28 de mar. de 2011

O MENINO VOADOR

Amanheceu o dia e já se escutava a algaravia de Raulzito por dentro da casa. Ele estava fascinado com a idéia de voar. Corria da sala para a cozinha com um lençol amarrado no pescoço imitando o super heroi que tinha visto na televisão. Depois que Raulzito acordava era impossível ficar na cama. Dona Clara levantou-se e abriu a porta do quintal e num átimo ele passou como um bólido disparado por um canhão.

Dona Clara não se avexava em chamar os outros e ia para a cozinha para fazer o café da manhã. Ela somente escutava o barulho de Raulzito no quintal, a intervalos regulares ela dava uma espiada para ver como iam os acontecimentos com o menino. O quintal era amplo com espaço de voo para qualquer menino voador; também era mais seguro. Uma criança precisa de espaço por expandir os seus sonhos.

Os outros ainda pegavam aquele segundo e último sono, aquele repouso de brinde, que se recebia antes do despertar definitivo. Este é um momento mágico no qual se pode ficar com um pé entre cada um dos mundos. Kátia sonhava que era uma menina voadora que percorria as ruas da cidade voando com os braços abertos a um dois palmos do chão; ela mantinhaos olhos voltados para o chão para ver os detalhes da terra e do calçamento. O pai sonhava este sonho meio acordado que disparava para o alto em direção às nuvens deixando ara trás a cidade, que ia ficando cada vez mais pequenina e, lá do alto ele escolhia um outro lugar para ir morar, um lugar distante, muito distante de tudo e de todos. Até mesmo Dudu, o cão viralata que havia sido adotado pelos meninos, grunhia e se movimentava em seu sonho de borboleta; no mais íntimo de si ele sonhava em ser uma borboleta com asas multicoloridas e pousando de flor em flor. Eram sonhos com a temática comum do voo influenciados pelo sonho de Raulzito.

Enquanto isso, Dona Clara sonhava em morar em um balão. O cheiro de café subia aos ares e junto a imaginação dela; naquela casa aérea Raulzito somente precisaria saltar pela janela e teria ao seu dispor todo o céu. Também pensava Dona Clara que seria necessário amarrar um grande fio aos pés do filho para ele não ir para a lua ou como era muito traquino, ir para o sol, mas lá ele poderia se queimar e seriam necessários vários caminhões de pomadas para tratar das queimaduras. Raulzito continuava voando a toda velocidade pelo quintal.

- O leite! Gritou o leiteiro da porta.

O segundo sono acabou e as pessoas foram se levantando, o pai, a irmã e Dudu. Cada qual se espreguiçando embalados pelo cheiro de café que inundava toda a casa. Kátia correu para o banheiro. O pai procurou os chinelos debaixo da cama e percebeu que eles estavam na boca de Dudu, uma disputa matinal diária. Dudu somente obedecia a menina.

- Kátia, mande dudu devolver as minhas sandálias, gritou o pai.

- Dudu! Chamou Kátia do banheiro.

O cachorrinho correu até a porta e ficou latindo deixando para trás as sandálias.

- Todo dia é esta arrumação de vida; este cachorro agora faz parte da família.

- O café está pronto, avisou Dona Clara.

Todos foram chegando ao redor da mesa, café quentinho, cuzcuz, ovos estrelados na manteiga do sertão,queijo de coalho assado, leite com nata. Sentaram-se todos como de costume, então notaram a falta de Raulzito.

- Raulzito! Chamou o pai.

O menino estava no quintal de pé sobre um balanço que o pai havia feito no cajueiro. Balança-se de um lado para o outro tão alto que quase estava conseguindo fazer um círculo completo.

- Raulzito, o seu pai está chamando, avisou a mãe.

Mas o menino-voador agora estava nas alturas com a sua imaginação.

- Vai esfriar, reclamou Kátia.

Todos voltaram-se para a mesa abstraindo a falta de Raulzito. Dudu começou a latir de forma insistente na porta da cozinha.

- Depois Dudu eu lhe dou o seu café...Admoestou Dona Clara.

Mas Dudu continuava latindo. Então todos tiveram a impressão de ter escutado um choro vindo do quintal.

- Raulzito! Lembrou a mãe.

Correram todos para o terreiro e viram Raulzito preso pelo pé no alto do cajueiro. O menino no afã de conseguir cada vez mais ir mais alto fez um looping indo ficar como um enfeite preso na árvore, um enforcado pelo pé.

O pai colocou a escada encostada ao galho onde ele estava preso  e o retirou com carinho. Neste dia o menino-voador passou o dia na cama pensativo, havia desoberto a fornteira que separam os sonhos da realidade.

27 de mar. de 2011

CAPÍTULO 3 - ÓDIO À CABIDELA

Gertrudes pegou a faca e viu reluzir nela o sol da manhã;  seus olhos com brilhante luz viam o arrebol avermelhado e fazia a sua língua, num movimento quase automático,  lamber os lábios sentindo o gosto de sangue.  Ela mostrou a faca a Padma que não fez qualquer movimento.

- Hoje eu preciso comer uma galinha  á cabidela, disse Gertrudes.

E passaram o café da manhã sem qualquer palavra sobre o assunto.

- Você me acompanha?  Vou ao mercado comprar uma galinha gorda para satisfazer a minha vontade.

- Você deveria deixar de comer  carne animal.

- Não me venha com este papo furado de vegetariana;  hoje eu retorno à minha origem primitiva...

- Mas você já estava se desintoxicando...

- Estou cheia de verduras, cereais, chás  e todas essas coisas insossas.

- Você é uma mulher inteligente.

- Muito bem, mas ainda assim sou uma selvagem no sentido estrito da palavra  e hoje eu quero uma galinha à cabidela.

- Com sangue?

- Ao que eu saiba não é possível fazer um molho à cabidela sem sangue.

, - Não podíamos tentar fazer com soja e molho de tomate?

- Não diga uma blasfêmia.

Gertrudes arrumou-se e obrigou Padma a segui-la. Tomaram o rumo do mercado Central de João Pessoa. Pegaram o  ônibus como duas estranhas e durante o caminho não se falaram. Quando o coletivo parou Padma disse:

- Eu não acredito que estamos indo a um mercado comprar um animal para sacrificá-lo e depois comê-lo.

- Pois acredite...

Gertrudes puxou Padma pela mão em direção ao mercado de galinhas. Este é um lugar bastante peculiar do mercado central, com grandes gaiolas cada qual com muitas aves. O cheiro de pena molhada, excrementos e galinha suja pairam no ar. Padma protestou:

- Os animais são tratados sem a menor dignidade...

- Dignidade de galinha é a panela, arrematou Gertrudes.

- Você me assusta com este instinto assassino...

