22 de abr de 2011

CAPITULO 4 – ENCONTRO COM A MORTE


Gertrudes amanheceu com os achaques de uma mulher de 80 anos. Ora, ela tinha 80 anos. Ela estava parada olhando para o teto com a sensação de que não conseguiria levantar da cama. Passaram-se as horas e ela permanecia ali deitada. Lá pelas dez da manhã Padma veio ao seu quarto e perguntou:

- Você ainda está dormindo?


- Não, eu estou morrendo... Foi a resposta curta.

Padma não se assustou com aquela resposta e foi à sala continuar com o seu artesanato. Ela estava construindo um tapete de pedrinhas formando o desenho de uma mandala.

- Você vai me deixar morrer? Gritou Gertrudes.

- Este é um direito seu...

-Como assim?


Padma veio até à beira da cama de Gertrudes.

-Todos tem o direito a uma morte tranquila. Explicou Padma.

-Mas minha querida criatura, pegue o telefone e chame a emergência.

Padma foi para a sala e procurou o aparelho telefônico. Aquilo era algo que ela não gostava muito de usar, mas num caso como este seria inevitável. Sentou-se em posição de lótus com a postura completa, os pés se cruzando sobre as coxas. Pegou o telefone e perguntou:

-Gertrudes, onde é que você colocou o número?

- Está na agenda, se não estiver na agenda procure no catálogo.

Padma vasculhou as páginas do caderninho de telefones, depois passou a procurar na lista telefônica. Nisto Gertrudes levantou-se ainda um pouco cambaleante e foi até a mesinha do telefone.

- Então eu estou morrendo e vejo que o pequeno buda está tranquilamente meditando em minha sala?
    - Estava procurando o número.
      - É tenso! Assim não dá para se morrer nem viver em paz.

      - Mas eu estou em paz.
        - Ora minha amiga, chame um táxi que nós vamos para o hospital.
          - Será mesmo necessário?
            - E por que não?
              - Acho que você deveria tomar um café forte, tudo isto não passa de ressaca.
                - E você tem alguma coisa contra eu me agarrar com um litro de vodca?
                  - Não, cada pessoa faz o que quer com o seu organismo.
                    - E hoje de manhã o meu organismo vai se agarrar com o primeiro médico cheirando a leite que aparecer perto de meu campo magnético. Disse Gertrudes com ironia.

                      - Você anda vendo televisão demais.
                        - A TV somente me inspirou, mas não quero de modo algum encontrar com um House idiota por lá.

                          - Mas ele é tão competente.

                            - Não preciso de competência e sim carne nova.

                              - Você planejou tudo... Disse Padma com surpresa.
                                - Eu sou uma genia... Admita, preciso escutar algo ou ao menos ver algum sinal.
                                  Padma fez uma cara de assustada.

                                  - Esta careta idiota já é um grande incentivo.
                                    Elas pegaram o taxi e foram direto para a emergência do Hospital de Trauma.

                                    - Padma, desça e diga que a sua amiga está morrendo de qualquer coisa.
                                      - Não posso dizer isto.
                                        - Não diga que estou de ressaca, não é a mesma coisa.
                                          Padma foi em direção ao balcão atendimento enquanto Gertrudes era conduzida por um dos atendentes para a sala de emergência. Deitaram-na em uma maca e aplicaram-lhe um soro.

                                          - Padma, socorro.
                                            - Cheguei, já fiz a tua ficha, expliquei que você amanheceu com um pouco de enxaqueca devido a algumas doses de vodca que tomou ontem à noite.
                                              - Isto é traição.
                                                - Falei a verdade.
                                                  - Eu quero um médico lindo aqui e agora.
                                                    - Como isto é possível?
                                                      - É tenso! Menina pegue essa sua carinha, linda, loura e japonesa e vá buscar qualquer ente do sexo masculino desde que seja um tesão e esteja com um estetoscópio pendurado no pescoço.
                                                        - Mas estamos num hospital.
                                                          - Padma, aos oitenta eu posso me dar ao luxo de pedir alguns agrados. Vá e arranje um médico lindo ou um enfermeiro, mas que seja homem, bruto, grosseiro, mas com disposição de fazer umas apalpadelas nesta velhinha safada. Vá o meu tesão é urgente.
                                                            Padma afastou-se desconcertada sem saber como fazer para conseguir a encomenda feita por Gertrudes. Vinha andando pelo corredor quando topou de frente com um médico e ele preenchia as especificações da amiga. Ele olhou no fundo dos olhos de Padma e ficou paralisado por alguns instantes.

