pudesse ir até à estação ferroviária do varadouro e atravessar de trem para o reino de Sâo Saruê, numa combinação de magia inglesa e cultura nordestina. São Saruê, terra mítica criada pelo poeta Manuel Camilo dos Santos, era  o lugar onde todos os sonhos se realizavam.

Adormeci. O cansaço me consumia os olhos. O que vou relatar agora, não posso atribuir unicamente, a um estado onírico. Quando acordei estava coberto de pétalas de rosas e a minha sala exalava um perfume intenso que tomou conta de todo o prédio e espalhou-se pelas ruas vizinhas.

A minha primeira reação foi de que aquilo tratava-se de uma brincadeira de meus colegas de repartição, mas pela reação deles verificara que alguma outra coisa estaria ocorrendo além da possibilidade de um telegrama animado pela trupe de palhaços Agitada Gang.

Ocorreu-me também que poderia estar acordando dentro de um sonho, como às vezes acontece com algumas pessoas. Levantei-me bruscamente e derrubei o copo de café que havia esfriado sobre a minha mesa de trabalho. Não, não era um segundo sonho.

Da janela do sétimo andar, os meus colegas se comprimiam para olhar algo que estava ocorrendo lá embaixo. Busquei um lugar em uma das janelas e vimos todos uma imensa multidão aproximando-se do prédio. Um frio percorreu-me a espinha, que lugar era aquele tão igual ao meu mundo?

Lembrei da realidade paralela daquele seriado americano Fringe, e de tantos outros lugares que a ficção científica tornou tão plausíveis. Que realidade era aquela que mais parecia  outra camada onírica? Mais um véu de todos  que guardavam o caminho do céu?

As pessoas lá embaixo formaram circulos concentricos ao redor do prédio. E começaram a cantar as canções que eu mais gostava. Ora, venhamos de volta à razão, no mundo real não existiam aquelas cenas. O absurdo se instalou quando percebi que os meus colegas embriagados pelo entusiasmo provocado pela música saiam voando pelas janelas feitos bem-te-vis. Era mais uma camada de sonho.

Voltei para a minha mesa e contemplei a tela de meu computador. Para minha surpresa lá estava a reprodução nítida de meu ambiente de trabalho. Os colegas ainda estavam lá em sua movimentação. A tela mostrava o ponto de vista da imagem de alguém que estivesse dentro do computador.

Vi quando passou a gostosa secretaria de meu chefe, olhou para mim, deu um sorriso e se foi. Depois Java, que era o meu calo, todos temos um amigo falso no trabalho, veio até a minha sala; ele sempre fazia isso na minha ausência. Ele parou diante da tela e ficou olhando para mim. Eu falei, ele respondeu. Mantivemos uma longa conversa como se estívessemos usando o Skipe. Então ele me perguntou onde eu estava.

Ali percebi que algo estranho havia ocorrido. Eu estava dentro do computador.

Fiz algumas incursões neste novo lugar. Recomendo a você que está vendo agora esta mensagem que leia o folheto de cordel sobre São Saruê. Ele contém uma parcela das coisas que vi por aqui, mas há muito mais, que não couberam nas sextilhas do poeta. Ainda não encontrei a remetente da flor que causou toda esta aventura.

Ainda estou tentando reelaborar a idéia de que isso poderia ser uma outra camada de sonho. Ainda permaneço aqui, mas tal qual Alice através dos espelhos espero que um dia possa retornar ao mundo real.

Por mais que se desejem os amores perfeitos, numa situação como essa é que percebi que são as imperfeições dos amantes que fazem do amor algo eterno.

Sinceramente

A

12 de jun de 2011

PRIMEIRO CAPÍTULO DE COISA NENHUMA


Ou então começo algum para ficar no mesmo canto esperando que o último ônibus passasse.

Foi há algum tempo atrás. Estava numa parada de ônibus....

 Abrí meu laptop; a luz da tela de LCD iluminou o meu rosto.

"Vou ser assaltado", foi o pensamento que passou em minha cabeça.