- Ora, toda esta civilização vive do sangue destes animais...

- É uma civilização de doentes exterminadores da natureza.

- Não precisa ficar com culpa, o seu único envolvimento é servir-me de companhia e não se preocupe que ninguém aqui lhe acusará de ser comparsa desse delito.

Você sabia que uma galinha tem uma alma?

- Na minha opinião ela tem sabor, a carne é mole ou dura dependendo da criação.

-Eu falo de vida espiritual e com direito a viver com plenitude a sua encarnação...

- Padma, você precisa se acostumar com a humanidade do jeito que ela é...

Gertrudes distraiu-se com as galinhas e escolheu um belo espécime gordo e cacarejante.

- Ótimo,  esta parece que está na época da postura e nós vamos aproveitar os ovos antes deles serem postos...

Os olhos de Padma marejaram com finíssima lágrima que correu pela sua face, mas Gertrudes não se abalou, colocou a galinha numa sacola grande que tinham levado com este fim e voltaram para casa. Durante o caminho de volta a galinha cacarejava com certa felicidade, pois o garajau onde estava era fétido e desconfortável. Talvez se passasse na cabeça daquela ave com a sua alma uma esperança de um lugar melhor sem imaginar o seu destino na panela de Gertrudes.

Padma permaneceu em silêncio. Nada mais disse limitando-se a acompanhar apenas com um grande sentimento de compaixão pela amiga.

Ao chegarem a casa Gertrudes dispôs a galinha no recanto da cozinha. Padma intercedeu:

-Não poderia ao menos colocá-la solta no banheiro da área de serviços para que a mesma desfrute de um pouco de liberdade?

Gerturdes ia dizer uma piada, mas diante da verdade das palavras de Padma concedeu esta benesse à galinha antes de sua morte. Padma desamarrou as pernas da ave, aconchegou-a no colo. A galinha sentindo talvez saudade de quando ainda era um pintinho deixou se embalar piando como se estivesse sob as asas protetoras da mãe. Padma deixou-a solta no banheiro , colocou água e um pouco de pão molhado que foi devorado com rapidez.

Gerurdes deu inicio aos preparativos para fazer a sua galinha à cabidela. Pegou a faca e iniciou a amolá-la num ferro de amolar que fazia tempos que não usava.

- Padma, eu sei que você acha estranho este costume de comer galinhas, mas isto que eu estou fazendo eu aprendi com a minha mãe, é a coisa mais natural do mundo, se você quiser pode ir para outro lugar hoje.

- Ficarei contigo.

- Você já sabe o que vai acontecer, não sabe?

- Sim...

- E que eu não vou desistir?

- Não se incomode; eu não vou interromper o seu costume...

Então Gertrudes procurou por uma grande bacia de louça, lavou-a e colocou um pouco de vinagre dentro dela.

- O vinagre é para o sangue não coagular, entendeu?

Gertrudes pegou um grande caldeirão pôs no fogo. E preparou um grande uma tocha de jornal.

- O caldeirão é para ferver a galinha e facilitar na limpeza dos esporões das penas e a tocha é para queimar as penugens que ficam, somente depois disso é que a gente abre para fazer a limpeza interna.

Padma teve vontade de vomitar, mas permaneceu imóvel.

- Também já percebi que vou ter fazer isso sozinha, não é?

Padma não disse nada.

- Não se incomode eu sei me virar, não posso nem lhe ameaçar excluindo de participar do banquete...

Finalizado os preparativos Gertrudes foi buscar a galinha. Abrindo a porta do banheiro descobriu que a mesma havia posto um ovo.

- Ela botou um ovo, maravilha então ela está ovada... Adoro ovinho antes de ser posto, Huuuum, é muito gostoso.

- Este ovo é um pedido de clemência...

- Que seja, vou comer o ovo e a dona do mesmo jeito.

Quando Gertrudes foi pegar a galinha, a penosa  sentindo já os ares de liberdade correu entre as suas pernas em direção à sala.

- Corre, Marieta, corre para se salvar... Gritou Padma.

- Ela agora tem um nome?

- Tudo que tem alma, tem individualidade, que é expressa por um nome...

Gertrudes correu atrás de Marieta, galinha recém- batizada por Padma.

- Corre...

- Padma, não incentive esta rebelde...

Marieta correu para o quarto e ficou cacarejando em cima da cama de Gertrudes, e num ato de extrema revolta fez  um rasgo de fezes em cima do travesseiro.

- Ah, miserável, agora você vai morrer de qualquer modo, eu já estava ficando com o coração amolecido com este papo  de Padma, mas agora descobrimos que você é minha inimiga mortal e eu não vou perdoá-la a não ser quando estiver  no meu estomago.

Marieta cacarejou e correu em direção ao guarda-roupa. Voou depois pelo quarto colocando abaixo perfumes, quadros e outros objetos.  Fez o mesmo na sala, mas sabiamente evitou  a cozinha. No entanto,  quis o destino que Marieta  terminasse nas mãos de Gertrudes que quase a estrangulava.

- Eu somente não mato você estrangulada, sua  bandida destruidora de lares, por que isso estraga a carne.

Gertrudes carregou Marieta pendurada pelo pescoço até a cozinha.

- Padma saia já daqui, pois não quero que você me atrapalhe mais...

- Irei para o meu quarto...

Padma se retirou. Gerturdes  no alvoroço provocado pela perseguição à Marieta não se deu conta de que precisava organizar o prato com o vinagre a faca e ir batendo o sangue enquanto cortava o pescoço da ave. A técnica é simples  corta-se a veia  e vai-se aparando o sangue na vasilha enquanto se bate o sangue com vinagre, para depois fazer o molho;   se não se fizer isto o sangue coagula e somente pode ser colocado na panela como um ingrediente sólido que é muito disputado pelas crianças.

- Desde pequenos somos educados para a selvageria, pensou Gerturdes.

Num ato de extrema improvisação ela abriu a porta da geladeira e enfiou Marieta lá dentro enquanto punha todas as coisas em ordem.

-Onde está Marieta, já consumou  a morte? Perguntou Padma voltando à cozinha.

- Não, preciso me organizar, já que vou ter fazer esta coisa sozinha.

- Cadê ela?

- Está na geladeira...

- Você trancou Marieta na geladeira?

- Somente enquanto eu me preparo...

- Mas isto é tortura...

_ Daqui a instantes ela já terá passado para a outra a vida , é somente uma pequena experiência  térmica em sua vida.

-Tire-a de lá agora.

Gertrudes sentindo a dor de Padma abriu a geladeira e viu que Marieta tinha defecado também lá. Gertrudes  deu um suspiro de ódio e colocou a galinha imediatamente  dentro do forno do fogão.

