10 de fev de 2012

A PONTE AÉREA DO AMOR


A velha senhora abriu a porta de vidro da agencia de viagem e a atendente já foi gritando:

-Perdoe...

A velha senhora estava usando um vestido marron um pouco amassado, e também  uma sombrinha que servia de bengala;  carregava debaixo do braço um saco de pão de papel um pouco sujo. Ela na sua lentidão demorou a entender o que a atendente do balcão havia falado e  continuou caminhando em direção ao mesmo.

- “Vovó,  nós não damos esmolas aqui, a senhora procure o pessoal  que fica no ponto do ônibus que fica ao lado.”

A senhora ouviu o recado, parou, olhou para todos ao redor, baixou a cabeça e retirou-se em passos lentos, mas firmes. As meninas do atendimento ficaram rindo e comentando:

-“É isto todo santo dia,  a mendicância é um bom negócio.”

A velha senhora saiu daquela agencia e sacudiu o pó dos pés. Por coincidência, havia na mesma calçada, quase vizinha, outra agencia de viagem. A velha senhora  caminhou alguns  passos e entrou na loja. Foi entrando e logo que passou a porta, escutou uma voz:

-“Posso ajudá-la em alguma coisa?”

A velha senhora pelo tom de voz percebeu que se tratava de um convite cordial e caminhou até o balcão.  Sentou-se.

A atendente perguntou-lhe se queria uma água, ou um cafezinho, ao que ela respondeu que aceitaria um chá se tivesse.

- “Mate, boldo, laranja com especiarias ou maçã com canela?”

- “Maçã com canela.”

 - “Só um instante.”  Disse a atendente levantando-se e indo até a copa para providenciar o chá.

 Voltando colocou a xícara fumegante no balcão.

- “Açúcar ou adoçante?”

- “Adoçante.”

 - “Bem, em que posso ajudá-la?”

-  “Quero comprar algumas passagens para os meus tataranetos.”


- “Tataranetos!” Disse a atendente surpresa.

 - “Já tenho tataranetos?”

- “Eu  acho difícil ter bisnetos?”

- “É que eu comecei cedo, minha filha e parece que o costume pegou com as mulheres da família.”

 - “Vêm todos?”

- “Todos.  Os tataranetos é  a minha parte porque foi uma promessa que eu e o meu marido fizemos.”

- “Quantos são os seus tataranetos?”

-  “São 12 e mais um que não sei se poderá  vir sozinho pois terá que viajar depois das provas finais de sua escola.”

-  “Qual a idade dele?”

-  “Treze anos  anos.”

-  “Ele pode vir com autorização dos pais.”

-  “Então quero trazê-los todos.”

-  “De onde eles  vêm?”

- “ Todos de São Paulo.”

- “Bem” – disse atendente -  “vou emitir os bilhetes de ida e volta de cada um deles, e por sorte sua eles estão  com uma promoção que veio a calhar para esta ocasião,  se não for muito íntimo qual o motivo da vinda deles para cá?”

- “É uma longa estória, mas resumindo quero que todos estejam presentes a minha festa de bodas de diamante, pois não é todo dia que se pode fazer uma festa dessas.”

A velha senhora deteve-se um instante  com o olhar num vitral  que ficava no alto esquerdo e uma  réstia de luz que coloria a parede .

- “Eles vem de congonhas ou de Guarulhos?” Interrompeu a atendente.

- “Como?”

- “Eu vou colocar Guarulhos.”

A velha senhora concordou.

- “Quando eu e meu esposo éramos mais jovens a vida parecia muito difícil. E por várias vezes o nosso casamento parecia que ia se acabar, então fizemos  uma aposta :que se  ficássemos  juntos por 6o anos, se isto acontecesse e estivéssemos  vivos, traríamos  todos os nossos tataranetos para a festa. Era um motivo para apostar no futuro e vencerem as problemas momentâneos  que sempre aparecem nos relacionamentos.”

Então depois de feitas todas as contas a atendente apresentou o valor.

- “ Qual será a forma de pagamento?”

- “Em dinheiro?”

- “Como assim?”  Disse a atendente estupefata.


A velha senhora colocou o saco de pão em cima do balcão e foi  debulhando todas as notas, separando-as por valor de tal forma que pudessem ser contadas. As notas estavam um pouco amarrotadas pelos solavancos que havia recebido.

Depois de feita a contagem e verificado que havia ainda muito dinheiro para retornar ao saco a atendente perguntou:

-  “A senhora não quer que eu chame um taxi de confiança  para  a senhora, ou que venha alguém para lhe fazer companhia, os tempos estão muito perigosos.”

 - “Não se preocupe, estou bem.”

- “Então eu vou emitir os bilhetes. Posso enviá-los  por email?”

- “Como?”

A atendente percebeu que email seria algo muito estranho.

- “A senhora tem o telefone de alguém de lá para eu mandar a ordem das passagens?”

A velha senhora passou um número de telefone, que a atendente imediatamente contatou, explicando  que a tataravó  estava mandando passagens  aéreas  para todos os tataranetos  conforme prometera.  A atendente enviou o email com as ordens de passagens e confirmou pelo telefone o recebimento. Depois passou o telefone para a velha senhora que se abriu num grande sorriso.

- “Espero vocês”.  Finalizou a ligação.

- “Eu vou dar para a senhora uma cópia impressa do email e caso aconteça  algum problema a senhora me ligue que resolverei tudo.”

A velha senhora agradeceu. Colocou o saco de papel debaixo do braço com ainda muito dinheiro e dirigiu-se para a porta apoiando-se na sombrinha. Então, voltou-se,  fitou firmemente a atendente e disse:

- “ Você é uma pessoa muito especial e merece a felicidade”. E saiu da loja em direção a um carro que já a aguardava.

Um comentário:

Tainá M. disse...

A realidade é uma fonte de inspiração. Felicidade para quem for como essa atendente.