Mas prosseguí. Abrí o processador de texto e digitei: "PRIMEIRO CAPÍTULO". Então parei um instante imaginando sobre o que deveria ser aquela coisa cujo primeiro capítulo acabava de se anunciar. Levei um tempo parado, as mãos sobre as teclas.

- "Puxa vida! Sobre que mesmo devo escrever?", pensei.

Mas os dedos continuaram ali sem mover-se. Então vi que surgiu do nada, do outro lado da rua uma figura. 

Na semi-escuridão que dominava o lugar, apenas via o seu vulto.

"Se for o assalto, entrego o meu laptop". Completei em minha mente.

Aquela criatura ficou do outro lado me olhando e eu paralisado, não sabia agora se era por causa da falta de assunto, ou do medo de qualquer coisa inesperada ao estilo dos filmes de terror de Hong Kong.

Digitei uma seqüencia de frases, umas dez ou vinte, ou trinta, não sei ao certo, um número x. Levantei o rosto e a vista acostumando-se a pouca luz delineou a presença de uma mulher sensual, tipo  prostituta de piada.

 Então pela minha mente passaram-se todas as lendas urbanas inclusive aquela da loura fantasma que vampiriza os incautos nas noites frias. Baixei a vista e digitei mais uma linha, numa lentidão de doer, machucando cada tecla, uma a uma, num ritmo riticoquiano (acho que posso escrever esta palavra, ninguém vai ler texto mesmo). 

Reli o texto e não gostei, que coisa aguada, sem graça, estava sem jeito de agüentar a mim mesmo. Então num ato suicida apertei a tecla back space e o cursor correu em direção ao inicio. Ficou o cursor piscando no vazio, como dando os últimos respiros. Contemplei aquele desesperado pedido de existência e fiquei imaginando a condição humana. Eu o criador me recusando a dar vida à criatura. 

Senti, então, um calor próximo ao meu corpo. Levantei um pouco a vista e vi aquele belo par de coxas brancas. Fiquei gelado.

"Morri". Foi o meu pensamento enquanto esperei o golpe fatal.

Fui levantando a vista. Uma mini-saia negra e brilhante. um cinturão de couro com aplicações de metal. A barriga nua e preso ao umbigo um peircing dourado com uma pedra preciosa que mais parecia um diamante. Um sutiã curto sobre os seios fartos. Um trancelim em volta do pescoço. Um queixo de porcelana. Uma boca que parecia uma nave perfeita para o paraíso. Batom de cor vermelha, um matiz intenso nos lábios molhados. Um nariz de desenho simétrico com outro piercing brilhante no lado esquerdo. Os olhos azuis.

-"Que coisa mais linda". Pensei.

Ela ficou parada diante de mim, colada aos meus joelhos. Nenhuma palavra. Eu ia dizer o que numa situação destas, não tive nem a iniciativa de dizer que ela podia levar o que quisesse, o computador, o celular, a carteira, as minhas roupas e até eu mesmo caso ela me achasse de alguma valia.

Como ela não dizia nada, eu já encabulado baixei a cabeça. E olhei para o teclado e para o cursor piscando agonizante.

-Por que você apagou. Ela falou com uma voz suave.

Na minha mente confirmaram-se as minhas suspeitas sobrenaturais. Aquela coisinha linda deveria ser o espírito protetor dos textos assassinados prematuramente.

-"Mas, eu sou o autor, posso fazer o que quiser". Pensei em justificar, mas diante do mistério e sabe lá o que esta coisa poderia se transformar. Já tinha visto muitos filmes de terror com situações parecidas. então não custava nada ficar imóvel.

Para completar o cenário, a luz do único poste que havia apagou-se. Não foi um simples apagamento, mas uma coreografia de despedida. Primeiro deu três piscadas, ficou ainda mais intensa, piscou mais três vezes, mas desta vez um pouco irregular como se lamentasse a sua partida e por fim, ficou com uma intensidade muito grande e foi apagando como se gargalhasse em pequenas piscadas até a escuridão total. Ainda deu uma última piscada e depois disso éramos eu e a mulher,  iluminados apenas pela luz da tela de LCD.

