28 de abr de 2013

A FREIRA DO PEZÃO


Os sonhos são muito poderosos e podem afetar a vida de uma pessoa.  Antes de ser uma premonição os sonhos  podem influenciar a vida de alguém e mudar o seu destino.

Ouvi a estória de uma mulher que não se casou por causa de um sonho. Kátia era a mais velha das sete irmãs da família de um senhor de engenho nos tempos da Paraíba do século XIX.  Ela estava com o casamento marcado esperando apenas a volta do noivo, que  viajara para a Província do Maranhão para cuidar de negócios;  tão logo ele voltasse se celebrariam as bodas.

 Então, certa noite, Kátia já tinha adormecido, quando de repente, um forte barulho a fez saltar da cama.  O estrondo veio  acompanhado de um clarão. Ainda ofuscada pela intensidade da luz ela viu que pulou para dentro do seu quarto uma freira de aspecto horrendo com pés enormes e descalços.

Kátia saltou da cama assustada. A freira  dirigiu-lhe o olhar fulminante e falou:

“Responda-me sem vacilar”.

E mostrando o seu pezão esquerdo cantou melancolicamente:

" Há sapato para este pé?”,  perguntou apontando para o próprio pé.


“Então não há marido para esta mulher!”  apontando para Kátia.

Por um tempo as duas se olharam como se fossem começar um duelo, mas então a freira  saltou através da janela desaparecendo numa nuvem de fumaça.

O fato é que ao acordar do pesadelo Kátia chamou as suas irmãs que lhe deram um copo d’água com açúcar.

Cinco dias depois chegou uma carta vinda do Maranhão na qual o noivo pedia desculpas e acabava com o casamento.

Kátia ficou presa naquele sonho e nunca mais se casou. Ela morreu com a idade de 101 anos sempre atormentada pela freira daquele pesadelo adolescente.

4 de nov de 2012

A PONTE SOBRE O RIO DO ESQUECIMENTO


- Posso ficar ao seu lado?
- Sim.
- Obrigado. Não vou incomodar...
-  Posso perguntar algo que está me deixando profundamente incomodado?
- Pode perguntar o que quiser...
- O que estou mesmo fazendo aqui?
- Por que a pergunta?
- Porque estou me sentindo um pouco fora do eixo...
- Como assim fora do eixo?
- Ora, eu fico olhando para o meu dia a dia e parece que as coisas não tem um propósito, ou tem, mas é simplório demais...
- Como assim simplório?
-  Estou esperando que passe a tempestade, fico sempre esperando que passe, como se eu estivesse dentro de um barquinho numa tempestade e esperasse que ela se acalmasse, ou então como naqueles dias em fico à noite com medo da escuridão aguardando que chegue o dia.
- E isto é simplório?
- É somente isso que estou fazendo, esperando que passe a tempestade e enquanto isso fico completamente paralisado...
- Com o quê?
 - como?
- O que te paralisa?
- Acho que é medo...
- Medo?
-  Sim, eu tenho medo...
- Medo de que especificamente...
- Ah, eu não seu ao certo.
- Tem algum momento que te vem á mente...
- o que?
- Um momento em que você se viu diante de uma grande dúvida...
- Acho que me lembro de algo assim...
- Pode me contar?
- Bem, eu não sei se você vai gostar...
-  E dai?
-  Eu era um garoto, não me lembro de minha idade exatamente...
-  E isto importa?
- Um pouco.
- O que aconteceu?
- Bem meu pai abusou de mim...
- Como assim abusou? Seja específico...
- Ele simulava uma luta, coisa que os pais fazem quando somos crianças, mas ele finalizava sempre sobre mim gozando sexualmente, como se eu fosse uma mulher.
- E você entendia o que estava acontecendo?
- No principio não...
- Como aconteceu o entendimento de que havia algo errado?
- Bem, ele sempre vinha com esta brincadeira, e fui descobrindo coisas sobre como nasciam os bebes.
- o que te fez entender?
-  Acho que foi um filme que vi, ou foi uma gravura sobre o ato sexual...
-  E então?
- Bem, eu achei que ia ficar prenhe como uma mulher...
- E você não queria isso...
- Não, não queria, mas fiquei com medo de ter um bebê...
- Como assim medo de ter um bebê?
- eu não sabia como nasciam os bebes ainda. Interrompi drasticamente as minhas brincadeiras com o meu pai, me afastei radicalmente, mas...
- Mas?
- Esperei durante um ano para ver se não nasceria algum bebê.
- E?
- Não nasceu.  Senti-me aliviado e então eu destruí a imagem de meu pai dentro de mim, mas de algum modo o seu fantasma continuou me assombrando.
- Só o fantasma, ou ele ainda insistiu em continuar com a brincadeira?
- Deve ter insistido, mas eu afastei. Lembro-me somente anos depois eu já adulto, ele vindo conversar comigo sobre grandes personalidades que eram homossexuais...
- Ele não desistiu?
- Acho, que durante certo tempo ele continuou com a sua intenção, mas eu o tratei com bastante rudeza...Então ele morreu...
- Morreu como?
- Simbolicamente.
- Não se morre assim, o símbolo costuma deixar mais viva as coisas mortas.
- Acho que é daí que vem esta minha espera constante, de que passe a chuva, de que passe o sol. De que passe qualquer coisa que me incomode. De que passe a vida.
- Não o que esperar, há?
-  Mais, não!
- Sabe o que está fazendo aqui?
- Sei.
- Tem certeza.
- Tenho. Estou esperando o enterro passar.
- Você sabe onde estamos?
- Numa praça defronte ao cemitério...
- Não.
- Mas vejo tudo tão nítido em minha mente.
- Você está no meio de uma ponte muito alta. Ela liga os lados de sua vida, o lado de lá do passado e o lado de cá do presente.
- O que há embaixo?
- Não vê? É o rio do esquecimento; nele estão todas as coisas que aconteceram na sua vida, inclusive este pai abominável que você pôde experimentar e sofrer. Mergulhar neste rio é integra-se ainda mais neste sofrimento.
- E então?
- Estamos sobre uma ponte, não é mesmo?
- Sim.
- E ela liga você as possibilidades do presente.
- E o rio?
- Deixe-o correr, a nossa vida é feita de pontes sobre o  rio do esquecimento.
- Quem é você?
- Eu estou passando... Como você, já fiquei parado no meio de uma ponte.

30 de jul de 2012

ENCONTRO COM A ANGÚSTIA


Monólogo de J. Ballee.

Hoje tive uma conversa com uma pessoa desconhecida sobre a angústia. Ela aproveitou um momento de solidão num dos bancos de um shopping da cidade. Eu estava lá absorto olhando para a vitrine de uma loja.

 Ela disparou a pergunta:

“Posso fazer uma pergunta?”

“Claro”, Respondi.

“Você sabe o que é ter angústia?” Ela indagou.

 Eu pensei comigo que  iríamos ter um daqueles papos terríveis sobre as dores da alma do mundo e todo um rosário de queixas.
“Um pouco”, eu disse encurtando a conversa e também querendo encontrar uma desculpa para levantar-me e ir embora. Eu gosto de estudar psicanálise, mas daí a ficar como cobaia de analista vai uma grande distancia. Também resolvi que não citaria nem um teórico importante, nem Freud, nem Melanie Klein, nem Winnicott, nem Bion, nem Lacan e nem muito menos a sabedoria popular.

 Fiquei calado, mas a pessoa disparou uma fala sem que eu pudesse sequer dizer qualquer coisa. Então nestes casos o melhor é brincar de estátua para que o outro se levante e vá embora, mas não funcionou.

A pessoa começou me falando que tanto fazia que alguém definisse a angustia, porque ela era uma experiência muito pessoal, que cada pessoa vive quase secretamente e que mesmo quando se esforça para que os outros se compadeçam de suas angústias; ela é completamente inacessível ao outro.

 Também disse que a angustia não é algo com a qual não se possa conviver e aproveitar o máximo.

