27 de jun de 2011

CARTA DE LEITORA E RESPOSTA


A CARTA

Querido escritor, estou te escrevendo para dar a minha contribuição ao desenrolar da estória de Padma e Gertrudes. Estou também aceitando a idéia de que você vai me permitir fazer algumas alterações na estória. Esta criatura chamada Padma é uma imbecil. Ela não tem futuro, e acho que também não deve ter passado, ela é uma descarga de caricaturas femininas relacionadas com esta literatura babaca da nova era, tipo Paulo Coelho, e esta mulherzinha apesar de sua familiaridade com Brida, que li mas me arrependi, deveria tomar jeito de gente. Todas as pessoas tem o direito de errar e ler aquelas  obras aguadas pelo menos uma vez. KKKKKKKKKKKKKKK. Não ria, eu posso, você não, rs rs rs. Assim já que você apareceu no Facebook e disse que eu poderia mandar alguma sugestão, então lá vai:

1 - Você deve mandar esta Padma voltar até o Hospital de Emergência e trauma e pegar aquele Dr. Raul e dar a sua xxt  para ele. Porque acho que esta criaturinha nunca experimentou as delícias de uma boa trpd.

2 - Ela deve levar o Dr. Raul para a casa de Gertrudes.

3 - Acho ridículo, esta estória de criar uma galinha em um apartamento, é algo completamente contra a natureza da civilização.
4 - não divulgue o meu nome em hipótese alguma, pode usar as minhas dicas, mas exijo o anonimato.

5 - Cadê a Gertrudes do primeiro capitulo? Ela era muito mais animada e descontrolada, e agora é uma velha rabugenta. Ela foi se tornando uma bruxa de desenho animado.

Me perdoe a frankkkkkeza, kkkkkkkkkkk, mas como escritor você é um péssimo blogueiro, arranje outro hobby. Estou sendo sincera com você, não precisa me agradecer por isto, vá encher a cara de cachaça que tem mais futuro.

De sua leitora por caridade, kkkkkkkkkkk,

Lembre-se de que não quero que me identifique, pode publicar, mas estou invisível.

bjsssss, rs rs rs rsrsrsrsrsrsrs

A RESPOSTA

Junho de 2011
Cara amiga invisível,

Vou chamar-te de mulher invisível, ou Min, ficará sendo o teu codinome.

Obrigado pela sinceridade, não é todo dia que alguém diz palavras tão duras com tanta propriedade. Primeiramente quero te esclarecer que não sou um escritor profissional. Este livro chamado Padma, começou como uma brincadeira de criação coletiva e tomou este rumo inusitado, como escrevi na explicação inicial as personagens foram tomando rumo e exigindo uma solução.

Em relação à tua carta, resolvi publicá-la, mas com algumas precauções, pois você usa uma linguagem muito à vontade, apesar de ser uma pessoa culta no seu perfil: com formação universitária e falante de idiomas estrangeiros.

Cortei as expressões de baixo calão. Deixando apenas as consoantes das palavras. Assim deixei o teu pensamento intacto.

Quanto ao Paulo Coelho, não o considero uma pessoa indigna de tua consideração, ele é membro da Academia Brasileira de Letras. Coisa que muita inteligência crítica sequer sonha em conseguir.

Quanto às tuas sugestões devo admitir que você tem uma mente pervertida. 

Padma não poderia jamais ir até o Hospital e oferecer-se ao Dr. Raul como uma rameira. Ela é uma criatura especial. Você ainda não conseguiu entender o propósito de Padma.

Não sei como resolver a situação de levar Dr. Raul para conhecer as amigas no apartamento, Não há um motivo plausível para isso.

É plenamente aceitável que se crie uma galinha no apartamento, ela é um símbolo da luta contra a violência no mundo de hoje.
 Lamento te informar que mesmo não sendo um escritor, adoro a tua caridade, alias, se não fosse por ela eu não estaria aqui te escrevendo, esta carta e aceitando a tua provocação e tem mais, eu não gosto desta linguagem de internet tipo  kkkkkkk, mas eu vou rir um pouco kkkkkkk, pois não vai dar para trazer a Gertrudes daquele primeiro momento de volta, ela está sofrendo modificações em sua maneira de ver o mundo;  esta é a idéia principal da vida dela.
Eu sei que aquela mulher desbocada possuía os seus encantos, mas é preciso que aos poucos ela vá revelando aspectos de sua angustia interior, você me entende?