Eu tinha comigo de que numa situação dessas eu iria abrir o berreiro, mas não, eu fiquei calmo, parecia até que eu estava com aquela bela mulher na cobertura de um edificio com amigos tomando um suco de laranja. E ao fundo a paisagem de uma pradaria verdejante de um dia de verão.

"Só faltava chover". Disse-me a mim mesmo.

Um raio cortou o céu. O trovão foi tão forte que fez vibrar os meus dentes. Para um filme de terror até que aquela situação ia bem, mas para alguém que estava somente esperando um ônibus...

- Você não fala? Ela perguntou-me.

Eu levantei a vista com certo cuidado.

-"É agora que esta coisa vai botar os chifres para fora".Pensava.

- Eu não vou te fazer mal.

- "Ainda não".

Olho no olho. Numa outra ocasião poderia até ser uma cena romântica. Então ela sentou-se ao meu lado. A luz de outro raio nos iluminou fortemente. Outro estrondoso trovão. Ela fitou o cursor piscando. Ficamos assim congelados por algum tempo. Se eu escrevesse aqui que foi uma eternidade, seria o lugar comum destas estórias, mas admito que neste caso, quando a gente está diretamente envolvida, com o corpo a perigo, a mente em pavorosa, é exatamente este o tempo de cada milésimo de segundo: uma eternidade.

- O que você estava escrevendo?

-"Algo, que nem sei". Foi o meu pensamento.

- Escreve algo. Ela pediu com uma voz mansa próximo ao meu ouvido.

Quase que eu caía na sua lábia. Um pedido destes ao pé da orelha com aquele hálito quente; quantas guerras não haviam começado com um pedido daqueles. Outra coisa que me passou pela cabeça foi que aquela coisinha deveria ser uma vampira arrumando um jeito gracioso de aproximar-se de minha jugular. Então cliquei uma letra qualquer. Saiu um Z.

-Z, para que serve um Z?

- "Vá zimbora daqui", brinquei em pensamento.

- Um z, lembra um besouro, não é, zzzzzzzzzzzzzzzzzz, voando e fazendo círculos no ar e pousando bem no meio de seu ninho. Ela falou, imitando o besouro com a mão direita, fazendo piruetas e finalizando com a mão sobre a minha cabeça.

-"Seja rápida". Foi o meu pedido interior.

Ela espanou os meus cabelos que se desalinharam sobre o meu rosto. Tinha os cabelos longos, mas desde aquela data os mantenho-os cortados no modelo mais tradicional possível.

-"Se eu desejar que ela dance uma coreografia de pole dance...". Nem terminei o meu pensamento.

-Vire a sua luz para mim, vou precisar dela, vou dançar para você.

Ela dançou; parecia voar fazendo manobras no cano do poste de iluminação como uma águia voando em busca de sua caça.

Estava com medo de desejar alguma coisa. Até agora dois pensamentos e dois acontecimentos. Era uma estatística de 100% de acerto.

- Me acompanhe com a luz enquanto eu me movimento. Ela ordenou.

Levantei-me com a tela do laptop virada na direção dela e fui acompanhando aquele corpo sensualíssimo fazendo acrobacias na haste do poste. Aqui e acolá relâmpagos e trovões. Eu já estava conformado com a cena.

Ela subiu até o ponto mais alto, hoje na memória tenho algo difuso como se ela tivesse ido até às nuvens e descido de cabeça até a minha altura. Deu um giro, ficou de pé rente ao meu corpo. Dava para senti-la, a palpitação de seu coração, o cheiro de seu suor.

- Gostou?

Eu imóvel. Ela excitada. Eu fazendo a conta de meus últimos instantes sobre a terra e ela a fim de me comer(no sentido literal de alimentar-se).

-"vou dizer o que?". Perguntei-me em pensamento.

- Diga qualquer coisa.

