22 de dez de 2011

A MENINA CARTOMANTE - (1)


***A Primeira Lição***

A velha cigana escutou a batida na porta e gritou:
- Quem é?
-Kátia, respondeu uma voz infantil lá de fora.
 A velha cigana então fez que ninguém havia batido na porta e continuou a mexer a panela de feijão. Mas a porta recebeu pancadas ainda mais fortes e a cigana gritou:
- Não tem ninguém em casa, vá se embora!
- Tem sim, que estou te escutando.
A cigana jogou a concha artesanal feita com uma vareta  traspassada numa catemba de coco e foi até a porta.
-Eu não disse que a senhora estava aqui?
A cigana fez menção de que ia fechar a porta, mas a menina retrucou rápido:
- Pago para a senhora me ensinar a ler as cartas.
 - Que estória é essa menina? Disse a cigana espantada com a assertividade da garota.
- Isso que a senhora escutou. A senhora não é cigana?
- Sou.
- Então me ensine a ler as cartas.
- E quem lhe disse que eu posso ensinar; é um segredo.
- Pode sim, que a senhora ensinou para a minha vó.
 - Não ensinei não.
- Ensinou sim, disse Kátia com uma cara de certeza.
A velha cigana pensou em bater a porta e voltar para o fogão, mas diante da cara da menina, ela previu que não seria fácil se desvencilhar da donzela, e não precisava de nenhuma bola de cristal para perceber que dali por diante a garota iria marcá-la sob pressão. Então fez a garota entrar.
- Só posso ensinar a ler as cartas a quem sabe ler e escrever.
 - Eu já sei ler e escrever.
- Você sabe o que é o destino?
- Não, mas a senhora vai me ensinar.
Entraram em direção da cozinha. A cigana continuou os seus afazeres como se esperasse que em algum momento a menina desistisse. Mas como ela não dava sinal de qualquer enfraquecimento em seus propósitos, a cigana chamou-a para a mesa da sala, pegou um baralho e disse:
- Veja isto é um baralho comum. Eu vou lhe ensinar a usá-lo. Mas você deve me prometer que não irá fazer leitura de cartas para ninguém até que tenha aprendido tudo. Entendeu?
A menina fez um gesto de assentimento com a cabeça e a cigana prosseguiu:
- Usamos do Ás até o 7 , mais o valete, a dama e o rei de cada naipe. São dez cartas de cada um, e mais um coringa. Ao todo serão quarenta e uma cartas. Cada naipe tem um assunto principal e cada carta um significado expresso por uma palavra chave, que você deve guardar na memória.
A cigana parou a explicação e foi fazer outras coisas dentro da casa.
- É somente isso? Perguntou a menina.
- Não.
- E por que não termina a lição?
- Porque falta você me pagar. Tudo na vida tem um preço. É bom que aprenda desde cedo. Não se lê as cartas de graça.
- Trouxe dinheiro para pagar.
- Quanto você tem aí?
- Todo o meu cofrinho. Já contei, tem 57 Reais.
- É muito pouco e isto já pagou a primeira lição, junte mais dinheiro e depois continuamos com a segunda lição e traga o seu baralho.
- É muito caro.
- Conhecer o destino dos outros é muito caro.
A cigana parou para contemplar a obstinação da garota.
 - Por que você quer aprender a ler as cartas?
- Eu quero ser uma cigana.
- Você pode ser uma cigana no carnaval.
- Não falo dessa cigana de carnaval, eu falo da cigana que sabe dos mistérios da vida dos outros.
- E quem lhe disse que as ciganas sabem disso?
- Minha avó me disse.
- Neste caso, não vou discutir com você. Quer um pouco de café?
- Sim, aceito.
A velha cigana pegou o bule fumegando do café recém coado e colocou na mesa. Sentaram-se. O aroma de café inundou  todo o ambiente.
- Eu li que a gente também pode ler a sorte em xícaras de café. Disse Kátia.
- A sorte se pode ler em todos os lugares.
- Tem vários tipos de sorte, não é?
- Como tem vários tipos de pessoas, mas cada qual encontra o seu próprio jeito de encarar a vida.
- Eu sei que tem sorte no amor, no trabalho e na saúde.
- Tem varias sortes dependendo de cada um.
A cigana não se deu conta de que estava conversando com a menina. Talvez a solidão a tivesse feito esquecer as diferenças e se aberto a conversar com outra pessoa;  nem se apercebeu de que estava ali com uma menina falando da vida. Kátia levantou-se e falou que quando juntasse mais dinheiro voltaria para ter a segunda lição de cartomancia.

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