“Alguém sem angustia está inevitavelmente morto”, concluiu.
Passamos algum tempo em silêncio. Então Ela continuou:

“Agora, existem vários tipos desta coisa e cada um escolhe qual é aquela que lhe dá sabor à vida. Todos podem aprender a controlar, a tornar as suas angustias algo aceitável socialmente.
Bati as mãos com força em minha cabeça para entender se estava acordado. Ela arrematou:

“Não adianta ficar batendo com a cabeça na parede. As angustias são feitas de um material que não sobrevive ao teste da presentificação; quando se coloca as coisas no palco e se age de acordo com as regras do jogo a angustia é somente mais uma coisa que podemos controlar; é como um estado de agonia daqueles que se tem quando a montanha russa faz a sua descida mais íngreme. Ter angústias é algo plenamente normal.”

Ela pediu que eu olhasse para as pessoas e filosofou:

“Somente quem não tem angustias é o manequim á nossa frente, a gente fica julgando o nosso mundo interior achando que todos os outros são ocos e não tem qualquer angustia. Ninguém sabe a dor do outro. Estão sorrindo, consumindo, vestindo roupas caras, mas ninguém lhes conhece o intimo. Então, o melhor é aprender a ser como se é, e negociar consigo mesmo. É claro que existem coisas que não ficam claras na nossa mente então é necessário a ajuda de profissionais  da área, mas para o feijão com arroz se pode tirar proveito desta grande faculdade da vida, ter angustias. Elas são constitucionais do existir, e pode verificar que elas estão em todos os lugares, em todos os momentos, o que acontece é que algumas pessoas se viciam em angustia e principalmente em angustiar os outros. Isto existe e é algo que merece tratamento. Você deve estar achando que eu não tenho a menor educação vindo aqui e disparando todas estas coisas para você, posso lhe chamar de voce?"

Eu assenti com a cabeça.

Ela disse:

“Então não devo mais importunar você. Eu aprendi estas coisas e agora quando vi você, senti uma vontade imensa de dizer isso. Desculpa o incomodo.”

A pessoa levantou-se e escafedeu-se. Depois desta vomitada toda de angustia, eu ainda esbocei um pensamento, mas depois tive uma reação estranha, fiquei limpo, sem angustia alguma, sem qualquer sensação de incômodo. Levantei e fui caminhando pelos corredores de lojas, olhando para ver se via a pessoa, perscrutando como um detetive, olhando meio de soslaio como um investigador. Seria interessante ver a doutora angustia por aí fazendo outras coisas. Fiquei com uma impressão interessante de que a angustia depende de uma plateia, mesmo a plateia interna, depois uma plateia externa.

A angustia não existe sozinha ela é produto de monte de coisas que rolam em nosso interior. O engraçado foi que sair em busca da angustia deixou me angustiado, mas quem se importava com isso ninguém mais teve acesso aquela experiência. O fato é que guardei a experiência comigo.  E quando uma angustia muito grande me assalta eu deixo que ela aconteça, sinto como se manifesta e então procuro viver com ela, usar a sua energia, e se for muito intensa  transfiro as minhas ações para uma agenda detalhada e executo tudo com muito cuidado e assim a angustia pode ser levada para passear. Viver com os outros é melhor do que estar só.

10 de fev de 2012

A PONTE AÉREA DO AMOR


A velha senhora abriu a porta de vidro da agencia de viagem e a atendente já foi gritando:

-Perdoe...

A velha senhora estava usando um vestido marron um pouco amassado, e também  uma sombrinha que servia de bengala;  carregava debaixo do braço um saco de pão de papel um pouco sujo. Ela na sua lentidão demorou a entender o que a atendente do balcão havia falado e  continuou caminhando em direção ao mesmo.

- “Vovó,  nós não damos esmolas aqui, a senhora procure o pessoal  que fica no ponto do ônibus que fica ao lado.”

A senhora ouviu o recado, parou, olhou para todos ao redor, baixou a cabeça e retirou-se em passos lentos, mas firmes. As meninas do atendimento ficaram rindo e comentando:

-“É isto todo santo dia,  a mendicância é um bom negócio.”

A velha senhora saiu daquela agencia e sacudiu o pó dos pés. Por coincidência, havia na mesma calçada, quase vizinha, outra agencia de viagem. A velha senhora  caminhou alguns  passos e entrou na loja. Foi entrando e logo que passou a porta, escutou uma voz:

-“Posso ajudá-la em alguma coisa?”

A velha senhora pelo tom de voz percebeu que se tratava de um convite cordial e caminhou até o balcão.  Sentou-se.

A atendente perguntou-lhe se queria uma água, ou um cafezinho, ao que ela respondeu que aceitaria um chá se tivesse.

- “Mate, boldo, laranja com especiarias ou maçã com canela?”

- “Maçã com canela.”

 - “Só um instante.”  Disse a atendente levantando-se e indo até a copa para providenciar o chá.

 Voltando colocou a xícara fumegante no balcão.

- “Açúcar ou adoçante?”

- “Adoçante.”

 - “Bem, em que posso ajudá-la?”

-  “Quero comprar algumas passagens para os meus tataranetos.”


- “Tataranetos!” Disse a atendente surpresa.

 - “Já tenho tataranetos?”

- “Eu  acho difícil ter bisnetos?”

- “É que eu comecei cedo, minha filha e parece que o costume pegou com as mulheres da família.”

 - “Vêm todos?”

- “Todos.  Os tataranetos é  a minha parte porque foi uma promessa que eu e o meu marido fizemos.”

- “Quantos são os seus tataranetos?”

-  “São 12 e mais um que não sei se poderá  vir sozinho pois terá que viajar depois das provas finais de sua escola.”

-  “Qual a idade dele?”

-  “Treze anos  anos.”

-  “Ele pode vir com autorização dos pais.”

-  “Então quero trazê-los todos.”

-  “De onde eles  vêm?”

- “ Todos de São Paulo.”

- “Bem” – disse atendente -  “vou emitir os bilhetes de ida e volta de cada um deles, e por sorte sua eles estão  com uma promoção que veio a calhar para esta ocasião,  se não for muito íntimo qual o motivo da vinda deles para cá?”

- “É uma longa estória, mas resumindo quero que todos estejam presentes a minha festa de bodas de diamante, pois não é todo dia que se pode fazer uma festa dessas.”

A velha senhora deteve-se um instante  com o olhar num vitral  que ficava no alto esquerdo e uma  réstia de luz que coloria a parede .

- “Eles vem de congonhas ou de Guarulhos?” Interrompeu a atendente.

- “Como?”

- “Eu vou colocar Guarulhos.”

A velha senhora concordou.

- “Quando eu e meu esposo éramos mais jovens a vida parecia muito difícil. E por várias vezes o nosso casamento parecia que ia se acabar, então fizemos  uma aposta :que se  ficássemos  juntos por 6o anos, se isto acontecesse e estivéssemos  vivos, traríamos  todos os nossos tataranetos para a festa. Era um motivo para apostar no futuro e vencerem as problemas momentâneos  que sempre aparecem nos relacionamentos.”

Então depois de feitas todas as contas a atendente apresentou o valor.

- “ Qual será a forma de pagamento?”

- “Em dinheiro?”

- “Como assim?”  Disse a atendente estupefata.


A velha senhora colocou o saco de pão em cima do balcão e foi  debulhando todas as notas, separando-as por valor de tal forma que pudessem ser contadas. As notas estavam um pouco amarrotadas pelos solavancos que havia recebido.

Depois de feita a contagem e verificado que havia ainda muito dinheiro para retornar ao saco a atendente perguntou:

-  “A senhora não quer que eu chame um taxi de confiança  para  a senhora, ou que venha alguém para lhe fazer companhia, os tempos estão muito perigosos.”

 - “Não se preocupe, estou bem.”

- “Então eu vou emitir os bilhetes. Posso enviá-los  por email?”

- “Como?”

A atendente percebeu que email seria algo muito estranho.

- “A senhora tem o telefone de alguém de lá para eu mandar a ordem das passagens?”

A velha senhora passou um número de telefone, que a atendente imediatamente contatou, explicando  que a tataravó  estava mandando passagens  aéreas  para todos os tataranetos  conforme prometera.  A atendente enviou o email com as ordens de passagens e confirmou pelo telefone o recebimento. Depois passou o telefone para a velha senhora que se abriu num grande sorriso.

- “Espero vocês”.  Finalizou a ligação.

- “Eu vou dar para a senhora uma cópia impressa do email e caso aconteça  algum problema a senhora me ligue que resolverei tudo.”