- Você continua torturando Marieta.

- Não chame esta galinha de Marieta

- Você não deve fazer esta coisa feia.

- Você não e a minha mãe.

Gertrudes  pegou  então a faca deu mais umas passadas no amolador.Olhou para Padma com os olhos fervendo.

- Os seus olhos estão cheios de ódio.

- É preciso certa dose de ódio, mesmo para matar uma galinha.

- Isto não tem uma boa energia.

- Esqueça , agora do que precisamos é energia calórica para cozinhar a Marieta...

- Ódio , não é bom.

- A morte é sempre traumática, mas como o que oferece depois é gostoso nós podemos vencer isto.

 - Se pode ser feliz sem isto.

-  sem uma galinha a cabidela não dá para ser feliz plenamente.

- Tudo depende de como queremos encarar  o universo.

 - Esqueça agora já enchi o meu coração de raiva, Marieta está condenada.


Padma disse suavemente:

- O ódio é um veneno sutil que destrói quem o fabrica e o guarda em suas prateleiras do coração. Uma simples desavença, um rancor simulado por trás de uma defesa de princípios vai se inoculando no dia a dia de modo imperceptível.

- Poupe o seu latim espiritualista, disse Gertrudes enquanto arrumava uma posição para começar o serviço.

- Quando anos depois vemos eclodirem  os efeitos destas  sementes de perturbação não será fácil lhes localizar a gênese. Parecerão que vieram do nada que apareceram em nossa frente por obra das parcas, criaturas mitológicas que tecem as nossas vidas. Às vezes nem nos damos conta de que guardamos alguns ódios em nossas prateleiras, às vezes até esquecemos que eles existiam. Somos por vezes  levados a crer que tudo já se desmanchou, mas não é bem assim que funcionam estas coisas. Uma vez que você construiu esta semente de energia mental, ela plantou-se em alguma parte dos jardins de sua alma e lá por qualquer motivo que lhe favoreça, até mesmo outros assuntos e de outras indisposições contra quaisquer outras pessoas,  serviram de alimento para aquela semente, e ela vai desabrochando e se conectando com outras,  que possuem elementos semelhantes, atraem-se umas às outras.

- Eu não acredito que por causa de uma galinha à cabidela eu esteja sendo condenada ao inferno.

- Por isso que perdoar,não é uma tarefa simplória da boca para fora. Jesus o divino mestre, já alertava para a necessidade de ir em busca daquelas pessoas com quem guardamos algum rancor e desmanchar isto.

- Eu não vou perdoar Marieta...

- O perdão envolve a ação de ir ao encontro da pessoa a quem dirigimos o nosso desafeto. No nosso mundo isto pode até parecer uma coisa de grande futilidade. Eu conheço algumas pessoas que acham tudo isso uma babaquice. O fato é que o ódio, o desamor, o egoísmo, criam pequenas bolhas que atrapalham o andamento da energia pessoal em direção ao divino e a liberdade de viver plenamente.

- Para a sua informação, querida Padma, Marieta é uma galinha, disse Gertrudes com ironia.

 - Antes que você diga que se pode viver no mundo somente às custas destes ódios, que esta é a regra, lembrando a máxima romana de estar preparado para guerra como condição necessária  para a paz,  ninguém vive em paz constantemente ameaçado pela guerra.

- Não é uma guerra. É uma receita de família, defendeu-se Gertrudes.

 - Hoje ao sair para ir ao mercado contigo para comprar Marieta vimos  as pessoas sendo inoculados pelo veneno do ódio coletivo;  ele se espalha numa rapidez tão grande que fica difícil  ficar imune à sua ação. Quando nos damos conta já entramos na roda de negatividades.

- Isto é idiotice...

- Eu tinha uma amiga que achava esta coisa de positividades uma besteira,  que o mundo era mal em essência e que as pessoas que não fossem nossas amigas eram todas imbecis e dignas de estarem nos quintos dos infernos.

- Esta amiga devo ser eu...

- O bom é que o tempo passará  revelando novas perspectivas e algumas mágoas irão se curar. A cura é algo unilateral, significando que cada pessoa é que cuida de sua sementeira de ódio, regando-a e adubando-a ou extraindo estas sementes  e destruindo-as.

- Galinha cabidela é um patrimônio cultural gastronômico, gritou Gertrudes.

- O ódio é pessoal, mesmo quando exercido dentro de uma coletividade e em nome dos mais sublimes ideais. O ódio é sempre o mesmo e a singeleza dos ideais não lhes modifica o lado tenebroso e as nefastas conseqüências. Há uma cultura do ódio como sendo a coisa mais chique e evoluída, discutem-se estratégias de guerra associadas às mais elementares tarefas sociais, em tudo as pessoas afiguram a possibilidade de uma batalha contra o mal representado pelo outro.

- Vá à merda!

- Esta energia alimenta e move a grande roda de catástrofes que assedia o nosso planeta. Antes que se diga que esse papo é espiritualista demais, assumo que é mesmo espiritualista, cristão,  mulçumano, judeu, budista e todas as crenças que dizem que  o amor pode vencer qualquer inconveniente.

- Pronto, chegou a hora, disse Gertrudes arrastando Marieta para o patíbulo culinário.

- O ódio não destrói somente a vida psíquica de uma pessoa, ele se materializa na vida física e no mundo ao redor. O ódio é sempre injustificável. Se pudéssemos ver como seriam  estas sementes de maldade veríamos elas primeiramente como uma bala de açúcar que esconde em suas camadas mais profundas o fel mais amargo. O ódio é revigorante a principio e somente mostra a sua potencia quando estes jardins de horrores começa  a exigir mais energia para se manterem.

- Padma, sai da minha frente agora...

- Por isso é um bom exercício fazer o que aconselhou Jesus: buscar sempre a reconciliação, não alimentar estruturas mentais que se prolongaram além da existência fisica paras os mundos mentais que somente as religiões e os estudos espiritualistas vislumbram.

- Eu não vou me reconciliar com Marieta.

- Admito que não é fácil, não odiar. É fácil ter inimigos. Difícil é amá-los, mas podemos insistir e inspirados em Jesus tentar fazer o melhor que pudermos.

- Meu Deus, tudo isto por causa de uma galinha.Os senhores sacerdotes não comem galinha à cabidela?  Arrematou Gertrudes.

Padma se retirou para a sala. Fez um silêncio de fim de mundo, mas o cacarejo de Marieta se continuou a ouvir. Padma teve a impressão de ouvir um choro baixinho vindo da cozinha.

24 de mar. de 2011

A DESCOBERTA

Eu não tenho um grande talento para contar piadas; aprendi umas duas que sempre repito.