Eu ia abrindo os lábios quando ela avistou os faròis do ônibus que se aproximava. Olhou-me com certa fúria e correu em direção a um matagal próximo.

O farol do veículo de passageiros aproximou-se como uma carruagem de fogo iluminando-me no meio daquele negrume. Subi a bordo. Haviam outros, cada qual com a sua estória daquele dia de inverno. Olhei pela janela procurando ver aquela mulher.

- Viu alguma coisa? Perguntou-me o motorista

- Não. Respondi.

- Teve sorte.

O ônibus caminhou por aquelas ruas escuras, vencendo a chuva que se tornara muito mais forte.

Vez ou outra a imagem daquela mulher voltava para a minha mente. Assustava-me com a possibilidade de ela estar me espreitando atrás de alguma porta. Desenvolvi uma certa paranoia.

Voltei algumas vezes ao local durante o dia procurando encontrar explicações para o ocorrido.

Então veio-me a mente a idéia de escrever esta estória e fechar o ciclo daquela experiencia. Certas coisas precisam encontrar um final adequado, como um namoro que acaba num meio de uma chuva intensa. Aquela presença iria gostar deste texto e eu poderia inverter a polaridade e perguntar-lhe:

-Gostou? 

14 de mai de 2011

CAPÍTULO 5 - O CALDEIRÃO DA BRUXA


O vapor preenchia a cozinha como uma nuvem. Todas as janelas estavam trancadas e uma cortina improvisada com um lençol transformava o lugar numa sauna. Gertrudes  de pé diante de um imenso caldeirão cantava uma canção, meio parecida com alguma língua mágica estranha. Dentro do caldeirão uma única batata inglesa boiando naquele redemoinho fervente. Os olhos dela estavam inchados pelo vapor intenso e também pelas lágrimas que fluíam com regularidade.

Padma que vinha chegando em casa notou que o ambiente estava tomado de uma atmosfera tenebrosa. A principio tentou encontrar Gertrudes procurando-a com o olhar.

- Gertrudes! Padma chamou.

Mas nenhuma voz se ouviu, a não ser aquela canção em forma de grunhidos melódicos como se fosse a linguagem de um ser de outras dimensões de estórias das fadas.

Padma então se aproximou da cozinha. Dava para notar o vapor que se alastrava vindo de lá.

- Gertrudes, você está bem?

Mas nenhuma palavra se ouviu. Então Padma se aproximou e afastando um pouco a cortina improvisada viu 

Gertrudes á beira do fogão mexendo o caldeirão e entoando aquele canto sem sentido.

- Você está cozinhando uma de suas receitas secretas?

Mas Gertrudes continuou absorta na sua tarefa como se somente ela existisse no universo.

Padma aproximou-se lentamente de Gertrudes e viu a sua tristeza e compreendeu o que se passava. Então se colocou ao lado dela e pegando outra batata inglesa jogou-a no caldeirão e ficou também entoando o seu canto.

-Padma, porque você interrompeu a minha tristeza? Perguntou Gertrudes.

- Não interrompi, apenas me juntei a ela. Duas mulheres choram melhor quando estão acompanhadas. Foi a resposta.

Gertrudes aceitou a justificativa, não porque concordasse, mas porque já não podia fazer mais nada e a outra batata agora rodopiava também dentro do caldeirão.

-Hoje, fui tomada de uma tristeza tão grande, que a única coisa que me fez passar foi vir chorar à borda deste caldeirão, justificou Gertrudes.

-Esta é a sua herança de bruxa. Disse padma.

- Como nas lendas medievais.

- Um pouco delas também, mas principalmente o seu conhecimento intuitivo dos segredos do universo.

Gertrudes esboçou um pequeno sorriso e fizeram silêncio por um longo tempo.

- Um Caldeirão é como se fosse o universo, um planeta, a vida de uma pessoa. Falou Padma.

-De onde você tira estas suas idéias?

- Da intuição!

- E dos livros, já compreendi que você é uma das mestras iniciadas através dos livros da nova era. Você é mais uma das bruxas hi-tech.