A velha senhora agradeceu. Colocou o saco de papel debaixo do braço com ainda muito dinheiro e dirigiu-se para a porta apoiando-se na sombrinha. Então, voltou-se,  fitou firmemente a atendente e disse:

- “ Você é uma pessoa muito especial e merece a felicidade”. E saiu da loja em direção a um carro que já a aguardava.

4 de fev de 2012

MINOTAURO EM CHAMAS



Entrevista com a vidente Madame Madam sobre questões econômicas e previsões planetárias para o ano em curso, em  Extremo dos Judas, algum lugar da América do Sul. A nossa entrevistada falou pelos cotovelos de modo que mal conseguimos ligar o gravador,  ela já desatou a falar sem pausas, quase sem respirar o que lhe causou uma parada respiratória dando também fim a este encontro. O título foi uma exigência sua pelos motivos que depois de recuperada nos explicará melhor. Assim esperamos...

Para começar  a entrevista, ligamos o gravador.. Segue-se o monólogo...
.
“Quando falamos da economia extremense nos últimos meses vemos que os programas setoriais estruturalistas estão sufocando os fluxogramas conjunturais. Não é possível  lidar com a pressão macroeconômica  destes cenários desastrosos,  e ninguém  poderá prever quais serão os desempenhos dos vários setores da produção agrícola, pecuária e industrial. Espera-se que a  liderança saiba como ativar a sua força administrativa para alavancar resultados financeiros que possam evitar um choque orçamentário indexado às insatisfações dos vários segmentos sindicais. E,  convenhamos que os  sindicatos neste contexto interespeculativo representam  um megadesequilibrio flutuante impossível de ser compactuado com os resultados esperados pelos investidores, que por ora desfrutam das coberturas das torres poluidoras conhecida como o altiplano podre, que se destacam agressivas sobre a paisagem da outrora verdejante cidadezinha.”

“Nós poderíamos sonhar que os acordos econômicos que poderiam ter sido feitos à época da conquista do poder estivessem dentro  de uma possibilidade conjuntural de respeito ao meio ambiente. Mas o nível  mercadológico da ação política nunca pode ser equacionado pela presumível  necessidade real da urbe, do estado, do país e quiçá do mundo. O grande ativo disponível e corrigido da fé dos eleitores confunde-se com o inventário plurianual, a cada quatro anos, e um saldo nominal imaturo e terrível com ares de previsões apocalípticas. Diriam os mais incautos analistas que estamos à beira de um colapso nervoso.”

“Foi construído um grande aparato lendário urbanístico com grandes figuras  olimpianas que se apresentaram como vindas de alguma galáxia distante, tal qual os mochileiros que escaparam  da terra em transe, mas as personagens cosmológicas propiciatórias não tiveram força para alavancar este inusitado construto avivatório religioso, aleluia, em torno de mortais que vestiram a casca tênue dos deuses. A invocação icônica de suas figuras sazonais passou a sofrer com o desgaste natural das intempéries sociais.  No momento presente está difícil  recuperar o saldo positivo que se seguiu aos primeiros momentos de triunfo. Antes de tudo porem saibamos que a tradição cíclica tribal elege os reis do caos para dar-lhes o poder sobre um grande momento antes de uma renovação fundamental , e talvez seja este o momento quântico que estamos assistindo. A manifestação biológica em vários níveis  das ações deslocadas de sentido, demonstram que a fantasia compensatória deu lugar a uma dependência perversa semelhante àquela que acomete os que são vitimados pela síndrome de Estocolmo.”

“Se nestes ocupantes do domínio oficial ainda houver um resto de alma, veremos que elas assumirão o  seu caráter maníaco castrativo, demonstrando que não se pode consertar a economia com surtos neuromegalomaníacos, e que os impulsos sadohistéricos apenas levaram todos a uma bancarrota coletiva. Talvez seja o momento de uma reflexão mínima e individual acerca desta aventura magnânima que vivemos na poupança de nossos sonhos. Talvez possamos ver descer pela orla da barra do horizonte ao amanhecer alguma esperança para este burgo,  que se vê invadido pela loucura do capitalismo poltergeist. Talvez  se possa retornar aos ritos primordiais de alegria que farão o papel de relembrar as antigas crenças e práticas,  pois muitas vezes os terremotos não ocorrem na terra e sim no juízo das pessoas.”

“O mantra astro-mental-alquimico será aquele que vier com as chuvas torrenciais enquanto se assiste  ao carisma dos donos da força desmanchar-se diante das caras sem qualquer medo do transito progressivo sideral das corações e mentes das pessoas livres, que entenderão o que está acontecendo e compreenderão que as palavras não têm mais o mesmo sentido que tinham antes. As mentes como planetas cintilantes em suas rotas elípticas brilharão no mapa astral da conjuntura que se avizinha e pouco adiantará chorar a acuidade das profecias Maias e o seu sucesso editorial. Não haverá choro e ranger de dentes, mas sim muita confusão, e não se poderá  como se diz a poucos iniciados, não olhar para trás fazendo de conta que não está vindo  um maremoto terrível.”

“Voltando ao nosso ponto visionário educativo, direi que o sucesso econômico dependerá  de fatores invisíveis que poderão muito bem ser avistados por uns poucos iniciados nos endereços certos. Assim se poderá  também deduzir que tudo estará bem na manhã seguinte, e que novas luas passarão a orbitar em torno dos sois disponíveis até a batalha fatal, e quando ela virá eu não sei, mas sei que como dizia Alexandre, o grande, não podem existir mais de um no mesmo céu e é disto que se trata: de poder analisar com bastante isenção e livre de qualquer controle , e com toda a clareza os fatos que estão sentados aqui diante de mim e de você enquanto estou ficando sem  ar.”

Desligamos o gravador para socorrer a pobre mulher.

22 de dez de 2011

A MENINA CARTOMANTE - (1)


***A Primeira Lição***

A velha cigana escutou a batida na porta e gritou:
- Quem é?
-Kátia, respondeu uma voz infantil lá de fora.
 A velha cigana então fez que ninguém havia batido na porta e continuou a mexer a panela de feijão. Mas a porta recebeu pancadas ainda mais fortes e a cigana gritou:
- Não tem ninguém em casa, vá se embora!
- Tem sim, que estou te escutando.
A cigana jogou a concha artesanal feita com uma vareta  traspassada numa catemba de coco e foi até a porta.
-Eu não disse que a senhora estava aqui?
A cigana fez menção de que ia fechar a porta, mas a menina retrucou rápido:
- Pago para a senhora me ensinar a ler as cartas.
 - Que estória é essa menina? Disse a cigana espantada com a assertividade da garota.
- Isso que a senhora escutou. A senhora não é cigana?
- Sou.
- Então me ensine a ler as cartas.
- E quem lhe disse que eu posso ensinar; é um segredo.
- Pode sim, que a senhora ensinou para a minha vó.
 - Não ensinei não.
- Ensinou sim, disse Kátia com uma cara de certeza.
A velha cigana pensou em bater a porta e voltar para o fogão, mas diante da cara da menina, ela previu que não seria fácil se desvencilhar da donzela, e não precisava de nenhuma bola de cristal para perceber que dali por diante a garota iria marcá-la sob pressão. Então fez a garota entrar.
- Só posso ensinar a ler as cartas a quem sabe ler e escrever.
 - Eu já sei ler e escrever.
- Você sabe o que é o destino?
- Não, mas a senhora vai me ensinar.
Entraram em direção da cozinha. A cigana continuou os seus afazeres como se esperasse que em algum momento a menina desistisse. Mas como ela não dava sinal de qualquer enfraquecimento em seus propósitos, a cigana chamou-a para a mesa da sala, pegou um baralho e disse:
- Veja isto é um baralho comum. Eu vou lhe ensinar a usá-lo. Mas você deve me prometer que não irá fazer leitura de cartas para ninguém até que tenha aprendido tudo. Entendeu?
A menina fez um gesto de assentimento com a cabeça e a cigana prosseguiu:
- Usamos do Ás até o 7 , mais o valete, a dama e o rei de cada naipe. São dez cartas de cada um, e mais um coringa. Ao todo serão quarenta e uma cartas. Cada naipe tem um assunto principal e cada carta um significado expresso por uma palavra chave, que você deve guardar na memória.
A cigana parou a explicação e foi fazer outras coisas dentro da casa.
- É somente isso? Perguntou a menina.
- Não.
- E por que não termina a lição?
- Porque falta você me pagar. Tudo na vida tem um preço. É bom que aprenda desde cedo. Não se lê as cartas de graça.
- Trouxe dinheiro para pagar.
- Quanto você tem aí?
- Todo o meu cofrinho. Já contei, tem 57 Reais.
- É muito pouco e isto já pagou a primeira lição, junte mais dinheiro e depois continuamos com a segunda lição e traga o seu baralho.
- É muito caro.
- Conhecer o destino dos outros é muito caro.
A cigana parou para contemplar a obstinação da garota.
 - Por que você quer aprender a ler as cartas?
- Eu quero ser uma cigana.
- Você pode ser uma cigana no carnaval.
- Não falo dessa cigana de carnaval, eu falo da cigana que sabe dos mistérios da vida dos outros.
- E quem lhe disse que as ciganas sabem disso?
- Minha avó me disse.
- Neste caso, não vou discutir com você. Quer um pouco de café?
- Sim, aceito.
A velha cigana pegou o bule fumegando do café recém coado e colocou na mesa. Sentaram-se. O aroma de café inundou  todo o ambiente.
- Eu li que a gente também pode ler a sorte em xícaras de café. Disse Kátia.
- A sorte se pode ler em todos os lugares.
- Tem vários tipos de sorte, não é?
- Como tem vários tipos de pessoas, mas cada qual encontra o seu próprio jeito de encarar a vida.
- Eu sei que tem sorte no amor, no trabalho e na saúde.
- Tem varias sortes dependendo de cada um.
A cigana não se deu conta de que estava conversando com a menina. Talvez a solidão a tivesse feito esquecer as diferenças e se aberto a conversar com outra pessoa;  nem se apercebeu de que estava ali com uma menina falando da vida. Kátia levantou-se e falou que quando juntasse mais dinheiro voltaria para ter a segunda lição de cartomancia.

