12 de jun de 2011

PRIMEIRO CAPÍTULO DE COISA NENHUMA


Ou então começo algum para ficar no mesmo canto esperando que o último ônibus passasse.

Foi há algum tempo atrás. Estava numa parada de ônibus....

 Abrí meu laptop; a luz da tela de LCD iluminou o meu rosto.

"Vou ser assaltado", foi o pensamento que passou em minha cabeça.

Mas prosseguí. Abrí o processador de texto e digitei: "PRIMEIRO CAPÍTULO". Então parei um instante imaginando sobre o que deveria ser aquela coisa cujo primeiro capítulo acabava de se anunciar. Levei um tempo parado, as mãos sobre as teclas.

- "Puxa vida! Sobre que mesmo devo escrever?", pensei.

Mas os dedos continuaram ali sem mover-se. Então vi que surgiu do nada, do outro lado da rua uma figura. 

Na semi-escuridão que dominava o lugar, apenas via o seu vulto.

"Se for o assalto, entrego o meu laptop". Completei em minha mente.

Aquela criatura ficou do outro lado me olhando e eu paralisado, não sabia agora se era por causa da falta de assunto, ou do medo de qualquer coisa inesperada ao estilo dos filmes de terror de Hong Kong.

Digitei uma seqüencia de frases, umas dez ou vinte, ou trinta, não sei ao certo, um número x. Levantei o rosto e a vista acostumando-se a pouca luz delineou a presença de uma mulher sensual, tipo  prostituta de piada.

 Então pela minha mente passaram-se todas as lendas urbanas inclusive aquela da loura fantasma que vampiriza os incautos nas noites frias. Baixei a vista e digitei mais uma linha, numa lentidão de doer, machucando cada tecla, uma a uma, num ritmo riticoquiano (acho que posso escrever esta palavra, ninguém vai ler texto mesmo). 

Reli o texto e não gostei, que coisa aguada, sem graça, estava sem jeito de agüentar a mim mesmo. Então num ato suicida apertei a tecla back space e o cursor correu em direção ao inicio. Ficou o cursor piscando no vazio, como dando os últimos respiros. Contemplei aquele desesperado pedido de existência e fiquei imaginando a condição humana. Eu o criador me recusando a dar vida à criatura. 

Senti, então, um calor próximo ao meu corpo. Levantei um pouco a vista e vi aquele belo par de coxas brancas. Fiquei gelado.

"Morri". Foi o meu pensamento enquanto esperei o golpe fatal.

Fui levantando a vista. Uma mini-saia negra e brilhante. um cinturão de couro com aplicações de metal. A barriga nua e preso ao umbigo um peircing dourado com uma pedra preciosa que mais parecia um diamante. Um sutiã curto sobre os seios fartos. Um trancelim em volta do pescoço. Um queixo de porcelana. Uma boca que parecia uma nave perfeita para o paraíso. Batom de cor vermelha, um matiz intenso nos lábios molhados. Um nariz de desenho simétrico com outro piercing brilhante no lado esquerdo. Os olhos azuis.

-"Que coisa mais linda". Pensei.

Ela ficou parada diante de mim, colada aos meus joelhos. Nenhuma palavra. Eu ia dizer o que numa situação destas, não tive nem a iniciativa de dizer que ela podia levar o que quisesse, o computador, o celular, a carteira, as minhas roupas e até eu mesmo caso ela me achasse de alguma valia.

Como ela não dizia nada, eu já encabulado baixei a cabeça. E olhei para o teclado e para o cursor piscando agonizante.

-Por que você apagou. Ela falou com uma voz suave.

Na minha mente confirmaram-se as minhas suspeitas sobrenaturais. Aquela coisinha linda deveria ser o espírito protetor dos textos assassinados prematuramente.

-"Mas, eu sou o autor, posso fazer o que quiser". Pensei em justificar, mas diante do mistério e sabe lá o que esta coisa poderia se transformar. Já tinha visto muitos filmes de terror com situações parecidas. então não custava nada ficar imóvel.

Para completar o cenário, a luz do único poste que havia apagou-se. Não foi um simples apagamento, mas uma coreografia de despedida. Primeiro deu três piscadas, ficou ainda mais intensa, piscou mais três vezes, mas desta vez um pouco irregular como se lamentasse a sua partida e por fim, ficou com uma intensidade muito grande e foi apagando como se gargalhasse em pequenas piscadas até a escuridão total. Ainda deu uma última piscada e depois disso éramos eu e a mulher,  iluminados apenas pela luz da tela de LCD.

Eu tinha comigo de que numa situação dessas eu iria abrir o berreiro, mas não, eu fiquei calmo, parecia até que eu estava com aquela bela mulher na cobertura de um edificio com amigos tomando um suco de laranja. E ao fundo a paisagem de uma pradaria verdejante de um dia de verão.