Uma delas é a estória daquele sujeito que estava com uma ardência muito grande em seu pênis. Ele foi até o médico, contou  o seu caso e o doutor lhe receitou colocar o dito cujo órgão sexual num copo com leite todas as noites, deixando-o de molho por uns trinta minutos.

O sujeito voltou para casa e sem dar qualquer aviso à sua esposa, toda a noite ia para o banheiro, trancava-se lá e permanecia por trinta minutos.

A esposa, tímida, não quis fazer qualquer pergunta sobre qual o motivo destas permanências no banheiro. Ela ficava intrigada  com o novo comportamento do marido, mas de qualquer forma não reclamava, pois o mesmo estava cumprindo a contento com os seus deveres conjugais.

Mas certo dia, o marido no automatismo daquele ritual cotidiano esqueceu-se de fechar a porta. A esposa percebeu o deslize do companheiro e ficou planejando ir espreitá-lo pela fresta da porta. Ela matutou, calculou os riscos, mas enfim, vencida pela curiosidade, foi caminhando pé ante pé, como se flutuasse sobre uma fina camada de pó de arroz estendida pelo chão; ela tomava todas as precauções para que o marido não percebesse a sua intromissão em sua atividade secreta.

Ela aproximou cuidadosamente o rosto e foi lentamente procurando a figura do homem dentro do ambiente até encontrá-lo numa situação desconcertante. Ele estava recostado com a cabeça à parede sobre o bojo do aparelho sanitário que estava com a tampa fechada e sobre ela um copo de leite e dentro do corpo o bilau do marido, flácido, e mimosamente sendo movimentado, ora em círculos, ora de cá pará lá como se fosse o badalo de um sino. Ela foi tomada de severo espanto. Voltou para a cama  com todo cuidado, deitou-se e ficou com aquela cena estranha em sua cabeça. O marido veio, fez as vezes de marido e ela permaneceu em seu silêncio sepulcral com aquela descoberta entalada em seu juízo.

Então no dia seguinte, procurou a sua melhor amiga para fazer uma confidência , a amiga como todas as amigas, adoram compartilhar os detalhes mais íntimos umas com as outras. As mulheres são assim mais livres e conversam tudo de suas intimidades umas com as outras, os homens sabem que é constrangedor estar com as melhores amigas de sua esposa, pois elas lhes radiografam, ou melhor hoje elas lhe tomografam computadorizadamente. Diz um colega que esta é a grande vingança feminina. O fato é que a esposa e sua melhor amiga foram para um lugar mais reservado, e depois de muitos arrodeios ela disse:

- Amiga, descobri algo que você nunca, nunca sequer imaginou...

A amiga arrepiou todos os neurônios e aguçaram-se os seus instintos. A esposa continuou a fazer um grande suspense.

Há um código feminino que mereceria um tratado de semiótica para estudar esta palavra "amiga". Disse a esposa:

- Amiga eu descobri tudo.

A pobre amiga já não podia se conter e colocou uma série de hipóteses indo desde a infidelidade conjugal até um possível prêmio ganho em uma loteria.

- Uma bomba, acho que você nem imagina como funciona o teu marido, disse a esposa.

A amiga contraiu o coração. De que se trataria aquela revelação, afinal?

- Amiga, de uns tempos para cá eu notei o meu marido com um comportamento estranho e demorando-se mais um pouco no banheiro. Antes eu não tinha notado nada de estranho, eu sempre me jogava na cama querendo me esquecer de todas as coisas que ocorriam na casa...

Então foi a vez da amiga dizer:

-Amiga assim você me mata de curiosidade.

-Amiga, eu aproveitei um dia que ele havia deixado a porta entreaberta e fui cuidadosamente observar o que estava acontecendo e quando me aproximei, vi que ele estava recostado a parede com Dick dentro de um copo de leite.

- Dick? Estranhou a amiga...

- O nosso amiguinho, esclareceu a esposa fazendo um gesto que em outra ocasião poderia ser tomado como uma obscenidade.

-Não diga...

- Pois é amiga, faz 25 anos que sou casada e não sabia que esta coisa se enche como uma caneta tinteiro.

A amiga fez cara de estupefação.

- Nem eu...

- Um copo de leite!

E cada vez que encontravam os olhares relembravam:

- Um copo de leite!

E as duas riram-se até não poderem mais conter a bexiga.

18 de mar. de 2011

COREOGRAFIA

Ana entra contando sete passos.

(Traz consigo uma bolsa de pano suficientemente grande para conter algumas bugicangas)

 Ela oscila dando um passo para frente e outro para trás por três vezes.

Pára.

Respira fundo e olha para os lados  deixa a cabeça cair.  

Senta-se no chão sobre a sacola.

 Respira profundamente três vezes.

Fica estática.

Então salta um pouco com o quadril para cima empurrada por algo que está dentro do saco.

Ela bate no saco.

Fica parada e gira a cabeça ao redor do pescoço, um giro lento.

Depois dois giros mais rápidos para o lado oposto.

Depois gira mais três vezes para o outro lado e mais rápido e ao final deste giro do pescoço,
O próprio tórax também gira fazendo o tronco girar em torno da cintura.

Salta mais alto com o quadril como sendo empurrada pelo saco.

Cai e continua rodando com o tronco e um salto mais alto a põe de joelhos com o saco entre as pernas.

A perna direita se estende para o lado indo o mais longe que pode e a sua cabeça é atraída para a ponta do 
pé direito, o corpo se curva para cumprir este movimento.

Ela cai jogando o corpo para frente e deixa-se espalhar pelo chão formando um imenso “X”.

O seu quadril começa a pulsar numa freqüência de 7 ciclos por minuto, em cima e embaixo, como se estivesse fazendo sexo com o chão.

O seu braço esquerdo começa a pulsar em direção ao alto numa freqüência de 7 ciclos por segundo, como se estivesse batendo a massa para fazer biscoitos.

 O seu braço direito começa a pulsar numa freqüência de 7 ciclos por segundo, batendo o chão como se batesse na água de uma bacia.

A sua perna direita começa a pulsar numa freqüência de sete ciclos por segundo, depois a sua perna esquerda pulsa igualmente.

Todo o corpo se joga para cima e para baixo num frenesi.

Num instante põe-se de pé e a sua cabeça é puxada à altura de sua cintura para frente,
Puxada pela cabeça por um senhor invisível,
Ela circula o palco puxada pela cabeça.

Para diante do saco e cai de joelhos,
Os seus braços são arrastados para frente rentes ao chão, e sua cabeça bate no palco num ritmo de 7 ciclos por minuto, durante três minutos.

Levanta o rosto e ele está encharcado de sangue. 

Ela gira em direção ao lado oposto ao saco, e lambe o sangue que lhe escorre pelo rosto, os seus braços estão inertes e parecem estarem desligados.