                                                             - Machuquei você ela perguntou?
                                                              -Não, desculpe-me, qual o teu nome?

                                                              - Padma.
                                                                -Prazer, o meu é Raul.

                                                                Padma fez uma reverência. Ela somente falou sobre a amiga que estava pedindo um médico. Ele explicou-lhe que não era a sua especialidade, mas a candura de Padma o deixou apaixonado e ele concordou em ir ver Gertrudes.

                                                                - Gertudes, este é Dr. Raul...
                                                                  Gertudes teve um choque com a beleza do rapaz. Chamou Padma ao ouvido.

                                                                  -Uuuul. A senhora tem bom gosto, tirando o nome dele, que mais parece marca de sabão de coco, fico com ele. E começou a gemer.

                                                                  -A senhora está sentindo dores? Ele perguntou.


                                                                  - Claro em todo o corpo - E confidenciou no ouvido de Padma - é o que eu sempre falo, bonito, sexo lindo, mas burro como uma loura que eu conheço.

                                                                  Padma fez um sorriso para o médico e olharam-se como se o mundo existisse somente para eles dois. Gertrudes percebeu o brilho nos olhos dele e pensou que seria uma boa ideia tirar proveito das flechadas da paixão.

                                                                  - Se eu estou aqui é porque estou sentindo dores. Disse Gertrudes em voz alta.

                                                                  - Calma, vovó...


                                                                  Padma imediatamente pôs as mãos na boca de Gertrudes prevendo uma resposta malcriada.

                                                                  - Ela sente dores nos pés?

                                                                  Gertrudes grunhiu algumas palavras abafadas pelas mãos de Padma.

                                                                  - Nos joelhos?


                                                                  Novo grunhido da amiga que se contorcia de raiva.

                                                                  -Nas coxas?

                                                                  Gertudes gostou do ritmo que a consulta ia tomando e acalmou-se um pouco.

                                                                  - Na bexiga? Perguntou o médico.

                                                                  Gertrudes fez um sinal afirmativo.

                                                                  - Tire a mão da boca de sua amiga, você a está machucando. Disse o médico para Padma.

                                                                  Padma retirou a sua mão da boca de Gertrudes já preparando o ouvido para o que poderia ouvir de imprecações.

                                                                  - Dói na bexiga, doutor, pode apalpar que o senhor notará um inchaço. Disse Gertrudes.


                                                                  -Não vou apalpar, vou encaminhá-la para a sala de raios X.

                                                                  - Mas eu não quero fazer raios X, eu prefiro os exames antigos.

                                                                  - Eu já vi que a senhora está sentindo muitas dores, então o melhor é um exame mais profundo...

                                                                  - O senhor está com nojo de mim?

                                                                  -Não.

                                                                  - Por que eu tenho a idade de ser a sua tataravó, é isso?

                                                                  Padma puxou o médico para o lado e conversaram amigavelmente sob o olhar atento de Gertrudes. Eles deram fizeram carinhas sorridentes enfurecendo Gertrudes.

                                                                  - O que é isso? Um complô contra mim?

                                                                  - Ele vai te fazer um exame rápido no abdômen.

                                                                  O médico se aproximou e fez uma série de movimentos delicados no abdômen de Gertrudes. A cada gesto ela se contorcia de dor como se estivesse sendo cirurgiada no cru.

                                                                  - Pronto, vou receitar um remédio para dor de cabeça e você poderá ir para casa.

                                                                  - O que tem a haver a barriga com a cabeça?

                                                                  - O estômago é como um segundo cérebro, adiantou-se Padma tentando explicar.

                                                                  Gertrudes começou a arfar como se estivesse morrendo sufocada.

                                                                  - O que foi?

                                                                  - Estou tendo uma parada respiratória.


                                                                  O médico ficou assustado com a encenação e correu em busca dos maqueiros para levar Gertrudes para a sala de emergência com aparelhos para o uso de oxigênio.

                                                                  - Amiga, eu preciso de uma respiração boca a boca. Confidenciou Gertrudes.

                                                                  - Isto que você está fazendo não é correto. Estou decepcionada com você. Veja estas outras pessoas aqui, elas precisam de atendimento, você não.

                                                                  - Preciso de um homem colado na minha boca.

                                                                  Todas as pessoas na sala pararam para olhar para Gertrudes. Ela percebeu a plateia e sentiu uma imensa vergonha de ser velha, pois se tivesse a idade de Padma mandaria todas aquelas pessoas xexelentas para o inferno. Levantou-se da maca e num pulo foi caminhando em direção à porta, sentiu que o mundo estava anuviando para uma escuridão e caiu.

