28 de jan de 2011

ENCONTRO COM PADMA


CAPITULO 1 – ENCONTRO COM PADMA

Dia claro. As ondas marulhando na praia. O vento em meu rosto. Gosto de ir para a praia. Tento evitar o sol abrasador, mas impossível resistir. Visto-me de protetores de toda qualidade. Adoro o mar. Adoro ver os caras desfilando diante de mim. São lindos e não arranca nenhum pedaço de minha moral ilibada.  Aqui não tenho o problema de infectar o meu computador com vírus por dar uma ou outra espiada num sitio de homem pelado. Há algo mais encantador do que uma estatua grega diante de si, claro uma estátua com uma coloração mais bronzeada.

Neste mister de ver o que a minha sexualidade me impõem sem ter que escandalizar os meus netos. Estou na praia quando uma garota de bronze natural sentou-se ao meu lado. Acho que precisando de uma babá. Tenho cara de cuidadora de crianças.
-Posso sentar aqui? Ela me perguntou.

- Claro. E não disse mais nada, fiquei contemplando o horizonte como um pau colocado por um pescador para amarrar a sua jangada. Sou aquele toco imóvel, ali sem articular qualquer som compreensível. Apenas por instinto comecei a cantarolar uma melodia, baixinho que somente eu poderia escutar.

- João Gilberto, eu gosto dele. Disse a criatura ao meu lado.
Eu continuei imóvel. Pensei que poderia me teletransportar para algum lugar distante e deixar apenas a marca do corpo em sua materialidade ali para voltar ao mesmo ponto em segurança. Fui até as profundezas de minha alma à procura de uma porta de saída.
-Que criaturinha mais imbecil - Não vê que estou aqui em estado alterado de consciência dedicada às pernas destes rapazes maravilhosos - pensei.

- Garota de Ipanema, eu gosto muito quando João Gilberto canta. Ele deve ter a idade da senhora.

-Que absurdo! Ruminei em minhas entranhas. Esta coisa senta-se ao meu lado e vem na mesma tacada me chamar de velha decrépita e ainda guardiã de sua segurança. Sim, porque uma senhora deve inspirar segurança. Ela deveria saber que por trás de uma velhinha tão doce pode existir uma implacável serial killer, que as estórias de contos de fadas tem alguma razão quando colocam as bruxas como senhoras velhas e enrugadas. Em minha opinião elas ficaram assim depois que um monte de garotas intrometidas se meteram em suas incursões pelo mundo da observação de espécimes masculinos. Ela deve pensar que estas coisas cabeludas são apenas para ela.

-O meu nome é Padma.

Cometi o erro de comentar:

- Padma, que nome mais sugestivo.

- É o meu nome espiritual. Ela explicou.

Como em nossa época tem maluco para todo gosto com carteirinha e organizações que os protegem do apedrejamento coletivo, fiquei apenas esperando a metralhadora giratória de explicações absurdas que rodeiam estas associações de descobridores das verdades ocultas herdadas dos milenares povos desaparecidos num cataclismo que ocorreu antes do planeta terra existir. Seja como for fiquei na minha inútil posição de bruxa à beira mar.

- É do mar que veio toda a vida na terra. Ela disse com um ar ingênuo de quem havia descoberto a pólvora no último São João soltando fogos de artifício.

- Já li isto num livro de biologia. Foram as minhas delicadas palavras.

- A senhora foi professora? Quando ela disse isso, subiu-me pela espinha uma rajada de energia, que me tocou o cérebro já escolhendo a melhor forma de esconder o seu cadáver. Um crime perfeito seria levá-la para tomar banho com a vovó, eu entro um pouco mais na água, finjo estar me afogando e então me agarro nela e afogo-a. Haveria o risco de morrer também, mas em todo o caso eu teria livrado as outras pobres mulheres desta xereta importuna.