 Então subitamente ela é arrastada para cima puxada pelos cabelos e fica na ponta dos pés, e saltitante em equilíbrio precário é arrastada violentamente para esquerda e arremessada contra uma parede invisível, ela sente o impacto da parede e o seu corpo estremece.

Ela cai e fica inerte, e dá três respirações profundas.

 Então subitamente é erguida pelos cabelos e ficando na ponta dos pés é arrastada de forma sinuosa e serpenteando em círculos por uma vez, depois mais veloz na segunda volta e depois mais veloz ainda na terceira volta e é arremessada contra uma parede invisível no lado direito.

Ela sente o impacto e cai no chão, fechada como um feto, com o corpo totalmente encolhido.

Respira profundamente três vezes.

Pára por um minuto.

 Nada acontece  por mais outro minuto.

Então seu corpo começa a oscilar para um lado e para o outro, primeiro em três ciclos por minuto.

 Pára. Um minuto imóvel.

 Então começa a oscilar com mais vigor em cinco ciclos por minuto.

Para  e por um minuto mais nada acontece.

Então começa a oscilar com mais vigor num ciclo de 7 ciclos por minuto.

Num instante põe-se de pé e anda para trás doze passos contados e lentos.

Depois anda em zig-zag por mais doze passos abertos em máxima distancia entre o pé esquerdo à esquerda e o pé direito à direita a frente.

Salta para uma posição com os dois pés juntos.

 O pé direito coça o pé esquerdo sobe até o joelho e coça o joelho,
A cabeça baixa-se e o pé coça a cabeça.

Ela pára e ergue o rosto e abre a boca como numa risada afônica em câmera lenta.

Volta-se para o saco e aponta-lhe o indicador direito e oscilando-o para cima e para baixo em movimento largo, faz algo como uma repreensão.

 Então se volta, leva as duas as mão aos cabelos e os assanha e jogando os braços para o ar deixa-os cair sobre o saco, ergue-o e colocando-o  nas costas  dá três grandes passos, quase saltos para fora de cena.

27 de fev. de 2011

PEDREZ, ROSA E O PATO

Era uma vez uma menina chamada Pedrez, não uma galinha, mas uma menininha de cabelos negros e olhos pretos como o ébano.

Eita! Já ouvi esta parte em outra estória. Não importa. Era uma garotinha que tinha um pato chamado Crioulo que falava “inglês”. Sim, ele falava “inglês” a bela e encantadora língua dos filmes americanos com letreiros em português. O “inglês” era aquele idioma dos filmes que passavam no DVD que vinham acompanhados de um monte de letrinhas que ela ainda não sabia decifrar. Perguntavam-lhe como sabia que a ave falava tal idioma e ela dizia que sabia, pois se parecia muito com a linguagem dos filmes da TV. Então pediam para que o pato fizesse uma demonstração, mas para tristeza geral Crioulo era muito tímido.

Crioulo era um pato adulto, gordinho e branquinho, com os pés tão amarelos que pareciam que ele estava vestido de sol. O bico era também muito amarelinho de modo que a menina acreditava que ele também falava a língua dos habitantes do astro-rei.

Mas, o que venho contar aqui foi o que aconteceu quando Crioulo entrou num condomínio de luxo, desses que agora estão construindo em toda a cidade. Para Pedrez estes lugares eram belos, pois pareciam aquelas cidades de filmes cercadas por uma muralha, mas sem cavaleiros nem princesas. Foi-se o tempo das fadas,  ela sempre escutava de sua mãe que era e ainda é uma incorrigível pessimista. Dizia a mãe que mais vale acreditar no pior em um mundo onde não existem mais fortalezas nas palavras .

Crioulo invadiu um desses condomínios e foi parar na mesa de cristal folheada com ouro de uma das casas. Sentou-se bem no meio e ficou com aquele grasnar próprio dos patos a falar um “inglês” tão puro que somente Pedrez poderia decifrar.

O incrível ocorreu depois  quando os empregados da casa se deram conta de que havia um jarro estranho e falante sobre a mesa da sala de jantar.  Pensaram se tratar de um pato mecatrônico trazido de New York, pois já tinham visto um na televisão. Era parecido com um pato desses que aparecem em embalagem de aves congeladas, mas pensaram que não poderia ser um pato de verdade, pois naquela casa era algo que geralmente existia nos filmes ou nos supermercados. Pensavam que jamais um pato poderia ter entrado naquela casa. Um cachorro, um gato, um peixinho, sim. Um pato, impossível.

Nesta casa, abrindo um parêntese explicativo, morava uma família comum para os padrões do condomínio, um pai, uma mãe e uma garotinha tão tímida que os médicos tinham diagnosticado ela como sendo autista.

Quando a garotinha autista viu Crioulo, foi amor à primeira vista. Ela aproximou-se dele;  Crioulo olhou-a bem no fundo dos olhos para radiografar a alma e sentiu que eram almas Gêmeas de antigas e passadas carreiras nos quintais de alguma infância perdida na roda das vidas passadas. Dizem os monges do Tibete que as almas vivem rodando pelos mundos como numa grande roda gigante que vai do nascimento à morte e da morte para o nascimento, até um sem fim, quando a alma cansada de rodar resolver mudar de brinquedo.

 A menina se chamava Rosa, e por isto estava sempre vestida de cor de rosa,  roupas, sapatos, lacinhos, escova de dente, até o perfume era cor de rosa. Ela era tão calada porque quizesse também falar de outras cores.

A primeira palavra de Crioulo foi,

- “ Como você é uma menina colorida, porque está tão escondida dentro deste  roupinha cor de rosa?”

Ela respondeu a esta pergunta e mais outras coisas. Quando a empregada passou pela sala e viu a menina falante, ligou para os pais e disse que havia descido do céu um anjo da guarda e que estava conversando com a criança. Informou que o anjo por capricho do céu tinha baixado na forma de um pato, um pato gordo que poderia render um bom cozido, mas que por se tratar de um ser celestial isto não iria ficar muito bem. Os pais assustados com a informação ligaram imediatamente para a segurança do condomínio que prontamente chegou ao local armada com pistolas elétrica e o escambau de super tecnologias para defesa da cidadela.
Esta parte da estória contém algo inusitado, pois o pato que não é adepto de atitudes violentas, aplicando os princípios da legitima defesa começou a correr e a dar pequenos vôos pela casa derrubando cristais e pratarias. Foi um alvoroço tão grande que parou todo o condomínio, as pessoas se trancaram em suas casas ligaram as cercas elétricas, os raios laser, ativaram os escudos magnéticos, pois tudo levava a crer que era um assalto em níveis apocalípticos.