- Há coisas que os livros não podem te ensinar...

- A receita da eterna juventude? Provocou Gertrudes.

- Esta receita já está escrita em alguns livros.

- Qual?

- Você não me leva mesmo à sério, não é?

- Padma, eu sou como esta batata que já está se desmanchando e você é esta outra que ainda está aí dentro durinha esperando para ser cozinhada. Quando eu te pergunto sobre estas coisas, e brinco com as suas filosofias, é porque eu já estou me misturando de volta ao caldo universal.

- Uma batata não é somente uma batata, como este caldeirão é muito mais que um recipiente de alumínio, então faça disto uma nova possibilidade acrescentando mais algumas cores a este turbilhão, umas cenouras, por exemplo,

- Cenouras?

-Sim, primeiramente. Que significado você dá a elas?

-Bem, pelo formato e pela saudade, acho que elas deverão simbolizar os meus maridos, namorados e amantes...

-Que seja.

E assim elas começaram a colocar cenouras na panela enquanto Gertrudes recitava o nome de todos os homens de sua vida.

-Vamos colocar também umas cebolas, para simbolizar todas as minhas lágrimas. Disse Gertrudes.

- E um pouco de Salsa para simbolizar a esperança.

- E chuchu em homenagem aos dias de monotonia.

- E tomates para os nossos sonhos.

- E um pouco de sal para temperar o sabor.

Gertrudes entreteve-se com o brinquedo sugerido por Padma. Foram equilibrando os ingredientes e ao final haviam cozinhado uma esplendida sopa. O ar da casa foi tomado por aquele cheiro que fazia o ambiente parecer cheio de pessoas bonitas e alegres. Então Gertrudes rompeu com o seu rito de tristeza e abriu todas as janelas. Arrumou a mesa, pôs os pratos e disse:

-Minha amiga, vamos tomar esta sopa e celebrar a vida.

Gertrudes retirou de um velho baú uma antiga sopeira que havia pertencido aos seus avós e pratos de porcelana inglesa que haviam sido comprados de um mascate com sua tropa de burros quando os seus parentes ainda viviam nas brenhas dos sertões.E talheres de prata finíssima.

Mesa posta. Sentaram-se uma em cada ponta. O vapor da sopa subia com o seu odor mágico e inebriante.

- Viva a vida! Disse Padma.

- Viva.

E enfiaram as colheres na sopeira e brindaram com as mesmas cheias de alegria.

22 de abr de 2011

CAPITULO 4 – ENCONTRO COM A MORTE


Gertrudes amanheceu com os achaques de uma mulher de 80 anos. Ora, ela tinha 80 anos. Ela estava parada olhando para o teto com a sensação de que não conseguiria levantar da cama. Passaram-se as horas e ela permanecia ali deitada. Lá pelas dez da manhã Padma veio ao seu quarto e perguntou:

- Você ainda está dormindo?


- Não, eu estou morrendo... Foi a resposta curta.

Padma não se assustou com aquela resposta e foi à sala continuar com o seu artesanato. Ela estava construindo um tapete de pedrinhas formando o desenho de uma mandala.

- Você vai me deixar morrer? Gritou Gertrudes.

- Este é um direito seu...

-Como assim?


Padma veio até à beira da cama de Gertrudes.

-Todos tem o direito a uma morte tranquila. Explicou Padma.

-Mas minha querida criatura, pegue o telefone e chame a emergência.

Padma foi para a sala e procurou o aparelho telefônico. Aquilo era algo que ela não gostava muito de usar, mas num caso como este seria inevitável. Sentou-se em posição de lótus com a postura completa, os pés se cruzando sobre as coxas. Pegou o telefone e perguntou:

-Gertrudes, onde é que você colocou o número?

- Está na agenda, se não estiver na agenda procure no catálogo.

Padma vasculhou as páginas do caderninho de telefones, depois passou a procurar na lista telefônica. Nisto Gertrudes levantou-se ainda um pouco cambaleante e foi até a mesinha do telefone.