A vida não é somente cachaça e festa, têm um momento no qual se precisa pisar os pés no chão. Este é o processo de descoberta dela. Ela já tomou muita bebida, já namorou muito, mas agora ela lamenta-se de não ter mais a juventude. Você deve ter visto o filme Piratas do Caribe 4, na qual a personagem de Jonh Deep vai em busca da fonte da juventude. Acho que se Gertrudes pudesse ela iria atrás de uma fonte como aquela.
Atenciosamente
E V

26 de jun de 2011

CAPITULO 6 - OUROBOROS



- Você tem uma filha! Disse Padma.  E tudo mais foi silêncio.

***
Antes, porém, algumas horas, dizia Gertrude: 
- Eu estava numa festa. Ele se chamava Jacinto. Estávamos embriagados, não pela bebida, pois havíamos bebido pouco,  mas ébrios da possibilidade de nos tocarmos um ao outro, na escuridão do salão de dança,  enquanto a orquestra tocava uma musica romântica, ele arrastou os seus lábios para os meus e eu fui completamente abduzida para um grande beijo.
Os fogos de artifício estouravam lá fora. Do terraço do apartamento podia-se ver as ruas com as fogueiras formando um tapete de grande energia. As festas juninas traziam consigo outras memórias. Padma e Gertrudes contemplavam aquele espetáculo primitivo que teimava  em resistir ao asfalto e aos espigões de concreto. 
- O que você fez? Provocou Padma. 
 - Preferi não fazer nada apenas deixei que as coisas fossem acontecendo, uma atrás da outra foram se sucedendo a um ponto que eu perdi a noção de como foi a noite.  Lembro-me que nos beijamos muito;  era como um doce que nunca acabava e que quanto mais comíamos,  mais queríamos;  não havia  enfaro;   sempre parecia que tudo era o primeiro bocado novamente.
- Parece com um beijo de romance. Comentou Padma.
- Foi o meu primeiro beijo.
- Estou emocionada. Suspirou Padma
 - Eu ainda lembro de seus olhos negros.As luzes do lugar pareciam todas de um tom azulado.  Eu não tenho na memória todos os dados de minha experiência, pois hoje as coisas estão misturadas com a fantasia e com a saudade.  O tempo se encarregou de fazer de tudo uma névoa, transformando os fatos em algo mais parecido com versos soltos de poemas loucos, de poesias envelhecidas; era tudo tão belo que não valeu a pena desperdiçar nem um instante memorizando os detalhes.
- A gente não vive para escrever um diário.
- Eu teria escrito  se soubesse  que aquela foi a primeira e única noite de minha vida. Eu queria muito que aquele instante ficasse ali comigo para sempre,  mas o sempre é aquela impossibilidade metafísica das criaturas mortais;  o dia seguinte apenas me revelou que éramos somente um  grão de poeira de um universo de coisas sem fim e nem começo e que continuariam girando para qualquer lado.  A solidão seria sempre uma fatal possibilidade.
Eu jurei que lutaria com todas as minhas forças para superar esta falha deste cosmo insolúvel com estas criaturas que se julgam tão especiais, mas são apenas pó.
- A raça humana é muito especial. Falou Padma.
 - Sim, de algum modo especial, porque podemos brincar de eternidade enquanto vivemos.
- E tudo isto por causa de um beijo?
- Apenas recordar aquele beijo, trazê-lo à minha memória, faz-me reinventar a minha vida.   Naquela noite  eu pude ver o sol nascer nos braços daquela criatura.Adormeci e nunca mais o vi. Tenho a sensação de que foi como se tivesse conhecido um anjo, ou bebido demais e  conhecido no delírio extremo da intoxicação alcoólica aquele ser. A minha boca ficou muito dolorida...
- Com certeza não foi um anjo!
-  Acordei,  olhei para todos os lados.  Estava sozinha.  Quando me dirigi para o carro onde estavam as minhas amigas,  notei que elas não me olhavam de um jeito especial, eu era somente mais uma, e não aparentava exalar nenhuma aura característica de quem havia vivido um mmento sublime de amor.   Durante o café da manhã eu pensava que tudo era de uma ficção fantasmagórica, pois tudo de melhor havia me acontecido e ninguém havia notado a menor diferença.
- Todos os seres estão interligados uns aos outros no universo...
- Não, você está enganada. O universo é indiferente com as nossas pequenas descobertas.  Então o que importa se alguém vive ou morre?  Ninguém vai se preocupar  mesmo! Desde que você não altere,  para o bem ou para o mal, a vida de alguém  você não existirá para ela...
- Você é muito pessimista... Interrompeu Padma.
 - Então, a partir daquele dia,  decidi que todas as minhas agonias e medos eram  invenções de minha cabeça, e dali por diante nunca mais haveria de me preocupar, aliás, iria viver como uma pessoa invisível, e viveria feliz, coisa que tenho feito muito bem até hoje não fosse a demonstração clara e cabal de que  universo se move sempre e a minha alma apesar de manter o mesmo frescor, habita a matéria em movimento deste mundo.
-  Você poderia mover-me como ele.  É a tua ilusão de realidade que cria a finitude... Tentou explicar Padma.
-  É muita teoria para quem queria  apenas ser feliz. Descobri que estava sozinha  sempre sozinha  e que não adiantaria fingir que alguém seria o meu  cúmplice.  Então decidi ser feliz e caminhar em direção ao meu propósito, ser feliz,  simples como simplesmente aceitar quem eu sou não permitindo que alguém perturbasse o curso de minha vida. É assim que cheguei até este momento em que contemplo a tudo de uma posição privilegiada aos 80 anos,  porque não me arrependo de nada. Vivi bem.  Vivo bem. Cometi os meus erros comigo mesma e do ponto de vista geral sou como uma vaga de espuma que faz desenhos na beira do mar,  mas logo em seguida é substituída por outra.
- E se você tivesse a chance de viver tudo novamente?
- Há uma coisa... Algo que fiz e se pudesse reviver aquele momento de ouro...
- O beijo?
- Não, os olhos de minha filha, recém-nascida que vi uma única vez...