Era somente um pato tentando salvar a vida, uma garotinha autista correndo e gritando para ajudar o amigo e uma empregada ajoelhada rezando todas as orações que conhecia, as católicas, as evangélicas e os pontos de umbanda, pois segundo temia este negocio de perseguir anjos era muito perigoso.

Pedrez que havia seguido o seu amigo  tentou entrar no condomínio, mas o porteiro alegou que era proibida a entrada de meninas estranhas. Então a menina aproveitou um pequeno descuido do guarda e como era magrinha, franzina e sapeca, saltou por um canto e percebeu logo de entrada, na primeira olhada que Crioulo haveria de estar naquela casa rodeada de gente fazendo uma imensa balbúrdia.

 Então foi para o lugar e viu ao aproximar-se o pandemônio aéreo com a perseguição ao pato. Crioulo quando viu a menina voou para a rua e saiu uma multidão de perseguidores atrás dele. Uma procissão de gente doida atrás de um pato que ora alçava vôo e noutros instantes corria pelo chão dando aqueles grasnados que Pedrez podia traduzir como sendo,

- “Oh, meu deus me acuda deste povo amalucado.”

 As coisas ficaram perigosas quando um general reformado saiu para a calçada carregando uma bazuca que ele havia usado em alguma guerra, que não poderia ter sido a do Paraguai, nem a II Grande Guerra, talvez alguma batalha particular.

Como todos sabem a bazuca é uma arma muito perigosa que pode destruir centenas de patos com um único tiro.

Quando o general assomou à rua com a sua arma letal e ficou apontando para o pato e atrás do pato estava a multidão de perseguidores, o que vimos foi o pato e a multidão em desvairada correria no sentido oposto. 

O general apertou o gatilho e o projétil zuniu no ar indo atingir uma escultura estranha que a prefeitura municipal tinha construído numa pracinha que ficava na frente do condomínio. As balas desta coisa são muito mais vitaminadas de horror do que qualquer outra, se bem que o horror independe de tamanho e até mesmo uma baladeira pode promover a destruição. Com a explosão da estátua o povo se dispersou em todas as direções.

O general ainda deu uns dois tiros em direção a estátua. Foram duas explosões dignas dos efeitos especiais do cinema, muito fogo, muita fumaça. A escultura de ferro estava toda retorcida.

Esqueceram-se da menina. Quando já tinha conseguido tomar o brinquedo do general, depois de apaziguada todas as animosidades,  deu-se por falta da menina Rosa, e aí veio a polícia civil, militar, a guarda nacional, pois como sabemos estes condomínios pagam uma taxa de segurança especial que lhes dá direito a mais coisas que o povo comum.

O fato é que a menina sumiu. Até que alguém se lembrou que viu duas meninas seguindo um pato em direção a uma das ruas do bairro próximo. Foi um alarme de seqüestro e novamente todo o contingente de segurança foi acionado  com o acréscimo de um helicóptero preparado para o enfretamento da bandidagem perigosa.
 Não foi difícil para o piloto do aeronave identificar as meninas, que estavam num quintal de uma casa conversando e brincando de bonecas.

 Por terra , o grande batalhão se aproximou das meninas e o pai de Rosa foi logo gritando:

- “A minha filha é autista, que foi que você fez com ela?”

- “Nós estamos brincando de boneca.” Explicou Pedrez.

- “Não pode bradou o pai, a minha filha  é autista.” Explicou o pai, mas aí ele se deu conta do absurdo e parou. Ficou olhando as duas meninas falando de coisas de meninas e toda aquela turma super armada da segurança anti-seqüestro ficou com cara de babaca.

 Um especialista em segurança social aproximou-se e disse:

 - “A menina foi prejudicada, pois se era autista não podia brincar de bonecas.”

A turma da confusão se dispersou e ficaram somente os pais de Rosa sentados no alpendre daquela casa olhando a filha brincar no quintal. Não aceitaram  cafezinho, nem água, somente olhavam absortos para algo que nunca tinham visto desde que a filha nascera. Como era possível que de repente, por causa de um pato e de uma menina, ela desabrochasse assim para a vida. À hora da refeição Rosa veio até os pais e deu-lhes um beijo e foi sentar-se à mesa com a sua amiguinha e comeu de tudo o que havia até verduras.

 Uma coisa maravilhosa, ela comeu alface.

Os pais não sabiam decifrar o mistério que poderia haver nestas singularidades, pois as duas meninas pareciam se conhecerem a muito tempo tal a intimidade que demonstravam uma com a outra. Ao entardecer Rosa veio para o colo dos pais que a conchegaram nos braços e retornaram para o Condomínio. Quando chegaram em casa puseram a menina para dormir e voltaram para a sala, ficaram conversando, mudos, apenas com os olhares fixos um no outro, como se tentassem ir além dos limites que as palavras nos impõe. Assim, ficaram toda a noite. 


Na manhã seguinte procuraram uma casa destas que tem quintal, vizinhos normais e principalmente que fosse próxima a Pedrez e ao pato Crioulo.

25 de fev. de 2011

MALASSOMBRO DE PANO



Chovia e fazia frio. Todos se sentaram ao redor das pernas da avó, noite de estórias de fantasma, noite de trovões e relâmpagos assustadores. A luz elétrica havia sumido como se fugisse das terríveis dores da natureza. Apenas uma vela iluminava o pequeno grupo num recanto da sala. Todos estavam com medo e nestas horas o melhor é brincar com o pavor contando estórias de mistérios.

E ao som de um trovão começou a avó:

- “Uma vez, quando eu era pequena, gostava de fazer as minhas próprias bonecas.  Morava no sítio e os meus pais não tinham dinheiro para comprar essas bonecas de luxo de hoje em dia”.

 A avó descreveu o processo de  construção de suas bonecas:  pegava um retalho que havia sobrado de outras costuras de sua mãe; fazia um molde de cartão em formato de gente com três tamanhos, um maior para os adultos, um médio para as moças e rapazes e um menor para as crianças; cortava os tecidos nos formatos; depois os costurava e os enchia com restos de pano e palha; fazia as roupas que identificassem quem era homem ou mulher e acrescentava os retoques finais adicionando os cabelos, barba, bigode, unhas pintadas de acordo com cada boneco ou boneca; finalmente dava um nome a cada um deles. Neste artesanato criava vários núcleos familiares, cada qual com a sua própria personalidade.

A vida no reino das bonecas tinha certa parecença com o mundo com o seu ciclo de vida e morte.

Aproveitando uma rajada de vento a avó continuou a estória:

- “Vez por outra morria um filho, então eu ia até a beira do rio e com a água fazia uma mistura de barro, moldava pequenas urnas funerárias para os pequeninos defuntos e depois promovia o enterro dos anjinhos com velório e o cântico de incelenças.”