31 de jul de 2011

Cartas das leitoras e leitores de Padma.

Fazendo um comentário geral, gostaria de dizer que esta sendo algo muito importante para mim. Nunca imaginei que textos escritos e postados num blog fossem causar algum tipo de movimentação, estava satisfeito em concluir o projeto que havia começado com uma amiga finlandesa. Estou publicando algumas das cartas que recebi e que autorizaram a publicação.  Também tive alguns encontros interessantes com algumas pessoas que preferiram comentar  as coisas pessoalmente.  Então aproveitamos ir ao cinema assistir Cilada.com, que eu recomendo. 

PADMA é um folhetim em 12 capítulos que conta o encontro entre as jovens  Padma , 17 anos, e Gertrudes, 80 anos.  O capitulo número 7 será postado esta semana.

O link para os capítulos anteriores é:


Cartas  para Padma

LEITORA 1

Caro escritor: eu devia ter escrito outras coisas que preferi  não dizer da outra vez, mas como conversamos pelo bate-papo,  você  concordou que seria interessante eu mandar uma carta anônima. Eu  vou fazer.  Mandar uma carta anônima.   Para mim tanto faz se a sua amiga intelectual lhe disse que isto não era uma coisa aceitável. Mas uma vez que você se aceitou a interferência na estória,  você deve permitir que de alguma forma eu possa ir lá e falar pessoalmente com aquelas duas mulheres, então a melhor solução será eu mandar uma carta anônima.

Resposta para a Madame Min.

Cara MIn: eu sei que você não é a bruxa da estória em quadrinhos,  o codinome surgiu por acaso, e devo admitir que foi uma surpresa o nosso diálogo pelo Facebook. Vou concordar com a tua idéia de mandar uma carta para as personagens. Mande uma carta que eu incorporo no folhetim, mas preciso que me envie a carta até o último dia do mes de junho, pois tenho que escrever o  capítulo de julho.  Prometo que vou reagir positivamente a isto, acho interessante esta possibilidade de interação, é um pouco estranha, mas venhamos que o nosso mundo de hipertextos permite a experimentação de tudo.

LEITORA 2

Caro autor, Gertrudes poderia ser mais dinâmica e ter mais vida pessoal, os capítulos estão muito filosóficos  e isto é chato.

Resposta

 Cara amiga, obrigado pelos seus comentários,  acho também que deveria desenvolver mais o lado pessoal de Gertrudes e que o texto ficou muito restrito ao dialogo das duas mulheres.

LEITORA 3

Caro amigo, parabéns,  eu até gosto deste tipo de subliteratura. Fazer o que? Não é este o nosso mundo?  Mas como você gosta destas experiências então vá em frente.  Estou curiosa para ver o que vai acontecer com elas.

Resposta

 Cara amiga, é uma experiência interessante. Eu nunca havia participado de algo assim.  É bem verdade que já joguei muito RPG , que é uma brincadeira que me fascina profundamente.  Acho que a tua colaboração me dá uma injeção de ânimo.

LEITOR FAMOSO

Caro diretor, comecei a ler o teu texto e realmente achei algo fora de propósito. Não sabia que você trilhava também por estas bandas.  Fico feliz pela sua ousadia.  Uma pena que você tenha abandonado a boemia. Li a primeira carta da leitora no Facebook. Não ligue para aquela maluca. Deve ser uma patricinha sem ter o que fazer se escondendo atrás de um pseudônimo, ou até mesmo um marmanjo que se sente proprietário das literaturas. Abraço, meu codinome será Agileu.  Não me pergunte a razão.

Resposta

OK agileu, obrigado pela participação, estas coisas são assim mesmo, mas considero que todos tem direito a pensarem da forma que quiserem, e um trabalho seja ele qual for, mesmo uma coisa como esta que é mais um passatempo meu, uma vez que está no ar e todos podem ler então também deve passar pelo crivo de toda a critica. Quanto a Madame Min, ela é uma pessoa legal, você a conhece.  Um dia desses fomos tomar um café na Cafeteria da Livraria Leitura do Manaíra Shopping,  ela fez um escândalo,  a sua personalidade literária é muito briguenta. No entendimento dela todos somos personagens, todo este nosso mundo é um universo paralelo como aquele do seriado Fringe. Obrigado pelo email. Grande abraço.

LEITORA  4

Everaldo, gostaria de dizer que o titulo é muito ruim.  O nome da personagem, também é muito sem sal. Quem sugeriu este nome deve ser uma criatura com problemas graves de referencia cultural, pois “Padma” parece nome de leite longa vida. Sugiro que o nome da personagem mais jovem seja trocado para Rebeca, que é um nome mais jovem e mais perto de nossa realidade. Para que esta mania de colocar nomes chineessses?  Beijão.

Resposta

Cara amiga, acho que o nome “Padma” se encaixa na personagem.  Agora,  depois de todos estes capítulos com este nome,  troca-lo me deixaria um tanto confuso. É  o que penso. Beijos.
***

5 de jul de 2011

O ÚLTIMO DIA DE SINHÁ ZANZA


Os últimos suspiros de Sinhá Zanza foram acompanhados por uma única lagartixa que estava muito próxima.  O clima era alegre; estava morno mesmo para um daqueles dias de inverno no qual o sol castiga como se fosse um verão pleno. Era um dia entre tantos outros, que haviam sido frios de doer na alma. Mas este havia amanhecido com uma luz forte, brilhante e calorenta. O céu estava de um azul bem clarinho com apenas algumas nuvens de algodão doce. Vocês sabem que este tipo de nuvem se espalha pelo céu de um jeito tão delicado que mais parecem terem sido feitos de açúcar.

Neste dia Sinhá Zanza acordou. Abriu os seus olhinhos delicados. Viu a maravilha daquela nova jornada de sua biografia. Levantou-se. Fez a sua higiene pessoal.  Ela tinha o hábito de esfregar muitas vezes uma mão na outra e passá-las pelo rosto, repetindo esta rotina uma dezena de vezes. Ela era muito asseada. Ela sempre fazia as suas refeições fora de casa; então, colocou uma echarpe, um óculos de proteção contra o vento e saiu rápida para a avenida.