***

- Você tem uma filha! Disse Padma.  E tudo mais foi silêncio.



13 de jun de 2011

MENSAGEM NA GARRAFA

Esta é uma mensagem dentro de uma garrafa digital, que estava boiando numa nuvem digital.

Caro amigo, amiga,

Havia recebido uma rosa virtual quando abrira o facebook logo na chegada ao trabalho. Ela estava lá pairando sobre os avisos dizendo que alguém a tinha enviado para mim.

Uma rosa vermelha, como um certo batom que conhecera certo dia. Senti como se uma chuva de pétalas rubras caíssem sobre mim. Pude sentir o aroma delicado das pétalas e ouvir o toque de sua textura tocando os meus ouvidos. Uma rosa proibida como aquela que habitava o jardim de uma fera que fora encantada por uma bruxa malvada. Por alguns instantes deixei-me viver em meus devaneios a posse daquela flor, de modo que a minha melancolia fosse abrandada por alguns instantes.

Por coincidência, eu vinha como aquele principe estrangeiro, caminhando a esmo pelas estradas virtuais, tateando os jardins do mundo, em busca de uma flor a quem pudesse confessar a minha solidão.

Imaginei então que poderia fazer valer os encantos mágicos que tinha aprendido com os livros de Harry Potter, que talvez pudesse ir até à estação ferroviária do varadouro e atravessar de trem para o reino de Sâo Saruê, numa combinação de magia inglesa e cultura nordestina. São Saruê, terra mítica criada pelo poeta Manuel Camilo dos Santos, era  o lugar onde todos os sonhos se realizavam.

Adormeci. O cansaço me consumia os olhos. O que vou relatar agora, não posso atribuir unicamente, a um estado onírico. Quando acordei estava coberto de pétalas de rosas e a minha sala exalava um perfume intenso que tomou conta de todo o prédio e espalhou-se pelas ruas vizinhas.