- “Que são incelenças, Vó?”  Perguntaram as crianças.

- “São as cantigas para despachar os mortos para o além.”

- “Cante uma, Vó.”

A avó recusou explicando que não é de bom augúrio cantar estas cantigas sem um motivo, porque do jeito que manda as almas para lá, por outro lado também pode atrair. Mas as crianças insistiram tanto e tanto que a avó concordou em fazer uma demonstração.

 Disse a Avó em tom solene:

- “Com o morto estendido na sala dentro do caixão ou em cima de uma mesa, vestindo a sua mortalha...”

- “Que é mortalha?” Interrompeu Raulzito.

- “É uma roupa que se veste no cadáver”. Explicou a velha senhora e continuou.

- “Então, em volta do morto as carpideiras começavam a cantar.”

- “Carpideira?”, Estranhou a menina Kátia.

- “Carpideiras eram mulheres que vinham chorar o morto e cantar as incelenças que eram assim:”

“É uma incelença da virgem santa vitória”
“Amanhã muito cedinho este anjinho vai embora.”
“Esse cujo vai embora contrito do coração”
“Adeus meu povo, adeus meus irmãos “

A avó continuou a explicação:

 - “Então eu ia para a beira do rio, cavava uma cova e enterrava os anjinhos”

 Neste instante Kátia saltou de seu lugar e disse:

- “Eu enterrei a minha Barbie que estava sem as pernas , mas não fiz uma cova nem cantei nada.”

 A Avó respondeu:

- “Então ela foi mal enterrada”

 Então a avó baixou o tom da voz e continuou a estória dizendo que uma vez quando ia passando pela beiro do rio ouviu aquela voz chamando:

-“Kátiaaaaaaaaaa...”

A menina Kátia agarrou-se à perna da avó pois tinham o mesmo nome.

- “Kátiaaaaaaaaa...”. Repetiu a avó imitando a voz misteriosa.

Uma voz fininha que se perdia pelos monturos, mas a avó fazia que não estava entendendo e os enterros continuaram.

A sua mãe lhe havia prevenido que não fizesse enterro de boneco grande, mas como a morte sempre ronda as casas de bonecas, foi fatal a morte de alguns deles e todo o ritual foi cumprido à risca, inclusive com as incelenças cantadas dozes vezes como manda o costume.

-“Então outra vez, depois de muitos enterros, quando eu passava pela beiro do rio, ouvi um assovio.” Continuou a avó.

Neste instante, as crianças e a avó sentiram o vento da chuva entrar pela sala fazendo um barulho estranho. Um clarão anunciou um trovão gigantesco, que fez tremer as paredes.

Todos ficaram imóveis, mas a avó quebrou o pavor inicial e continuou:

-“Então, outro dia quando eu ia passando novamente pela beira do rio, eu escutei a voz de uma mulher dizendo:

-“ Menina, volte aqui e me desenterre”.

A  avó continuou aumentando ainda mais o tom de mistério:

-“Foi uma voz audível como se uma pessoa tivesse falado, uma voz que quando tocou o meu ouvido provocou um arrepio em toda a pele de meu corpo. Corri  para contar para a minha mãe  que me disse que havia avisado para não cantar as incelenças completas e nem enterrar bonecos adultos. No outro dia fui até a beira do rio e comecei a desenterrar os anjinhos e alguns adultos, mas não lembrava onde estavam a cova de todos.Havia marcado elas com uma cruzinha feita de pauzinhos amarrados com linha e o tempo e outros passante deviam ter passado por cima e desmarcado os lugares. Então, toda a vez que ia se aproximando do rio, de longe, já via que alguma coisa de misteriosa iria acontecer, mas nem sempre era possível evitar aquele caminho e sempre escutava uma voz chamando. Até que um dia acompanhada de minha mãe perguntei:

-“ Mãe, a senhora  ouviu? E minha mãe deu-me um carão”  

-“Deixe de fazer pantim. Isto é invenção de sua cabeça.”

A avó arrematou a estória:

- “ E assim fiquei por muitos anos escutando aquela voz que vinha reclamar de alguma coisa e em noites de chuva, como hoje, aquelas vozes ficavam gemendo e dizendo que estavam com frio.”

A criançada estava congelada de medo e qualquer silvo do vento já era identificado com uma voz ou uma gargalhada de uma boneca enterrada.

 A menina kátia disse:

-“Eu pelo menos enterrei a boneca que já tinha se acabado, pior foi Raulzito que enterrou todo os bonecos de seu exercito de plástico vivos, só por maldade”.

- Enterrou os soldados vivos? A avó perguntou.

- “Eles estavam querendo fazer uma vigem ao centro da terra”. Raulzito argumentou.

- “Agora todos eles vem assombrar você”. disse Kátia.

A Avó interrompeu.

-“Paremos com estas estórias, que   é hora de todos irem para a cama.”

 Mas nesta noite, tiveram que encontrar uma forma de por as crianças para dormir agarrados a perna da avó.
E assim fizeram um ninho em suas pernas e não havia força que os tirasse de lá.

A avó não conseguia dormir com o incomodo da situação. Ficou então lembrando das coisas de sua infância e rindo da inocência dos pequenos netos. Um clarão tomou o quarto e o trovão rasgou a natureza como uma grande gargalhada e ela pensou ouvir uma voz chamando:

-“Venha me tirar daqui que eu estou com frio”.

A avó voltando à sua meninice agarrou-se com os netos, cobriu-se toda e adormeceu.

10 de fev. de 2011

CAPÍTULO 2 – COMBATE FILOSÓFICO

- Siga a voz leve que sopra sobre a tua cabeça. Disse Padma com ares de guru.

 Gertrudes ficou acabrunhada com a proposta procurando uma maneira de desmontar a colega. As duas mulheres continuaram andando silenciosamente pela calçada.

-  E se lá na frente tiver uma tribo de canibais? Perguntou Gertrudes.

 - Vá em frente, mesmo que os guerreiros malvados da tribo inimiga estejam lá te esperando. Respondeu Padma.

- Vai só, que eu não vou ser engolida como refeição.

Mas neste dia Gertrudes determinou-se a não se sair vencida neste embate meio filosófico e procurou um aliado. Viu que se aproximava um padre e atacou de supetão.

- Padre, a gente deve sempre ir em frente nas coisas que pensamos em nossa cabeça, mesmo que tenha um perigo muito grande nos esperando? Disparou Gertrudes.