                                                                  ***

                                                                  O quarto estava iluminado apenas por uma fraca luz que ficava atrás da cama. Gertrudes abriu os olhos notou que estavam em um outro ambiente. Então vasculhou o local para encontrar Padma, mas não encontrou ninguém. Percebeu apenas uma musica suave de mantras indianos tocando.

                                                                  -Devo ter morrido – pensou - E isto aqui deve ser antessala do tribunal celeste. Devo estar esperando o momento do julgamento final. Quando aparecer na frente do dono do mundo...

                                                                  Gertrudes parou um instante com os seus pensamentos e percebeu que estava dando atenção a uma possibilidade de deixar a terra e partir para o outro mundo.

                                                                  - Mas acredito, que a vida acaba no nada e, se isto aqui está acessível aos meus sentidos, eu estou viva.

                                                                  Reuniu todas as suas forças e gritou:

                                                                  - Estou viva!

                                                                  - Sim, você está viva e ainda está com o seu corpo. Disse Padma revelando a sua presença.

                                                                  - Como entrou aqui?

                                                                  - Eu estava aqui.

                                                                  - Todo o tempo?

                                                                  - Não saí de perto de você em nenhum momento.

                                                                  - Onde estou?

                                                                  - Você está no Hospital Memorial.

                                                                  - O que aconteceu?

                                                                  - Você teve uns problemas graves que não sei explicar, foi encaminhada para a UTI e depois transferida para cá.

                                                                  - UTI ?

                                                                  - Sim, foi o único lugar onde não pude ficar contigo todo o tempo.

                                                                  - Eu ia morrendo... Falou Gertrudes com uma certa tristeza.

                                                                  - Quase, mas ainda não era a sua hora de fazer a passagem.

                                                                  - Não comprei ainda este bilhete.

                                                                  - Todos compramos um destes bilhetes quando nascemos.

                                                                  - E o meu médico lindo? Ele me beijou? Perguntou Gertrudes com um ar maroto e mudando o assunto para outra área.

                                                                  - Não, ele não te beijou.

                                                                  - Mas você o beijou, eu vi os olhares dele para você.

                                                                  - Não.

                                                                  - Ele é tesão sem roupa? Ah, deve ser.

                                                                  - Gertrudes, você me deixa encabulada....

                                                                  - O bumbum dele é bonito? Vocês fizeram sexo e aí, você gozou?

                                                                  - Amiga, vejo que já recuperou o mesmo ânimo de antes. Disse Padma se esquivando das perguntas.

                                                                  - Você está fugindo de minha curiosidade.

                                                                  - São os meus segredos.

                                                                  - Mas eu hoje preciso viver através de sua vida. Eu havia bolado este plano de ir para a emergência e ganhar umas apalpadelas e quem sabe um beijo na boca até mesmo um selinho, me vejo como uma mendiga que pede a migalha de um afeto sexual qualquer, até um cheiro, um abraço, um toque, mas que seja algo que me faça mulher, eu tenho 80 anos mas ainda tenho em mim o mesmo tesão de minha adolescência. Vejo você tão bela e aguada como uma estátua de louça. Se fosse possível trocar de corpo eu fazia um financiamento pela Caixa Econômica e comprava o corpo de alguma adolescente por aí, tem tanta gente que vende o rim, poderia ter uma maluca que me vendesse logo o corpo todo, ou você poderia trocar de lugar comigo.

                                                                  - A vida na terra tem as suas fases e cada qual o seu sabor. Você já teve vários corpos nesta sua trajetória por aqui.

                                                                  - Não comecemo novamente este papo espiritualista...

                                                                  Padma fez um gesto de assentimento, deu aquele largo sorriso que a caraterizava.

                                                                  - Vou deixar você sozinha um pouco. Preciso ir ao apartamento preparar tudo para sua volta. Prender Marieta na gaiola e providenciar mais frutas e verduras.

                                                                  - Você deixou aquela galinha solta no apartamento?

                                                                  - Somente três dias?

                                                                  - Três dias?

                                                                  - Foi o tempo que você passou aqui.

                                                                  Padma saiu. O apartamento do hospital ficou silencioso por um longo período.

                                                                  - Morrer! Eu nunca tinha pensado nisso verdadeiramente como uma possibilidade. Murmurou Gertrudes quebrando o silêncio.