A minha primeira reação foi de que aquilo tratava-se de uma brincadeira de meus colegas de repartição, mas pela reação deles verificara que alguma outra coisa estaria ocorrendo além da possibilidade de um telegrama animado pela trupe de palhaços Agitada Gang.

Ocorreu-me também que poderia estar acordando dentro de um sonho, como às vezes acontece com algumas pessoas. Levantei-me bruscamente e derrubei o copo de café que havia esfriado sobre a minha mesa de trabalho. Não, não era um segundo sonho.

Da janela do sétimo andar, os meus colegas se comprimiam para olhar algo que estava ocorrendo lá embaixo. Busquei um lugar em uma das janelas e vimos todos uma imensa multidão aproximando-se do prédio. Um frio percorreu-me a espinha, que lugar era aquele tão igual ao meu mundo?

Lembrei da realidade paralela daquele seriado americano Fringe, e de tantos outros lugares que a ficção científica tornou tão plausíveis. Que realidade era aquela que mais parecia  outra camada onírica? Mais um véu de todos  que guardavam o caminho do céu?

As pessoas lá embaixo formaram circulos concentricos ao redor do prédio. E começaram a cantar as canções que eu mais gostava. Ora, venhamos de volta à razão, no mundo real não existiam aquelas cenas. O absurdo se instalou quando percebi que os meus colegas embriagados pelo entusiasmo provocado pela música saiam voando pelas janelas feitos bem-te-vis. Era mais uma camada de sonho.

Voltei para a minha mesa e contemplei a tela de meu computador. Para minha surpresa lá estava a reprodução nítida de meu ambiente de trabalho. Os colegas ainda estavam lá em sua movimentação. A tela mostrava o ponto de vista da imagem de alguém que estivesse dentro do computador.

Vi quando passou a gostosa secretaria de meu chefe, olhou para mim, deu um sorriso e se foi. Depois Java, que era o meu calo, todos temos um amigo falso no trabalho, veio até a minha sala; ele sempre fazia isso na minha ausência. Ele parou diante da tela e ficou olhando para mim. Eu falei, ele respondeu. Mantivemos uma longa conversa como se estívessemos usando o Skipe. Então ele me perguntou onde eu estava.

Ali percebi que algo estranho havia ocorrido. Eu estava dentro do computador.

Fiz algumas incursões neste novo lugar. Recomendo a você que está vendo agora esta mensagem que leia o folheto de cordel sobre São Saruê. Ele contém uma parcela das coisas que vi por aqui, mas há muito mais, que não couberam nas sextilhas do poeta. Ainda não encontrei a remetente da flor que causou toda esta aventura.

Ainda estou tentando reelaborar a idéia de que isso poderia ser uma outra camada de sonho. Ainda permaneço aqui, mas tal qual Alice através dos espelhos espero que um dia possa retornar ao mundo real.

Por mais que se desejem os amores perfeitos, numa situação como essa é que percebi que são as imperfeições dos amantes que fazem do amor algo eterno.

Sinceramente

A

12 de jun de 2011

PRIMEIRO CAPÍTULO DE COISA NENHUMA


Ou então começo algum para ficar no mesmo canto esperando que o último ônibus passasse.

Foi há algum tempo atrás. Estava numa parada de ônibus....

 Abrí meu laptop; a luz da tela de LCD iluminou o meu rosto.

"Vou ser assaltado", foi o pensamento que passou em minha cabeça.

Mas prosseguí. Abrí o processador de texto e digitei: "PRIMEIRO CAPÍTULO". Então parei um instante imaginando sobre o que deveria ser aquela coisa cujo primeiro capítulo acabava de se anunciar. Levei um tempo parado, as mãos sobre as teclas.

- "Puxa vida! Sobre que mesmo devo escrever?", pensei.

Mas os dedos continuaram ali sem mover-se. Então vi que surgiu do nada, do outro lado da rua uma figura. 

Na semi-escuridão que dominava o lugar, apenas via o seu vulto.

"Se for o assalto, entrego o meu laptop". Completei em minha mente.

Aquela criatura ficou do outro lado me olhando e eu paralisado, não sabia agora se era por causa da falta de assunto, ou do medo de qualquer coisa inesperada ao estilo dos filmes de terror de Hong Kong.