- Então eu estou morrendo e vejo que o pequeno buda está tranquilamente meditando em minha sala?
    - Estava procurando o número.
      - É tenso! Assim não dá para se morrer nem viver em paz.

      - Mas eu estou em paz.
        - Ora minha amiga, chame um táxi que nós vamos para o hospital.
          - Será mesmo necessário?
            - E por que não?
              - Acho que você deveria tomar um café forte, tudo isto não passa de ressaca.
                - E você tem alguma coisa contra eu me agarrar com um litro de vodca?
                  - Não, cada pessoa faz o que quer com o seu organismo.
                    - E hoje de manhã o meu organismo vai se agarrar com o primeiro médico cheirando a leite que aparecer perto de meu campo magnético. Disse Gertrudes com ironia.

                      - Você anda vendo televisão demais.
                        - A TV somente me inspirou, mas não quero de modo algum encontrar com um House idiota por lá.

                          - Mas ele é tão competente.

                            - Não preciso de competência e sim carne nova.

                              - Você planejou tudo... Disse Padma com surpresa.
                                - Eu sou uma genia... Admita, preciso escutar algo ou ao menos ver algum sinal.
                                  Padma fez uma cara de assustada.

                                  - Esta careta idiota já é um grande incentivo.
                                    Elas pegaram o taxi e foram direto para a emergência do Hospital de Trauma.

                                    - Padma, desça e diga que a sua amiga está morrendo de qualquer coisa.
                                      - Não posso dizer isto.
                                        - Não diga que estou de ressaca, não é a mesma coisa.
                                          Padma foi em direção ao balcão atendimento enquanto Gertrudes era conduzida por um dos atendentes para a sala de emergência. Deitaram-na em uma maca e aplicaram-lhe um soro.

                                          - Padma, socorro.
                                            - Cheguei, já fiz a tua ficha, expliquei que você amanheceu com um pouco de enxaqueca devido a algumas doses de vodca que tomou ontem à noite.
                                              - Isto é traição.
                                                - Falei a verdade.
                                                  - Eu quero um médico lindo aqui e agora.
                                                    - Como isto é possível?
                                                      - É tenso! Menina pegue essa sua carinha, linda, loura e japonesa e vá buscar qualquer ente do sexo masculino desde que seja um tesão e esteja com um estetoscópio pendurado no pescoço.
                                                        - Mas estamos num hospital.
                                                          - Padma, aos oitenta eu posso me dar ao luxo de pedir alguns agrados. Vá e arranje um médico lindo ou um enfermeiro, mas que seja homem, bruto, grosseiro, mas com disposição de fazer umas apalpadelas nesta velhinha safada. Vá o meu tesão é urgente.
                                                            Padma afastou-se desconcertada sem saber como fazer para conseguir a encomenda feita por Gertrudes. Vinha andando pelo corredor quando topou de frente com um médico e ele preenchia as especificações da amiga. Ele olhou no fundo dos olhos de Padma e ficou paralisado por alguns instantes.

                                                             - Machuquei você ela perguntou?
                                                              -Não, desculpe-me, qual o teu nome?

                                                              - Padma.
                                                                -Prazer, o meu é Raul.

                                                                Padma fez uma reverência. Ela somente falou sobre a amiga que estava pedindo um médico. Ele explicou-lhe que não era a sua especialidade, mas a candura de Padma o deixou apaixonado e ele concordou em ir ver Gertrudes.

                                                                - Gertudes, este é Dr. Raul...
                                                                  Gertudes teve um choque com a beleza do rapaz. Chamou Padma ao ouvido.

                                                                  -Uuuul. A senhora tem bom gosto, tirando o nome dele, que mais parece marca de sabão de coco, fico com ele. E começou a gemer.

                                                                  -A senhora está sentindo dores? Ele perguntou.


                                                                  - Claro em todo o corpo - E confidenciou no ouvido de Padma - é o que eu sempre falo, bonito, sexo lindo, mas burro como uma loura que eu conheço.