- Atualmente, eu sou pesquisadora estética. Foi o que respondi. Acho que o meu anjo da guarda que empurrou as palavras para fora de minha boca. Imagine que eu estava a ponto de cometer uma irracionalidade. Nada melhor do que a arte para justificar a loucura.

- A senhora é artista?

- Não me chame de senhora - Pedi-lhe com a voz metálica de um matador de boi - Também não gosto do meu nome, de modo que pode me chamar do que quiser.

Mas antes que ela se empolgasse e resolvesse me chamar de vovó, ou pior ainda de tia, eu me antecipei e disse que podia me chamar de Gertrudes.

- Gertrudes, é bonito, o que significa?

- Não sei.

- Você nasceu aqui?

- Não.

- Você mora onde?

- Querida, você é da polícia? Ou de alguma agência de pesquisa? Ou do jornal? Ou de alguma agencia de vendas de planos funerários?

- Sou filósofa. Devo confessar que esta afirmação doeu fundo em minhas camadas de egos até o mais íntimo recanto. Filósofa são as pedrinhas que encontramos na areia e não aquela coisa cheirando a leite. Mas pensei comigo que diante de uma oferta tão grande de drogas, maconha, chás de cogumelos, LSD e outras coisinhas mais, ela deveria ter alucinações que pareceriam numa mente perturbada fluxos de pensamentos semelhantes a filosofia. Muitos acham que a filosofia é aquele lugar habitado pelos malucos. Na universidade os alunos de filosofia são distinguidos dos normais, porque ficam falando das traduções gregas de Heráclito comendo o bandejão do restaurante universitário. Estava matada a charada, esta coisa lindinha ao meu lado era estudante de filosofia.

- Você é estudante de filosofia?

- Sim. Ela confirmou. Eu me senti o próprio Sherlock Holmes.

- De que universidade?

- Do Templo da Flor Dourada.

- De onde?

- Não fica aqui nesta cidade.

- Estou certa que sim. Foi a minha resposta. Mas não esperava o que viria seguir. Fiquei algum tempo olhando as ondas e constrangida com a presença daquela fedelha. Os homens passavam. As minhas carnes tremiam e eu nada de poder dar sequer um suspiro. Até que passou um cara e eu inadvertidamente dei um suspiro longo.

- Ele é lindo, não é?

- É - Disse como se estivesse soluçando - Mas pode ficar com ele se quiser, na realidade agora eu posso somente olhar e suspirar. Fiz uma confissão de natureza íntima para alguém que eu mal conhecia. Pensei que talvez fosse melhor assim, pois preservar-me-ia o anonimato.

- Eles passam.

- Muitos. Cada um mais lindo que o outro.

- A senhora já amou alguém?

- Não me chame de senhora...

- Desculpe-me, Gertrudes...

- Já, muitos, dezenas de amantes e 7 maridos, todos mortos de morte natural, graças a deus.

- Uma vida intensa.

- É por isso que venho para cá olhar estas coisinhas antes que a vida acabe e tudo vire somente cinzas.

- E a vida acaba assim?

- Depois tudo é o nada. Como se diz na sabedoria popular, daqui nada se leva, porque vamos para lugar nenhum.

- Então, eu acho que eu vim de um lugar parecido com lugar nenhum.

- Como assim?

- "Lugar nenhum" é um lugar, você não sabia?

- É o nome do sítio onde fica o seu Templo da Flor Dourada?

- É.

- Qual o endereço?

- É um pouco difícil de explicar. Ela falou e parou por alguns instantes. Depois abriu a boca como se fosse dizer algo, mas misteriosamente parou como se alguém a tivesse impedido.

- Fica aqui na cidade de João Pessoa?

- Fica perto.

- Em qual município vizinho?

- É perto e não é. Quando ela disse isso pensei:

- Isto deve ser o ataque dos estudantes assassinos de filosofia. Segundo a opinião popular aquilo era o que se chamava de muita maconha no juízo.