Digitei uma seqüencia de frases, umas dez ou vinte, ou trinta, não sei ao certo, um número x. Levantei o rosto e a vista acostumando-se a pouca luz delineou a presença de uma mulher sensual, tipo  prostituta de piada.

 Então pela minha mente passaram-se todas as lendas urbanas inclusive aquela da loura fantasma que vampiriza os incautos nas noites frias. Baixei a vista e digitei mais uma linha, numa lentidão de doer, machucando cada tecla, uma a uma, num ritmo riticoquiano (acho que posso escrever esta palavra, ninguém vai ler texto mesmo). 

Reli o texto e não gostei, que coisa aguada, sem graça, estava sem jeito de agüentar a mim mesmo. Então num ato suicida apertei a tecla back space e o cursor correu em direção ao inicio. Ficou o cursor piscando no vazio, como dando os últimos respiros. Contemplei aquele desesperado pedido de existência e fiquei imaginando a condição humana. Eu o criador me recusando a dar vida à criatura. 

Senti, então, um calor próximo ao meu corpo. Levantei um pouco a vista e vi aquele belo par de coxas brancas. Fiquei gelado.

"Morri". Foi o meu pensamento enquanto esperei o golpe fatal.

Fui levantando a vista. Uma mini-saia negra e brilhante. um cinturão de couro com aplicações de metal. A barriga nua e preso ao umbigo um peircing dourado com uma pedra preciosa que mais parecia um diamante. Um sutiã curto sobre os seios fartos. Um trancelim em volta do pescoço. Um queixo de porcelana. Uma boca que parecia uma nave perfeita para o paraíso. Batom de cor vermelha, um matiz intenso nos lábios molhados. Um nariz de desenho simétrico com outro piercing brilhante no lado esquerdo. Os olhos azuis.

-"Que coisa mais linda". Pensei.

Ela ficou parada diante de mim, colada aos meus joelhos. Nenhuma palavra. Eu ia dizer o que numa situação destas, não tive nem a iniciativa de dizer que ela podia levar o que quisesse, o computador, o celular, a carteira, as minhas roupas e até eu mesmo caso ela me achasse de alguma valia.

Como ela não dizia nada, eu já encabulado baixei a cabeça. E olhei para o teclado e para o cursor piscando agonizante.

-Por que você apagou. Ela falou com uma voz suave.

Na minha mente confirmaram-se as minhas suspeitas sobrenaturais. Aquela coisinha linda deveria ser o espírito protetor dos textos assassinados prematuramente.

-"Mas, eu sou o autor, posso fazer o que quiser". Pensei em justificar, mas diante do mistério e sabe lá o que esta coisa poderia se transformar. Já tinha visto muitos filmes de terror com situações parecidas. então não custava nada ficar imóvel.

Para completar o cenário, a luz do único poste que havia apagou-se. Não foi um simples apagamento, mas uma coreografia de despedida. Primeiro deu três piscadas, ficou ainda mais intensa, piscou mais três vezes, mas desta vez um pouco irregular como se lamentasse a sua partida e por fim, ficou com uma intensidade muito grande e foi apagando como se gargalhasse em pequenas piscadas até a escuridão total. Ainda deu uma última piscada e depois disso éramos eu e a mulher,  iluminados apenas pela luz da tela de LCD.

Eu tinha comigo de que numa situação dessas eu iria abrir o berreiro, mas não, eu fiquei calmo, parecia até que eu estava com aquela bela mulher na cobertura de um edificio com amigos tomando um suco de laranja. E ao fundo a paisagem de uma pradaria verdejante de um dia de verão.

"Só faltava chover". Disse-me a mim mesmo.

Um raio cortou o céu. O trovão foi tão forte que fez vibrar os meus dentes. Para um filme de terror até que aquela situação ia bem, mas para alguém que estava somente esperando um ônibus...

- Você não fala? Ela perguntou-me.

Eu levantei a vista com certo cuidado.

-"É agora que esta coisa vai botar os chifres para fora".Pensava.

- Eu não vou te fazer mal.

- "Ainda não".