                                                                  Padma fez um sorriso para o médico e olharam-se como se o mundo existisse somente para eles dois. Gertrudes percebeu o brilho nos olhos dele e pensou que seria uma boa ideia tirar proveito das flechadas da paixão.

                                                                  - Se eu estou aqui é porque estou sentindo dores. Disse Gertrudes em voz alta.

                                                                  - Calma, vovó...


                                                                  Padma imediatamente pôs as mãos na boca de Gertrudes prevendo uma resposta malcriada.

                                                                  - Ela sente dores nos pés?

                                                                  Gertrudes grunhiu algumas palavras abafadas pelas mãos de Padma.

                                                                  - Nos joelhos?


                                                                  Novo grunhido da amiga que se contorcia de raiva.

                                                                  -Nas coxas?

                                                                  Gertudes gostou do ritmo que a consulta ia tomando e acalmou-se um pouco.

                                                                  - Na bexiga? Perguntou o médico.

                                                                  Gertrudes fez um sinal afirmativo.

                                                                  - Tire a mão da boca de sua amiga, você a está machucando. Disse o médico para Padma.

                                                                  Padma retirou a sua mão da boca de Gertrudes já preparando o ouvido para o que poderia ouvir de imprecações.

                                                                  - Dói na bexiga, doutor, pode apalpar que o senhor notará um inchaço. Disse Gertrudes.


                                                                  -Não vou apalpar, vou encaminhá-la para a sala de raios X.

                                                                  - Mas eu não quero fazer raios X, eu prefiro os exames antigos.

                                                                  - Eu já vi que a senhora está sentindo muitas dores, então o melhor é um exame mais profundo...

                                                                  - O senhor está com nojo de mim?

                                                                  -Não.

                                                                  - Por que eu tenho a idade de ser a sua tataravó, é isso?

                                                                  Padma puxou o médico para o lado e conversaram amigavelmente sob o olhar atento de Gertrudes. Eles deram fizeram carinhas sorridentes enfurecendo Gertrudes.

                                                                  - O que é isso? Um complô contra mim?

                                                                  - Ele vai te fazer um exame rápido no abdômen.

                                                                  O médico se aproximou e fez uma série de movimentos delicados no abdômen de Gertrudes. A cada gesto ela se contorcia de dor como se estivesse sendo cirurgiada no cru.

                                                                  - Pronto, vou receitar um remédio para dor de cabeça e você poderá ir para casa.

                                                                  - O que tem a haver a barriga com a cabeça?

                                                                  - O estômago é como um segundo cérebro, adiantou-se Padma tentando explicar.

                                                                  Gertrudes começou a arfar como se estivesse morrendo sufocada.

                                                                  - O que foi?

                                                                  - Estou tendo uma parada respiratória.


                                                                  O médico ficou assustado com a encenação e correu em busca dos maqueiros para levar Gertrudes para a sala de emergência com aparelhos para o uso de oxigênio.

                                                                  - Amiga, eu preciso de uma respiração boca a boca. Confidenciou Gertrudes.

                                                                  - Isto que você está fazendo não é correto. Estou decepcionada com você. Veja estas outras pessoas aqui, elas precisam de atendimento, você não.

                                                                  - Preciso de um homem colado na minha boca.

                                                                  Todas as pessoas na sala pararam para olhar para Gertrudes. Ela percebeu a plateia e sentiu uma imensa vergonha de ser velha, pois se tivesse a idade de Padma mandaria todas aquelas pessoas xexelentas para o inferno. Levantou-se da maca e num pulo foi caminhando em direção à porta, sentiu que o mundo estava anuviando para uma escuridão e caiu.

                                                                  ***

                                                                  O quarto estava iluminado apenas por uma fraca luz que ficava atrás da cama. Gertrudes abriu os olhos notou que estavam em um outro ambiente. Então vasculhou o local para encontrar Padma, mas não encontrou ninguém. Percebeu apenas uma musica suave de mantras indianos tocando.