O sacerdote respondeu na bucha:

 - Vá em frente,  não olhe demasiado para trás para não ficar com torcicolo, faça o que precisa ser feito. Cada dia sempre tem a sua cota de tarefas inadiáveis, algumas das quais escrevemos em nossa agenda, e outras que surgem ali na hora e são tão urgentes quanto as outras. Faça o que tem que ser feito, mas não faça falando, faça fazendo, a não ser que a sua ação seja a fala, então abra a boca e acredite  que aquilo que precisa ser dito vai sair de sua boca.

O padre foi respondendo, andando e não olhou para trás. Simplesmente passou como um vento rápido de verão.

Padma aproveitou a oportunidade e perguntou a um pescador que estava na beira da lagoa tentando pescar algo se devia esperar que o peixe mordesse a isca.

- Sim e também do mesmo jeito com as outras coisas da vida diária, desde escovar os dentes até atravessar a rua.

- Mas neste caso você está parado sem fazer nada. Objetou Gertrudes.

- Tenha sempre a noção de que há um momento ideal  para cada ação, um momento que gasta menos energia e produz mais resultados. Não fique esperando este momento, mas aprenda na ação a descobrir o melhor momento. Às vezes, é preciso ficar quieto porque esta é a ação correta. Disse Padma.

O pescador voltou o seu olhar para as águas encardidas da lagoa. As duas mulheres seguiram o seu caminho.

Então Padma disse:

 - Olhe para o céu, respire ar puro, oxigene bem os pulmões, e beba água pura, alegre-se em seu coração por cada oportunidade, diga sempre muito obrigado por cada coisa.

- Você está muito Polyana para o meu gosto, diga-me onde leu todas estas baboseiras. Falou Gertrudes com rispidez.

Viajaram em silêncio por ruas e avenidas, vendo pela janela do ônibus coletivo, o movimento da noite em alguns bairros residenciais, algumas  pessoas saindo de casa após o jantar e colocando as cadeiras na calçada.

Então Padma falou:

- Vale a pena descobrir que este pequeno ato abre as portas dos maiores obstáculos e acima de tudo mantém a mente focada em deus.

- Mas que é deus, para nós que vivemos numa sociedade onde a presença de algo divino está tão massificada pela mídia? Atacou Gertrudes.

- Fica difícil até pedir que se exercite a intuição e a calma. Concordou Padma.

- Hoje temos que gritar  para ter a sensação de deus.

- Mas perceba que deus é uma palavra difícil de ser trabalhada, e há somente uma maneira de aproximar-se de seu sentido: através da calma, da pratica desinteressada da caridade, da mente limpa e de um imenso sentimento de gratidão. Pouco importa o que é, como é, onde mora, pois estas questões mesmo que corretamente trabalhadas pela teologia, nas mão cotidianas transformam-se em muros que separam-nos do sentido de deus.

Gertrudes viu que a colega não iria capitular e aceitou filosofar pelas beiradas.

- Um bom exercício é alimentar-se do que é bom, das coisas boas, para o corpo e para o espírito.

- Espírito, é outra palavra, imagine o que é esta coisa, algo imaterial que vive dentro de nosso corpo, mas para ser feliz a compreensão dela é essencial, não aquela compreensão dos dicionários, mas a compreensão que brota da experiência subjetiva, não há outro modo de aproximar-se desta palavra.

O semblante de Gertrudes contorceu-se diante daquele momento de filosofança e disse:

- Isto é filosofança!

- Esta palavra não existe.

- Eu acabei de criar.

Padma  não se abalou, olhou para a lua cheia que parecia observa-las com curiosidade e falou mansinho:

-  Apesar de ela estar no dia a dia  não é possível comprá-la.

- Você está falando de quê?

- Será preciso fazer  uma jornada ao nosso interior. Há que se descobrir coisas muito sérias e que podem ser a chave de todas as nossas experiências.

Gertrudes deu uma balançada no peito que os seios quase pularam para as costas. Explodiu toda a sua ira contra a era de aquários. Disse o que pensava: que ela era uma mulher sem preocupações filosóficas abstratas, que um homem nu numa cama era toda a filosofia de que precisava.

- Caiu na rede eu devoro e só fico triste quando não sei o que fazer com a minha solidão. Arrematou Gertrudes.

-   Então aprenda a meditar.

- Meditar???

- A primeira e mais básica técnica é aprender a parar o corpo e prestar atenção na respiração, somente isso. Um exercício útil é colocar o despertador para dez minutos e sentar-se em uma posição confortável e ficar imóvel observando o próprio movimento respiratório. O truque de estabelecermos um tempo serve para aprendermos a ter paciência e esperarmos o alarme do relógio. Comumente ficamos querendo saber quanto tempo falta e criando ansiedade, então é preciso aprender a viver este tempo sem preocupação, depois aumente o tempo para trinta minutos, sessenta ou mais conforme a sua necessidade. Agende sempre um tempo para estes encontros com o silencio, diariamente, mas faça isso em um lugar que não seja interrompida, pode ser o banco de uma praça, de uma igreja,  um recanto no trabalho, não aproveite, momentos agitados como os tempos no transporte coletivo ou filas de banco.

- Ahá, você não é capaz de enfrentar os tormentos de uma fila básica da Caixa Econômica. Disse Gertrudes como se tivesse descoberto um ponto fraco da outra.

- Quando estiver num lugar como esses em que o tempo parece não andar, será útil desenvolver um exercício de travessia: imagine uma longa ponte de corda sobre um abismo,  imagine que está atravessando esta velha ponte de corda sobre um grande despenhadeiro, cada passo na fila corresponderá a um desses passos cuidadosos que você deve dar para não cair no precipício. Explicou Padma.

- Com a quantidade de pessoas que tem na fila a ponte vai se romper precipitando todos no buraco. Respondeu Gertrudes com ironia.

Padma calou-se e passaram assim neste mutismo mais de uma hora, talvez mais um pouco. Então Gertrudes sentiu-se incomodada e falou:

- Desculpe-me a acidez, sou terrível e a velhice apenas me deixou ainda mais nojenta.
Houve ainda mais silêncio e então Padma disse:

- Ouça a voz de seu coração, mas também ensine o seu coração a não se magoar com coisas à toa. De que adianta ouvir sempre a voz do coração, se você ensinou-o a ser raivoso e ciumento?  A educação desta voz é de grande utilidade, pois ela dialoga diretamente com a voz da consciência, sendo o principal contato da mente objetiva com o desconhecido reino interior. Quando quiser realizar algo, construa o seu diálogo com a voz do coração e somente depois estabeleça o contato com a voz interna que tem o contato com todas as energias que movem a nossa vida.

Gertrudes sentiu um embrulho no estômago. No íntimo achava aquelas frases um monte de baboseiras. Sorriu com aqueles dentes de pose fotográfica.

- Tão nova... Que desperdício!

Padma sorriu apenas.