- Fica no planeta terra?

- Fica perto. Ela respondeu com candura. Pronto eu agora estava diante da versão erótica do pequeno príncipe em plena praia de Tambaú, olhando as beldades. Fiquei receosa de perguntar algo mais e ela me responder que tinha vinda de uma estrela e que tinha uma rosa que ela guardava numa redoma e coisas assim do livro de cabeceira das intelectuais de algibeira.

- Mudando de assunto. Quais os filmes que você mais gosta?

- Ainda não vi um filme. Gostaria muito de conhecer, mas estou chegando aqui pela primeira vez então não conheço muitas coisas.
Só faltava agora ela me dizer que era um extraterrestre e que a sua nave a havia esquecido e que teríamos que improvisar uma antena para enviar uma mensagem para que os seus amigos voltassem para buscá-la. Pensei que a loucura hoje avança a passos largos e tem muita gente doida por aí que consegue até governar as instituições mais importantes. Ela deveria ter alguma patologia esquizofrênica ou algo parecido do catálogo quase infinito de possibilidades de sandices aceitáveis.

- Você tomou os seus remédios hoje? Joguei a verde, como se diz, para colher a fruta madura.

- Como assim? Percebi que ela não compreendeu a minha pergunta, nem sequer se ofendeu.

- Quem são os seus pais?

- É uma longa estória. Achei que tinha tocado em alguma área traumática. Todo adolescente ou  pós-adolescente como queira, hoje dizem que a adolescência termina aos trinta, eu pela minha própria experiência acho que ela deve terminar aos cem.

Ainda assim ficamos esperando o que poderia ocorrer conosco naquele diálogo estranho e convidei-a para caminhar pela orla até o farol.

- Vamos caminhar um pouco?

- Sim, foi a resposta. Levantamos-nos e fomos andando jogando os pés contra as águas das ondas que vinham e batiam em nossas pernas.

- Você é uma garota muito bonita. Tem namorado?

Ela permaneceu em silêncio.

- O que é a vida para você?

- É o sentido de tudo o que existe?

Então passamos por um grupo de rapazes que quase quebravam o pescoço para olharem para ela. Descobri as vantagens de tê-la como amiga. Ela poderia ser a minha isca para eu conviver de mais de perto com aqueles homens. Eu teria que aproveitar a minha vida em todos os seus aspectos até o último pedaço, mesmo o mais infinitamente pequeno eu queria que fosse completamente desfrutado.

O sol abrasador da praia fez com que parássemos algumas vezes para beber água de coco nos quiosques.

Quando chegamos ao sopé da falésia do cabo branco, eu estava em estado de transe não só pelo cansaço físico , mas pela imensa quantidade de rapazes que se aproximavam de nós para oferecer ajuda.

- Você deve ser um anjo do céu que foi enviado para mim. Eu disse em tom de brincadeira.

- Você tem toda a razão, é isto mesmo.

Eu gelei.

UM DIA DE ANGUSTIA NA VIDA DE MATIAS ALECRIM



Ele não sabia de onde havia vindo aquela sensação esquisita de que tudo parecia azucriná-lo, se fosse um vento, um zumbido de uma abelha errante ou mesmo a folha distante de um coqueiro. Tudo o irritava em detalhes tão profundos que parecia feri-lo no âmago do ser onde mora a alma.

 A sua criada olhou-o desconfiada e disse algo como o seu desjejum já está posto a mesa , mas aquilo pareceu um grito de guerreiro inimigo frente a frente no campo de batalha. Matias avermelhou os olhos com uma profunda vontade de mandá-la para os quintos dos infernos.

Ela percebeu que ele hoje estava vivendo um daqueles terríveis dias de sofrimento, que vinha de não sei de onde e que ficava por ali pairando e dando o tom de todas as coisas lindas da vida. O pão parecia podre, o café azedo, o suco de frutas insosso e o bolo um misto de excrementos colocados em fatias de chocolate fecal. Algo que o mal o humor é capaz de produzir.