                                                                  -Devo ter morrido – pensou - E isto aqui deve ser antessala do tribunal celeste. Devo estar esperando o momento do julgamento final. Quando aparecer na frente do dono do mundo...

                                                                  Gertrudes parou um instante com os seus pensamentos e percebeu que estava dando atenção a uma possibilidade de deixar a terra e partir para o outro mundo.

                                                                  - Mas acredito, que a vida acaba no nada e, se isto aqui está acessível aos meus sentidos, eu estou viva.

                                                                  Reuniu todas as suas forças e gritou:

                                                                  - Estou viva!

                                                                  - Sim, você está viva e ainda está com o seu corpo. Disse Padma revelando a sua presença.

                                                                  - Como entrou aqui?

                                                                  - Eu estava aqui.

                                                                  - Todo o tempo?

                                                                  - Não saí de perto de você em nenhum momento.

                                                                  - Onde estou?

                                                                  - Você está no Hospital Memorial.

                                                                  - O que aconteceu?

                                                                  - Você teve uns problemas graves que não sei explicar, foi encaminhada para a UTI e depois transferida para cá.

                                                                  - UTI ?

                                                                  - Sim, foi o único lugar onde não pude ficar contigo todo o tempo.

                                                                  - Eu ia morrendo... Falou Gertrudes com uma certa tristeza.

                                                                  - Quase, mas ainda não era a sua hora de fazer a passagem.

                                                                  - Não comprei ainda este bilhete.

                                                                  - Todos compramos um destes bilhetes quando nascemos.

                                                                  - E o meu médico lindo? Ele me beijou? Perguntou Gertrudes com um ar maroto e mudando o assunto para outra área.

                                                                  - Não, ele não te beijou.

                                                                  - Mas você o beijou, eu vi os olhares dele para você.

                                                                  - Não.

                                                                  - Ele é tesão sem roupa? Ah, deve ser.

                                                                  - Gertrudes, você me deixa encabulada....

                                                                  - O bumbum dele é bonito? Vocês fizeram sexo e aí, você gozou?

                                                                  - Amiga, vejo que já recuperou o mesmo ânimo de antes. Disse Padma se esquivando das perguntas.

                                                                  - Você está fugindo de minha curiosidade.

                                                                  - São os meus segredos.

                                                                  - Mas eu hoje preciso viver através de sua vida. Eu havia bolado este plano de ir para a emergência e ganhar umas apalpadelas e quem sabe um beijo na boca até mesmo um selinho, me vejo como uma mendiga que pede a migalha de um afeto sexual qualquer, até um cheiro, um abraço, um toque, mas que seja algo que me faça mulher, eu tenho 80 anos mas ainda tenho em mim o mesmo tesão de minha adolescência. Vejo você tão bela e aguada como uma estátua de louça. Se fosse possível trocar de corpo eu fazia um financiamento pela Caixa Econômica e comprava o corpo de alguma adolescente por aí, tem tanta gente que vende o rim, poderia ter uma maluca que me vendesse logo o corpo todo, ou você poderia trocar de lugar comigo.

                                                                  - A vida na terra tem as suas fases e cada qual o seu sabor. Você já teve vários corpos nesta sua trajetória por aqui.

                                                                  - Não comecemo novamente este papo espiritualista...

                                                                  Padma fez um gesto de assentimento, deu aquele largo sorriso que a caraterizava.

                                                                  - Vou deixar você sozinha um pouco. Preciso ir ao apartamento preparar tudo para sua volta. Prender Marieta na gaiola e providenciar mais frutas e verduras.

                                                                  - Você deixou aquela galinha solta no apartamento?

                                                                  - Somente três dias?

                                                                  - Três dias?

                                                                  - Foi o tempo que você passou aqui.

                                                                  Padma saiu. O apartamento do hospital ficou silencioso por um longo período.

                                                                  - Morrer! Eu nunca tinha pensado nisso verdadeiramente como uma possibilidade. Murmurou Gertrudes quebrando o silêncio.