Encontrou perto de sua casa umas guloseimas que estavam na oferta, entre doces e comidas mais condimentadas, e algumas até com certo tom de maturação que passava do ponto e exalavam um cheiro forte, mas Sinhá Zanza adorava sensações fortes. Foi um banquete matinal digno de uma princesa.
Ela era muito comunicativa e sempre freqüentava a casa de todos sem distinção, mesmo daqueles que a tratavam muito mal. Ela era uma boa alma. Gostava de estar à mesa. As crianças não faziam caso de sua presença e até não se importavam de repartirem com ela a sua comida. Os adultos, não, ficavam muito irritados. Mas Sinhá Zanza não tinha qualquer mágoa e algumas vezes até filava a bóia do gato ou do cãozinho. Eles não se importavam com ela. Depois do repasto, ela voltava ao seu ritual de limpeza esfregando as mãozinhas e novamente era expulsa daquela casa.

Algumas pessoas pensavam em tomar providências drásticas contra ela. Uma pessoa de sua classe deveria se recolher aos ambientes que lhe eram próprios e não perturbar a vida das pessoas normais.
Sinhá Zanzá pensava que se a vida já era uma coisa tão curta, algo tão pequeno, porque não iria compartilhar do alimento e do calor vital em meio a outras criaturas igualmente vivas.

Por isso fazia os seus caminhos de forma zigzagueante de tal sorte que aquilo que melhor lhe apetecesse fosse a sua parada para fazer uma boquinha. A sua filosofia se resumia a este ato magistral de comer e fazer a sua higiene pessoal. Nisto todos concordavam: ela era muito higiênica consigo mesma, apesar de não ter o pudor de compartilhar o prato de quem quer que fosse sem autorização.

Ela pensava que o alimento era a coisa mais sagrada que existia e que era o meio mais eficaz de unir duas almas. As pessoas, no entanto, consideravam nojenta esta sua forma filosófica de agir e a enxotavam sem cerimônia. Ela não reclamava;  se afastava um pouco, tentava novamente, até ser brutalmente empurrada para fora daquela casa.  As pessoas se perguntavam porque ela sempre voltava, burlava a segurança, aproveitava uma distração e entrava nos lares para compartilhar o grande mistério da vida.

Ela foi uma senhora muito vaidosa, que soube valorizar todos os seus instantes, sabia que a sua função era colocar no mundo outros seres vivos, e ela tinha feito isso de forma numerosa, deixando atrás de si uma linhagem que garantiu a sobrevivência de sua memória. Ela era  muito pouco cuidadosa com os seus filhos, mas isto não importava muito; ela pensava que cada qual deveria encontrar o seu próprio destino, que fossem à luta, a vida era algo para ser conquistado. A sua função de mãe limitou-se a lhes dar à luz, isto bastou ao seu lado materno.

Ela tinha algumas amigas com comportamentos parecidos que a compreendiam plenamente, mas eram também fechadas em seus próprios mundos. Assim quando ela morreu ninguém sentiu a sua falta. Os seus vizinhos comemoraram como se festejassem o recebimento de um grande prêmio de loteria.

No momento de sua morte estava apenas o vazio da sala. A luz vermelha do crepúsculo espalhava-se pelas paredes como um movimento frenético de pintura. Havia também uma aranha numa das quinas do teto observando os acontecimentos. Nos momentos finais, ela estava exausta de sua intensa vida, uma vida pequena para os padrões humanos. A última coisa que ela viu foi a língua gosmenta da lagartixa  faminta que a engoliu.

27 de jun de 2011

CARTA DE LEITORA E RESPOSTA


A CARTA

Querido escritor, estou te escrevendo para dar a minha contribuição ao desenrolar da estória de Padma e Gertrudes. Estou também aceitando a idéia de que você vai me permitir fazer algumas alterações na estória. Esta criatura chamada Padma é uma imbecil. Ela não tem futuro, e acho que também não deve ter passado, ela é uma descarga de caricaturas femininas relacionadas com esta literatura babaca da nova era, tipo Paulo Coelho, e esta mulherzinha apesar de sua familiaridade com Brida, que li mas me arrependi, deveria tomar jeito de gente. Todas as pessoas tem o direito de errar e ler aquelas  obras aguadas pelo menos uma vez. KKKKKKKKKKKKKKK. Não ria, eu posso, você não, rs rs rs. Assim já que você apareceu no Facebook e disse que eu poderia mandar alguma sugestão, então lá vai:

1 - Você deve mandar esta Padma voltar até o Hospital de Emergência e trauma e pegar aquele Dr. Raul e dar a sua xxt  para ele. Porque acho que esta criaturinha nunca experimentou as delícias de uma boa trpd.

2 - Ela deve levar o Dr. Raul para a casa de Gertrudes.

3 - Acho ridículo, esta estória de criar uma galinha em um apartamento, é algo completamente contra a natureza da civilização.
4 - não divulgue o meu nome em hipótese alguma, pode usar as minhas dicas, mas exijo o anonimato.

5 - Cadê a Gertrudes do primeiro capitulo? Ela era muito mais animada e descontrolada, e agora é uma velha rabugenta. Ela foi se tornando uma bruxa de desenho animado.

Me perdoe a frankkkkkeza, kkkkkkkkkkk, mas como escritor você é um péssimo blogueiro, arranje outro hobby. Estou sendo sincera com você, não precisa me agradecer por isto, vá encher a cara de cachaça que tem mais futuro.

De sua leitora por caridade, kkkkkkkkkkk,

Lembre-se de que não quero que me identifique, pode publicar, mas estou invisível.

bjsssss, rs rs rs rsrsrsrsrsrsrs

A RESPOSTA

Junho de 2011
Cara amiga invisível,

Vou chamar-te de mulher invisível, ou Min, ficará sendo o teu codinome.

Obrigado pela sinceridade, não é todo dia que alguém diz palavras tão duras com tanta propriedade. Primeiramente quero te esclarecer que não sou um escritor profissional. Este livro chamado Padma, começou como uma brincadeira de criação coletiva e tomou este rumo inusitado, como escrevi na explicação inicial as personagens foram tomando rumo e exigindo uma solução.

Em relação à tua carta, resolvi publicá-la, mas com algumas precauções, pois você usa uma linguagem muito à vontade, apesar de ser uma pessoa culta no seu perfil: com formação universitária e falante de idiomas estrangeiros.

Cortei as expressões de baixo calão. Deixando apenas as consoantes das palavras. Assim deixei o teu pensamento intacto.

Quanto ao Paulo Coelho, não o considero uma pessoa indigna de tua consideração, ele é membro da Academia Brasileira de Letras. Coisa que muita inteligência crítica sequer sonha em conseguir.

Quanto às tuas sugestões devo admitir que você tem uma mente pervertida. 

Padma não poderia jamais ir até o Hospital e oferecer-se ao Dr. Raul como uma rameira. Ela é uma criatura especial. Você ainda não conseguiu entender o propósito de Padma.

Não sei como resolver a situação de levar Dr. Raul para conhecer as amigas no apartamento, Não há um motivo plausível para isso.

É plenamente aceitável que se crie uma galinha no apartamento, ela é um símbolo da luta contra a violência no mundo de hoje.
 Lamento te informar que mesmo não sendo um escritor, adoro a tua caridade, alias, se não fosse por ela eu não estaria aqui te escrevendo, esta carta e aceitando a tua provocação e tem mais, eu não gosto desta linguagem de internet tipo  kkkkkkk, mas eu vou rir um pouco kkkkkkk, pois não vai dar para trazer a Gertrudes daquele primeiro momento de volta, ela está sofrendo modificações em sua maneira de ver o mundo;  esta é a idéia principal da vida dela.
Eu sei que aquela mulher desbocada possuía os seus encantos, mas é preciso que aos poucos ela vá revelando aspectos de sua angustia interior, você me entende?

A vida não é somente cachaça e festa, têm um momento no qual se precisa pisar os pés no chão. Este é o processo de descoberta dela. Ela já tomou muita bebida, já namorou muito, mas agora ela lamenta-se de não ter mais a juventude. Você deve ter visto o filme Piratas do Caribe 4, na qual a personagem de Jonh Deep vai em busca da fonte da juventude. Acho que se Gertrudes pudesse ela iria atrás de uma fonte como aquela.
Atenciosamente
E V

26 de jun de 2011

CAPITULO 6 - OUROBOROS



- Você tem uma filha! Disse Padma.  E tudo mais foi silêncio.