"Só faltava chover". Disse-me a mim mesmo.

Um raio cortou o céu. O trovão foi tão forte que fez vibrar os meus dentes. Para um filme de terror até que aquela situação ia bem, mas para alguém que estava somente esperando um ônibus...

- Você não fala? Ela perguntou-me.

Eu levantei a vista com certo cuidado.

-"É agora que esta coisa vai botar os chifres para fora".Pensava.

- Eu não vou te fazer mal.

- "Ainda não".

Olho no olho. Numa outra ocasião poderia até ser uma cena romântica. Então ela sentou-se ao meu lado. A luz de outro raio nos iluminou fortemente. Outro estrondoso trovão. Ela fitou o cursor piscando. Ficamos assim congelados por algum tempo. Se eu escrevesse aqui que foi uma eternidade, seria o lugar comum destas estórias, mas admito que neste caso, quando a gente está diretamente envolvida, com o corpo a perigo, a mente em pavorosa, é exatamente este o tempo de cada milésimo de segundo: uma eternidade.

- O que você estava escrevendo?

-"Algo, que nem sei". Foi o meu pensamento.

- Escreve algo. Ela pediu com uma voz mansa próximo ao meu ouvido.

Quase que eu caía na sua lábia. Um pedido destes ao pé da orelha com aquele hálito quente; quantas guerras não haviam começado com um pedido daqueles. Outra coisa que me passou pela cabeça foi que aquela coisinha deveria ser uma vampira arrumando um jeito gracioso de aproximar-se de minha jugular. Então cliquei uma letra qualquer. Saiu um Z.

-Z, para que serve um Z?

- "Vá zimbora daqui", brinquei em pensamento.

- Um z, lembra um besouro, não é, zzzzzzzzzzzzzzzzzz, voando e fazendo círculos no ar e pousando bem no meio de seu ninho. Ela falou, imitando o besouro com a mão direita, fazendo piruetas e finalizando com a mão sobre a minha cabeça.

-"Seja rápida". Foi o meu pedido interior.

Ela espanou os meus cabelos que se desalinharam sobre o meu rosto. Tinha os cabelos longos, mas desde aquela data os mantenho-os cortados no modelo mais tradicional possível.

-"Se eu desejar que ela dance uma coreografia de pole dance...". Nem terminei o meu pensamento.

-Vire a sua luz para mim, vou precisar dela, vou dançar para você.

Ela dançou; parecia voar fazendo manobras no cano do poste de iluminação como uma águia voando em busca de sua caça.

Estava com medo de desejar alguma coisa. Até agora dois pensamentos e dois acontecimentos. Era uma estatística de 100% de acerto.

- Me acompanhe com a luz enquanto eu me movimento. Ela ordenou.

Levantei-me com a tela do laptop virada na direção dela e fui acompanhando aquele corpo sensualíssimo fazendo acrobacias na haste do poste. Aqui e acolá relâmpagos e trovões. Eu já estava conformado com a cena.

Ela subiu até o ponto mais alto, hoje na memória tenho algo difuso como se ela tivesse ido até às nuvens e descido de cabeça até a minha altura. Deu um giro, ficou de pé rente ao meu corpo. Dava para senti-la, a palpitação de seu coração, o cheiro de seu suor.

- Gostou?

Eu imóvel. Ela excitada. Eu fazendo a conta de meus últimos instantes sobre a terra e ela a fim de me comer(no sentido literal de alimentar-se).

-"vou dizer o que?". Perguntei-me em pensamento.

- Diga qualquer coisa.

Eu ia abrindo os lábios quando ela avistou os faròis do ônibus que se aproximava. Olhou-me com certa fúria e correu em direção a um matagal próximo.

O farol do veículo de passageiros aproximou-se como uma carruagem de fogo iluminando-me no meio daquele negrume. Subi a bordo. Haviam outros, cada qual com a sua estória daquele dia de inverno. Olhei pela janela procurando ver aquela mulher.

- Viu alguma coisa? Perguntou-me o motorista

- Não. Respondi.

- Teve sorte.

O ônibus caminhou por aquelas ruas escuras, vencendo a chuva que se tornara muito mais forte.

Vez ou outra a imagem daquela mulher voltava para a minha mente. Assustava-me com a possibilidade de ela estar me espreitando atrás de alguma porta. Desenvolvi uma certa paranoia.

Voltei algumas vezes ao local durante o dia procurando encontrar explicações para o ocorrido.

Então veio-me a mente a idéia de escrever esta estória e fechar o ciclo daquela experiencia. Certas coisas precisam encontrar um final adequado, como um namoro que acaba num meio de uma chuva intensa. Aquela presença iria gostar deste texto e eu poderia inverter a polaridade e perguntar-lhe:

-Gostou? 

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