Olho no olho. Numa outra ocasião poderia até ser uma cena romântica. Então ela sentou-se ao meu lado. A luz de outro raio nos iluminou fortemente. Outro estrondoso trovão. Ela fitou o cursor piscando. Ficamos assim congelados por algum tempo. Se eu escrevesse aqui que foi uma eternidade, seria o lugar comum destas estórias, mas admito que neste caso, quando a gente está diretamente envolvida, com o corpo a perigo, a mente em pavorosa, é exatamente este o tempo de cada milésimo de segundo: uma eternidade.

- O que você estava escrevendo?

-"Algo, que nem sei". Foi o meu pensamento.

- Escreve algo. Ela pediu com uma voz mansa próximo ao meu ouvido.

Quase que eu caía na sua lábia. Um pedido destes ao pé da orelha com aquele hálito quente; quantas guerras não haviam começado com um pedido daqueles. Outra coisa que me passou pela cabeça foi que aquela coisinha deveria ser uma vampira arrumando um jeito gracioso de aproximar-se de minha jugular. Então cliquei uma letra qualquer. Saiu um Z.

-Z, para que serve um Z?

- "Vá zimbora daqui", brinquei em pensamento.

- Um z, lembra um besouro, não é, zzzzzzzzzzzzzzzzzz, voando e fazendo círculos no ar e pousando bem no meio de seu ninho. Ela falou, imitando o besouro com a mão direita, fazendo piruetas e finalizando com a mão sobre a minha cabeça.

-"Seja rápida". Foi o meu pedido interior.

Ela espanou os meus cabelos que se desalinharam sobre o meu rosto. Tinha os cabelos longos, mas desde aquela data os mantenho-os cortados no modelo mais tradicional possível.

-"Se eu desejar que ela dance uma coreografia de pole dance...". Nem terminei o meu pensamento.

-Vire a sua luz para mim, vou precisar dela, vou dançar para você.

Ela dançou; parecia voar fazendo manobras no cano do poste de iluminação como uma águia voando em busca de sua caça.

Estava com medo de desejar alguma coisa. Até agora dois pensamentos e dois acontecimentos. Era uma estatística de 100% de acerto.

- Me acompanhe com a luz enquanto eu me movimento. Ela ordenou.

Levantei-me com a tela do laptop virada na direção dela e fui acompanhando aquele corpo sensualíssimo fazendo acrobacias na haste do poste. Aqui e acolá relâmpagos e trovões. Eu já estava conformado com a cena.

Ela subiu até o ponto mais alto, hoje na memória tenho algo difuso como se ela tivesse ido até às nuvens e descido de cabeça até a minha altura. Deu um giro, ficou de pé rente ao meu corpo. Dava para senti-la, a palpitação de seu coração, o cheiro de seu suor.

- Gostou?

Eu imóvel. Ela excitada. Eu fazendo a conta de meus últimos instantes sobre a terra e ela a fim de me comer(no sentido literal de alimentar-se).

-"vou dizer o que?". Perguntei-me em pensamento.

- Diga qualquer coisa.

Eu ia abrindo os lábios quando ela avistou os faròis do ônibus que se aproximava. Olhou-me com certa fúria e correu em direção a um matagal próximo.

O farol do veículo de passageiros aproximou-se como uma carruagem de fogo iluminando-me no meio daquele negrume. Subi a bordo. Haviam outros, cada qual com a sua estória daquele dia de inverno. Olhei pela janela procurando ver aquela mulher.

- Viu alguma coisa? Perguntou-me o motorista

- Não. Respondi.

- Teve sorte.

O ônibus caminhou por aquelas ruas escuras, vencendo a chuva que se tornara muito mais forte.

Vez ou outra a imagem daquela mulher voltava para a minha mente. Assustava-me com a possibilidade de ela estar me espreitando atrás de alguma porta. Desenvolvi uma certa paranoia.

Voltei algumas vezes ao local durante o dia procurando encontrar explicações para o ocorrido.

Então veio-me a mente a idéia de escrever esta estória e fechar o ciclo daquela experiencia. Certas coisas precisam encontrar um final adequado, como um namoro que acaba num meio de uma chuva intensa. Aquela presença iria gostar deste texto e eu poderia inverter a polaridade e perguntar-lhe:

-Gostou?