***
Antes, porém, algumas horas, dizia Gertrude: 
- Eu estava numa festa. Ele se chamava Jacinto. Estávamos embriagados, não pela bebida, pois havíamos bebido pouco,  mas ébrios da possibilidade de nos tocarmos um ao outro, na escuridão do salão de dança,  enquanto a orquestra tocava uma musica romântica, ele arrastou os seus lábios para os meus e eu fui completamente abduzida para um grande beijo.
Os fogos de artifício estouravam lá fora. Do terraço do apartamento podia-se ver as ruas com as fogueiras formando um tapete de grande energia. As festas juninas traziam consigo outras memórias. Padma e Gertrudes contemplavam aquele espetáculo primitivo que teimava  em resistir ao asfalto e aos espigões de concreto. 
- O que você fez? Provocou Padma. 
 - Preferi não fazer nada apenas deixei que as coisas fossem acontecendo, uma atrás da outra foram se sucedendo a um ponto que eu perdi a noção de como foi a noite.  Lembro-me que nos beijamos muito;  era como um doce que nunca acabava e que quanto mais comíamos,  mais queríamos;  não havia  enfaro;   sempre parecia que tudo era o primeiro bocado novamente.
- Parece com um beijo de romance. Comentou Padma.
- Foi o meu primeiro beijo.
- Estou emocionada. Suspirou Padma
 - Eu ainda lembro de seus olhos negros.As luzes do lugar pareciam todas de um tom azulado.  Eu não tenho na memória todos os dados de minha experiência, pois hoje as coisas estão misturadas com a fantasia e com a saudade.  O tempo se encarregou de fazer de tudo uma névoa, transformando os fatos em algo mais parecido com versos soltos de poemas loucos, de poesias envelhecidas; era tudo tão belo que não valeu a pena desperdiçar nem um instante memorizando os detalhes.
- A gente não vive para escrever um diário.
- Eu teria escrito  se soubesse  que aquela foi a primeira e única noite de minha vida. Eu queria muito que aquele instante ficasse ali comigo para sempre,  mas o sempre é aquela impossibilidade metafísica das criaturas mortais;  o dia seguinte apenas me revelou que éramos somente um  grão de poeira de um universo de coisas sem fim e nem começo e que continuariam girando para qualquer lado.  A solidão seria sempre uma fatal possibilidade.
Eu jurei que lutaria com todas as minhas forças para superar esta falha deste cosmo insolúvel com estas criaturas que se julgam tão especiais, mas são apenas pó.
- A raça humana é muito especial. Falou Padma.
 - Sim, de algum modo especial, porque podemos brincar de eternidade enquanto vivemos.
- E tudo isto por causa de um beijo?
- Apenas recordar aquele beijo, trazê-lo à minha memória, faz-me reinventar a minha vida.   Naquela noite  eu pude ver o sol nascer nos braços daquela criatura.Adormeci e nunca mais o vi. Tenho a sensação de que foi como se tivesse conhecido um anjo, ou bebido demais e  conhecido no delírio extremo da intoxicação alcoólica aquele ser. A minha boca ficou muito dolorida...
- Com certeza não foi um anjo!
-  Acordei,  olhei para todos os lados.  Estava sozinha.  Quando me dirigi para o carro onde estavam as minhas amigas,  notei que elas não me olhavam de um jeito especial, eu era somente mais uma, e não aparentava exalar nenhuma aura característica de quem havia vivido um mmento sublime de amor.   Durante o café da manhã eu pensava que tudo era de uma ficção fantasmagórica, pois tudo de melhor havia me acontecido e ninguém havia notado a menor diferença.
- Todos os seres estão interligados uns aos outros no universo...
- Não, você está enganada. O universo é indiferente com as nossas pequenas descobertas.  Então o que importa se alguém vive ou morre?  Ninguém vai se preocupar  mesmo! Desde que você não altere,  para o bem ou para o mal, a vida de alguém  você não existirá para ela...
- Você é muito pessimista... Interrompeu Padma.
 - Então, a partir daquele dia,  decidi que todas as minhas agonias e medos eram  invenções de minha cabeça, e dali por diante nunca mais haveria de me preocupar, aliás, iria viver como uma pessoa invisível, e viveria feliz, coisa que tenho feito muito bem até hoje não fosse a demonstração clara e cabal de que  universo se move sempre e a minha alma apesar de manter o mesmo frescor, habita a matéria em movimento deste mundo.
-  Você poderia mover-me como ele.  É a tua ilusão de realidade que cria a finitude... Tentou explicar Padma.
-  É muita teoria para quem queria  apenas ser feliz. Descobri que estava sozinha  sempre sozinha  e que não adiantaria fingir que alguém seria o meu  cúmplice.  Então decidi ser feliz e caminhar em direção ao meu propósito, ser feliz,  simples como simplesmente aceitar quem eu sou não permitindo que alguém perturbasse o curso de minha vida. É assim que cheguei até este momento em que contemplo a tudo de uma posição privilegiada aos 80 anos,  porque não me arrependo de nada. Vivi bem.  Vivo bem. Cometi os meus erros comigo mesma e do ponto de vista geral sou como uma vaga de espuma que faz desenhos na beira do mar,  mas logo em seguida é substituída por outra.
- E se você tivesse a chance de viver tudo novamente?
- Há uma coisa... Algo que fiz e se pudesse reviver aquele momento de ouro...
- O beijo?
- Não, os olhos de minha filha, recém-nascida que vi uma única vez...

***

- Você tem uma filha! Disse Padma.  E tudo mais foi silêncio.



13 de jun de 2011

MENSAGEM NA GARRAFA

Esta é uma mensagem dentro de uma garrafa digital, que estava boiando numa nuvem digital.

Caro amigo, amiga,

Havia recebido uma rosa virtual quando abrira o facebook logo na chegada ao trabalho. Ela estava lá pairando sobre os avisos dizendo que alguém a tinha enviado para mim.

Uma rosa vermelha, como um certo batom que conhecera certo dia. Senti como se uma chuva de pétalas rubras caíssem sobre mim. Pude sentir o aroma delicado das pétalas e ouvir o toque de sua textura tocando os meus ouvidos. Uma rosa proibida como aquela que habitava o jardim de uma fera que fora encantada por uma bruxa malvada. Por alguns instantes deixei-me viver em meus devaneios a posse daquela flor, de modo que a minha melancolia fosse abrandada por alguns instantes.

Por coincidência, eu vinha como aquele principe estrangeiro, caminhando a esmo pelas estradas virtuais, tateando os jardins do mundo, em busca de uma flor a quem pudesse confessar a minha solidão.

Imaginei então que poderia fazer valer os encantos mágicos que tinha aprendido com os livros de Harry Potter, que talvez pudesse ir até à estação ferroviária do varadouro e atravessar de trem para o reino de Sâo Saruê, numa combinação de magia inglesa e cultura nordestina. São Saruê, terra mítica criada pelo poeta Manuel Camilo dos Santos, era  o lugar onde todos os sonhos se realizavam.

Adormeci. O cansaço me consumia os olhos. O que vou relatar agora, não posso atribuir unicamente, a um estado onírico. Quando acordei estava coberto de pétalas de rosas e a minha sala exalava um perfume intenso que tomou conta de todo o prédio e espalhou-se pelas ruas vizinhas.

A minha primeira reação foi de que aquilo tratava-se de uma brincadeira de meus colegas de repartição, mas pela reação deles verificara que alguma outra coisa estaria ocorrendo além da possibilidade de um telegrama animado pela trupe de palhaços Agitada Gang.

Ocorreu-me também que poderia estar acordando dentro de um sonho, como às vezes acontece com algumas pessoas. Levantei-me bruscamente e derrubei o copo de café que havia esfriado sobre a minha mesa de trabalho. Não, não era um segundo sonho.

Da janela do sétimo andar, os meus colegas se comprimiam para olhar algo que estava ocorrendo lá embaixo. Busquei um lugar em uma das janelas e vimos todos uma imensa multidão aproximando-se do prédio. Um frio percorreu-me a espinha, que lugar era aquele tão igual ao meu mundo?

Lembrei da realidade paralela daquele seriado americano Fringe, e de tantos outros lugares que a ficção científica tornou tão plausíveis. Que realidade era aquela que mais parecia  outra camada onírica? Mais um véu de todos  que guardavam o caminho do céu?