Matias resolveu que o melhor nestes dias era ficar mudo, mas esqueceu-se de avisar às crianças do bairro, principalmente hoje, que haveria um campeonato de pipas. Ele sentiu que seria uma condenação ter que encarar aquelas horríveis e adoráveis criaturas, miniaturas de gente, mas demônios completamente crescidos e com os seus reinos por estabelecer.

Matias sentiu a dor da gritaria que se aproximava de sua porta, olhou para uma espingarda antiga que atirava chumbo aos quatro ventos, mas a voz grossa da criada, se fez ouvir num sonoro, Matias, essa mulher agora tinha o poder de escutar os seus pensamentos foi o que concluiu Matias. Ele tergiversou em ruminar consigo mesmo que aquela dócil serva era no entanto uma bruxa, mas o pensamento escapou e ele escutou o barulho de alguns pratos sendo atirados contra a parede. Neste caso até pensar era um negócio extremamente perigoso. Fazer o que?

 Suportar.  Elas chegaram e foram entrando pela casa numa algazarra só, dirigindo-se para a cozinha onde lhes aguardava bolos, sucos e doces. Ai meu deus, que sofrimento. Ele pensou que talvez fosse uma boa idéia fugir, mas na impossibilidade disso imaginou construir uma pipa gigante amarrar todos aqueles pequenos e depois cortar a linha e vê-los desaparecer através dos céus e das abóbadas em direção ao mais alto do inferno. Matias não se deu conta de que o inferno geralmente ficava embaixo e não em cima, mas isto era um detalhe que não lhe tinha vindo à mente.
Teve que ir para a sala ajudar a construir as pipas, e cada vez que escutava um Vovô Matias, ou um Tio Matias pensava, não sou avó nem tio destas coisinhas malditas, pois a sua cabeça doía terrivelmente.

Então com o extremo mal humor que lhe assomava, mas controlando-se o quanto podia com medo da horrorosa bruxa, ele se foi para o campo onde outras, talvez milhões de crianças em sua percepção, estavam ali para atormentá-lo. O que dizer dos pais e tios, tias e coisas familiares do tipo, que vinham com comentários  idiotas e vinha-lhe na mente os pensamentos mais obscenos, mas a velha criada pigarreava dando a entender que havia escutado o seu pensamento. Nem mais pensar eu posso, que tortura.

E assim foi-se a manhã fazendo o que não queria e fingindo estar com a felicidade no rosto, pois tinha aprendido a fazer a careta básica de sorriso feliz. Sorria para todos aqueles monstrinhos e respectivos proprietários.  Pensava, se eu quisesse trabalhar em circo, já teria os bichos, mas escutou a voz da criada, Siô Matias controle-se.

De tanto fingir que estava feliz esqueceu-se que estava fingindo, e foi fingindo, fazendo de conta que brincava, que em um momento começou a brincar e a correr e ficou tão absorvido nisso que as pessoas que estavam no parque acharam estranho aquele comportamento e pararam para ver o espetáculo. Ele corria e empinava a pipa e gritava como se tivesse a mesma idade que os pequenos. Voltou para casa tão cheio daquela energia que foi até a cozinha e comeu sozinho todo o bolo de chocolate que havia sido feito para o lanche da tarde, e comeu mais os docinhos. Foi tanto que teve uma dor de barriga, e enquanto a dor pressionava os intestinos ele cantava uma modinha que fazia muitos anos que estava esquecida em algum lugar de sua infância.

Ele não sabia o que estava acontecendo até que a criada perguntou-lhe se ele estava feliz. Ele parou, ficou um pouco envergonhado de ter se esquecido de seu mau humor e foi dormir. Dormiu até o dia seguinte, levantou bem cedo e foi ver o sol nascer no jardim.