26 de jun de 2011

CAPITULO 6 - OUROBOROS



- Você tem uma filha! Disse Padma.  E tudo mais foi silêncio.

***
Antes, porém, algumas horas, dizia Gertrude: 
- Eu estava numa festa. Ele se chamava Jacinto. Estávamos embriagados, não pela bebida, pois havíamos bebido pouco,  mas ébrios da possibilidade de nos tocarmos um ao outro, na escuridão do salão de dança,  enquanto a orquestra tocava uma musica romântica, ele arrastou os seus lábios para os meus e eu fui completamente abduzida para um grande beijo.
Os fogos de artifício estouravam lá fora. Do terraço do apartamento podia-se ver as ruas com as fogueiras formando um tapete de grande energia. As festas juninas traziam consigo outras memórias. Padma e Gertrudes contemplavam aquele espetáculo primitivo que teimava  em resistir ao asfalto e aos espigões de concreto. 
- O que você fez? Provocou Padma. 
 - Preferi não fazer nada apenas deixei que as coisas fossem acontecendo, uma atrás da outra foram se sucedendo a um ponto que eu perdi a noção de como foi a noite.  Lembro-me que nos beijamos muito;  era como um doce que nunca acabava e que quanto mais comíamos,  mais queríamos;  não havia  enfaro;   sempre parecia que tudo era o primeiro bocado novamente.
- Parece com um beijo de romance. Comentou Padma.
- Foi o meu primeiro beijo.
- Estou emocionada. Suspirou Padma
 - Eu ainda lembro de seus olhos negros.As luzes do lugar pareciam todas de um tom azulado.  Eu não tenho na memória todos os dados de minha experiência, pois hoje as coisas estão misturadas com a fantasia e com a saudade.  O tempo se encarregou de fazer de tudo uma névoa, transformando os fatos em algo mais parecido com versos soltos de poemas loucos, de poesias envelhecidas; era tudo tão belo que não valeu a pena desperdiçar nem um instante memorizando os detalhes.
- A gente não vive para escrever um diário.
- Eu teria escrito  se soubesse  que aquela foi a primeira e única noite de minha vida. Eu queria muito que aquele instante ficasse ali comigo para sempre,  mas o sempre é aquela impossibilidade metafísica das criaturas mortais;  o dia seguinte apenas me revelou que éramos somente um  grão de poeira de um universo de coisas sem fim e nem começo e que continuariam girando para qualquer lado.  A solidão seria sempre uma fatal possibilidade.
Eu jurei que lutaria com todas as minhas forças para superar esta falha deste cosmo insolúvel com estas criaturas que se julgam tão especiais, mas são apenas pó.
- A raça humana é muito especial. Falou Padma.
 - Sim, de algum modo especial, porque podemos brincar de eternidade enquanto vivemos.
- E tudo isto por causa de um beijo?
- Apenas recordar aquele beijo, trazê-lo à minha memória, faz-me reinventar a minha vida.   Naquela noite  eu pude ver o sol nascer nos braços daquela criatura.Adormeci e nunca mais o vi. Tenho a sensação de que foi como se tivesse conhecido um anjo, ou bebido demais e  conhecido no delírio extremo da intoxicação alcoólica aquele ser. A minha boca ficou muito dolorida...
- Com certeza não foi um anjo!
-  Acordei,  olhei para todos os lados.  Estava sozinha.  Quando me dirigi para o carro onde estavam as minhas amigas,  notei que elas não me olhavam de um jeito especial, eu era somente mais uma, e não aparentava exalar nenhuma aura característica de quem havia vivido um mmento sublime de amor.   Durante o café da manhã eu pensava que tudo era de uma ficção fantasmagórica, pois tudo de melhor havia me acontecido e ninguém havia notado a menor diferença.
- Todos os seres estão interligados uns aos outros no universo...
- Não, você está enganada. O universo é indiferente com as nossas pequenas descobertas.  Então o que importa se alguém vive ou morre?  Ninguém vai se preocupar  mesmo! Desde que você não altere,  para o bem ou para o mal, a vida de alguém  você não existirá para ela...
- Você é muito pessimista... Interrompeu Padma.
 - Então, a partir daquele dia,  decidi que todas as minhas agonias e medos eram  invenções de minha cabeça, e dali por diante nunca mais haveria de me preocupar, aliás, iria viver como uma pessoa invisível, e viveria feliz, coisa que tenho feito muito bem até hoje não fosse a demonstração clara e cabal de que  universo se move sempre e a minha alma apesar de manter o mesmo frescor, habita a matéria em movimento deste mundo.
-  Você poderia mover-me como ele.  É a tua ilusão de realidade que cria a finitude... Tentou explicar Padma.
-  É muita teoria para quem queria  apenas ser feliz. Descobri que estava sozinha  sempre sozinha  e que não adiantaria fingir que alguém seria o meu  cúmplice.  Então decidi ser feliz e caminhar em direção ao meu propósito, ser feliz,  simples como simplesmente aceitar quem eu sou não permitindo que alguém perturbasse o curso de minha vida. É assim que cheguei até este momento em que contemplo a tudo de uma posição privilegiada aos 80 anos,  porque não me arrependo de nada. Vivi bem.  Vivo bem. Cometi os meus erros comigo mesma e do ponto de vista geral sou como uma vaga de espuma que faz desenhos na beira do mar,  mas logo em seguida é substituída por outra.
- E se você tivesse a chance de viver tudo novamente?
- Há uma coisa... Algo que fiz e se pudesse reviver aquele momento de ouro...
- O beijo?
- Não, os olhos de minha filha, recém-nascida que vi uma única vez...

***

- Você tem uma filha! Disse Padma.  E tudo mais foi silêncio.



Um comentário:

Tainá M. disse...

De certa forma todas as pessoas já passaram ou vão viver uma situação parecida a essa, a paixão é capaz de arrebatar o mais terrível coração. Aos 80 anos nada mais coerente do que lembrar-se da paixão de uma noite, mas o desejo reviver o amor de mãe é muito maior. Maravilhoso texto, será um bom livro.