As pessoas lá embaixo formaram circulos concentricos ao redor do prédio. E começaram a cantar as canções que eu mais gostava. Ora, venhamos de volta à razão, no mundo real não existiam aquelas cenas. O absurdo se instalou quando percebi que os meus colegas embriagados pelo entusiasmo provocado pela música saiam voando pelas janelas feitos bem-te-vis. Era mais uma camada de sonho.

Voltei para a minha mesa e contemplei a tela de meu computador. Para minha surpresa lá estava a reprodução nítida de meu ambiente de trabalho. Os colegas ainda estavam lá em sua movimentação. A tela mostrava o ponto de vista da imagem de alguém que estivesse dentro do computador.

Vi quando passou a gostosa secretaria de meu chefe, olhou para mim, deu um sorriso e se foi. Depois Java, que era o meu calo, todos temos um amigo falso no trabalho, veio até a minha sala; ele sempre fazia isso na minha ausência. Ele parou diante da tela e ficou olhando para mim. Eu falei, ele respondeu. Mantivemos uma longa conversa como se estívessemos usando o Skipe. Então ele me perguntou onde eu estava.

Ali percebi que algo estranho havia ocorrido. Eu estava dentro do computador.

Fiz algumas incursões neste novo lugar. Recomendo a você que está vendo agora esta mensagem que leia o folheto de cordel sobre São Saruê. Ele contém uma parcela das coisas que vi por aqui, mas há muito mais, que não couberam nas sextilhas do poeta. Ainda não encontrei a remetente da flor que causou toda esta aventura.

Ainda estou tentando reelaborar a idéia de que isso poderia ser uma outra camada de sonho. Ainda permaneço aqui, mas tal qual Alice através dos espelhos espero que um dia possa retornar ao mundo real.

Por mais que se desejem os amores perfeitos, numa situação como essa é que percebi que são as imperfeições dos amantes que fazem do amor algo eterno.

Sinceramente

A

12 de jun de 2011

PRIMEIRO CAPÍTULO DE COISA NENHUMA


Ou então começo algum para ficar no mesmo canto esperando que o último ônibus passasse.

Foi há algum tempo atrás. Estava numa parada de ônibus....

 Abrí meu laptop; a luz da tela de LCD iluminou o meu rosto.

"Vou ser assaltado", foi o pensamento que passou em minha cabeça.

Mas prosseguí. Abrí o processador de texto e digitei: "PRIMEIRO CAPÍTULO". Então parei um instante imaginando sobre o que deveria ser aquela coisa cujo primeiro capítulo acabava de se anunciar. Levei um tempo parado, as mãos sobre as teclas.

- "Puxa vida! Sobre que mesmo devo escrever?", pensei.

Mas os dedos continuaram ali sem mover-se. Então vi que surgiu do nada, do outro lado da rua uma figura. 

Na semi-escuridão que dominava o lugar, apenas via o seu vulto.

"Se for o assalto, entrego o meu laptop". Completei em minha mente.

Aquela criatura ficou do outro lado me olhando e eu paralisado, não sabia agora se era por causa da falta de assunto, ou do medo de qualquer coisa inesperada ao estilo dos filmes de terror de Hong Kong.

Digitei uma seqüencia de frases, umas dez ou vinte, ou trinta, não sei ao certo, um número x. Levantei o rosto e a vista acostumando-se a pouca luz delineou a presença de uma mulher sensual, tipo  prostituta de piada.

 Então pela minha mente passaram-se todas as lendas urbanas inclusive aquela da loura fantasma que vampiriza os incautos nas noites frias. Baixei a vista e digitei mais uma linha, numa lentidão de doer, machucando cada tecla, uma a uma, num ritmo riticoquiano (acho que posso escrever esta palavra, ninguém vai ler texto mesmo). 

Reli o texto e não gostei, que coisa aguada, sem graça, estava sem jeito de agüentar a mim mesmo. Então num ato suicida apertei a tecla back space e o cursor correu em direção ao inicio. Ficou o cursor piscando no vazio, como dando os últimos respiros. Contemplei aquele desesperado pedido de existência e fiquei imaginando a condição humana. Eu o criador me recusando a dar vida à criatura. 

Senti, então, um calor próximo ao meu corpo. Levantei um pouco a vista e vi aquele belo par de coxas brancas. Fiquei gelado.

"Morri". Foi o meu pensamento enquanto esperei o golpe fatal.

Fui levantando a vista. Uma mini-saia negra e brilhante. um cinturão de couro com aplicações de metal. A barriga nua e preso ao umbigo um peircing dourado com uma pedra preciosa que mais parecia um diamante. Um sutiã curto sobre os seios fartos. Um trancelim em volta do pescoço. Um queixo de porcelana. Uma boca que parecia uma nave perfeita para o paraíso. Batom de cor vermelha, um matiz intenso nos lábios molhados. Um nariz de desenho simétrico com outro piercing brilhante no lado esquerdo. Os olhos azuis.

-"Que coisa mais linda". Pensei.

Ela ficou parada diante de mim, colada aos meus joelhos. Nenhuma palavra. Eu ia dizer o que numa situação destas, não tive nem a iniciativa de dizer que ela podia levar o que quisesse, o computador, o celular, a carteira, as minhas roupas e até eu mesmo caso ela me achasse de alguma valia.

Como ela não dizia nada, eu já encabulado baixei a cabeça. E olhei para o teclado e para o cursor piscando agonizante.

-Por que você apagou. Ela falou com uma voz suave.

Na minha mente confirmaram-se as minhas suspeitas sobrenaturais. Aquela coisinha linda deveria ser o espírito protetor dos textos assassinados prematuramente.

-"Mas, eu sou o autor, posso fazer o que quiser". Pensei em justificar, mas diante do mistério e sabe lá o que esta coisa poderia se transformar. Já tinha visto muitos filmes de terror com situações parecidas. então não custava nada ficar imóvel.

Para completar o cenário, a luz do único poste que havia apagou-se. Não foi um simples apagamento, mas uma coreografia de despedida. Primeiro deu três piscadas, ficou ainda mais intensa, piscou mais três vezes, mas desta vez um pouco irregular como se lamentasse a sua partida e por fim, ficou com uma intensidade muito grande e foi apagando como se gargalhasse em pequenas piscadas até a escuridão total. Ainda deu uma última piscada e depois disso éramos eu e a mulher,  iluminados apenas pela luz da tela de LCD.

Eu tinha comigo de que numa situação dessas eu iria abrir o berreiro, mas não, eu fiquei calmo, parecia até que eu estava com aquela bela mulher na cobertura de um edificio com amigos tomando um suco de laranja. E ao fundo a paisagem de uma pradaria verdejante de um dia de verão.

"Só faltava chover". Disse-me a mim mesmo.

Um raio cortou o céu. O trovão foi tão forte que fez vibrar os meus dentes. Para um filme de terror até que aquela situação ia bem, mas para alguém que estava somente esperando um ônibus...

- Você não fala? Ela perguntou-me.

Eu levantei a vista com certo cuidado.

-"É agora que esta coisa vai botar os chifres para fora".Pensava.

- Eu não vou te fazer mal.

- "Ainda não".

Olho no olho. Numa outra ocasião poderia até ser uma cena romântica. Então ela sentou-se ao meu lado. A luz de outro raio nos iluminou fortemente. Outro estrondoso trovão. Ela fitou o cursor piscando. Ficamos assim congelados por algum tempo. Se eu escrevesse aqui que foi uma eternidade, seria o lugar comum destas estórias, mas admito que neste caso, quando a gente está diretamente envolvida, com o corpo a perigo, a mente em pavorosa, é exatamente este o tempo de cada milésimo de segundo: uma eternidade.

- O que você estava escrevendo?

-"Algo, que nem sei". Foi o meu pensamento.

- Escreve algo. Ela pediu com uma voz mansa próximo ao meu ouvido.

Quase que eu caía na sua lábia. Um pedido destes ao pé da orelha com aquele hálito quente; quantas guerras não haviam começado com um pedido daqueles. Outra coisa que me passou pela cabeça foi que aquela coisinha deveria ser uma vampira arrumando um jeito gracioso de aproximar-se de minha jugular. Então cliquei uma letra qualquer. Saiu um Z.

-Z, para que serve um Z?

- "Vá zimbora daqui", brinquei em pensamento.

- Um z, lembra um besouro, não é, zzzzzzzzzzzzzzzzzz, voando e fazendo círculos no ar e pousando bem no meio de seu ninho. Ela falou, imitando o besouro com a mão direita, fazendo piruetas e finalizando com a mão sobre a minha cabeça.

-"Seja rápida". Foi o meu pedido interior.

Ela espanou os meus cabelos que se desalinharam sobre o meu rosto. Tinha os cabelos longos, mas desde aquela data os mantenho-os cortados no modelo mais tradicional possível.

-"Se eu desejar que ela dance uma coreografia de pole dance...". Nem terminei o meu pensamento.

-Vire a sua luz para mim, vou precisar dela, vou dançar para você.

Ela dançou; parecia voar fazendo manobras no cano do poste de iluminação como uma águia voando em busca de sua caça.

Estava com medo de desejar alguma coisa. Até agora dois pensamentos e dois acontecimentos. Era uma estatística de 100% de acerto.

- Me acompanhe com a luz enquanto eu me movimento. Ela ordenou.

Levantei-me com a tela do laptop virada na direção dela e fui acompanhando aquele corpo sensualíssimo fazendo acrobacias na haste do poste. Aqui e acolá relâmpagos e trovões. Eu já estava conformado com a cena.

Ela subiu até o ponto mais alto, hoje na memória tenho algo difuso como se ela tivesse ido até às nuvens e descido de cabeça até a minha altura. Deu um giro, ficou de pé rente ao meu corpo. Dava para senti-la, a palpitação de seu coração, o cheiro de seu suor.

- Gostou?

Eu imóvel. Ela excitada. Eu fazendo a conta de meus últimos instantes sobre a terra e ela a fim de me comer(no sentido literal de alimentar-se).

-"vou dizer o que?". Perguntei-me em pensamento.

- Diga qualquer coisa.

Eu ia abrindo os lábios quando ela avistou os faròis do ônibus que se aproximava. Olhou-me com certa fúria e correu em direção a um matagal próximo.

O farol do veículo de passageiros aproximou-se como uma carruagem de fogo iluminando-me no meio daquele negrume. Subi a bordo. Haviam outros, cada qual com a sua estória daquele dia de inverno. Olhei pela janela procurando ver aquela mulher.

- Viu alguma coisa? Perguntou-me o motorista

- Não. Respondi.

- Teve sorte.

O ônibus caminhou por aquelas ruas escuras, vencendo a chuva que se tornara muito mais forte.

Vez ou outra a imagem daquela mulher voltava para a minha mente. Assustava-me com a possibilidade de ela estar me espreitando atrás de alguma porta. Desenvolvi uma certa paranoia.

Voltei algumas vezes ao local durante o dia procurando encontrar explicações para o ocorrido.

Então veio-me a mente a idéia de escrever esta estória e fechar o ciclo daquela experiencia. Certas coisas precisam encontrar um final adequado, como um namoro que acaba num meio de uma chuva intensa. Aquela presença iria gostar deste texto e eu poderia inverter a polaridade e perguntar-lhe:

-Gostou? 

14 de mai de 2011

CAPÍTULO 5 - O CALDEIRÃO DA BRUXA


O vapor preenchia a cozinha como uma nuvem. Todas as janelas estavam trancadas e uma cortina improvisada com um lençol transformava o lugar numa sauna. Gertrudes  de pé diante de um imenso caldeirão cantava uma canção, meio parecida com alguma língua mágica estranha. Dentro do caldeirão uma única batata inglesa boiando naquele redemoinho fervente. Os olhos dela estavam inchados pelo vapor intenso e também pelas lágrimas que fluíam com regularidade.

Padma que vinha chegando em casa notou que o ambiente estava tomado de uma atmosfera tenebrosa. A principio tentou encontrar Gertrudes procurando-a com o olhar.

- Gertrudes! Padma chamou.

Mas nenhuma voz se ouviu, a não ser aquela canção em forma de grunhidos melódicos como se fosse a linguagem de um ser de outras dimensões de estórias das fadas.

Padma então se aproximou da cozinha. Dava para notar o vapor que se alastrava vindo de lá.

- Gertrudes, você está bem?

Mas nenhuma palavra se ouviu. Então Padma se aproximou e afastando um pouco a cortina improvisada viu 

Gertrudes á beira do fogão mexendo o caldeirão e entoando aquele canto sem sentido.

- Você está cozinhando uma de suas receitas secretas?

Mas Gertrudes continuou absorta na sua tarefa como se somente ela existisse no universo.

Padma aproximou-se lentamente de Gertrudes e viu a sua tristeza e compreendeu o que se passava. Então se colocou ao lado dela e pegando outra batata inglesa jogou-a no caldeirão e ficou também entoando o seu canto.

-Padma, porque você interrompeu a minha tristeza? Perguntou Gertrudes.

- Não interrompi, apenas me juntei a ela. Duas mulheres choram melhor quando estão acompanhadas. Foi a resposta.

Gertrudes aceitou a justificativa, não porque concordasse, mas porque já não podia fazer mais nada e a outra batata agora rodopiava também dentro do caldeirão.

-Hoje, fui tomada de uma tristeza tão grande, que a única coisa que me fez passar foi vir chorar à borda deste caldeirão, justificou Gertrudes.

-Esta é a sua herança de bruxa. Disse padma.

- Como nas lendas medievais.

- Um pouco delas também, mas principalmente o seu conhecimento intuitivo dos segredos do universo.

Gertrudes esboçou um pequeno sorriso e fizeram silêncio por um longo tempo.

- Um Caldeirão é como se fosse o universo, um planeta, a vida de uma pessoa. Falou Padma.

-De onde você tira estas suas idéias?

- Da intuição!

- E dos livros, já compreendi que você é uma das mestras iniciadas através dos livros da nova era. Você é mais uma das bruxas hi-tech.

- Há coisas que os livros não podem te ensinar...

- A receita da eterna juventude? Provocou Gertrudes.

- Esta receita já está escrita em alguns livros.

- Qual?

- Você não me leva mesmo à sério, não é?

- Padma, eu sou como esta batata que já está se desmanchando e você é esta outra que ainda está aí dentro durinha esperando para ser cozinhada. Quando eu te pergunto sobre estas coisas, e brinco com as suas filosofias, é porque eu já estou me misturando de volta ao caldo universal.

- Uma batata não é somente uma batata, como este caldeirão é muito mais que um recipiente de alumínio, então faça disto uma nova possibilidade acrescentando mais algumas cores a este turbilhão, umas cenouras, por exemplo,

- Cenouras?

-Sim, primeiramente. Que significado você dá a elas?

-Bem, pelo formato e pela saudade, acho que elas deverão simbolizar os meus maridos, namorados e amantes...

-Que seja.

E assim elas começaram a colocar cenouras na panela enquanto Gertrudes recitava o nome de todos os homens de sua vida.

-Vamos colocar também umas cebolas, para simbolizar todas as minhas lágrimas. Disse Gertrudes.

- E um pouco de Salsa para simbolizar a esperança.

- E chuchu em homenagem aos dias de monotonia.

- E tomates para os nossos sonhos.

- E um pouco de sal para temperar o sabor.

Gertrudes entreteve-se com o brinquedo sugerido por Padma. Foram equilibrando os ingredientes e ao final haviam cozinhado uma esplendida sopa. O ar da casa foi tomado por aquele cheiro que fazia o ambiente parecer cheio de pessoas bonitas e alegres. Então Gertrudes rompeu com o seu rito de tristeza e abriu todas as janelas. Arrumou a mesa, pôs os pratos e disse:

-Minha amiga, vamos tomar esta sopa e celebrar a vida.

Gertrudes retirou de um velho baú uma antiga sopeira que havia pertencido aos seus avós e pratos de porcelana inglesa que haviam sido comprados de um mascate com sua tropa de burros quando os seus parentes ainda viviam nas brenhas dos sertões.E talheres de prata finíssima.

Mesa posta. Sentaram-se uma em cada ponta. O vapor da sopa subia com o seu odor mágico e inebriante.

- Viva a vida! Disse Padma.

- Viva.

E enfiaram as colheres na sopeira e brindaram com as mesmas cheias de alegria.